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domingo, 29 de agosto de 2010

Os anos 80 - parte 4 (final)

CRONOLOGIA
Datas e fatos que marcaram a década



    
    1979
    
    JANEIRO
    Lançamento da primeira edição da revista mensal Somtrês, importante fonte de informação sobre música e equipamento de som e vídeo. Sai de circulação em janeiro de 89. 

    JULHO 
    Lançamento do LP Rita Lee, responsável pela ascenção da cantora ao posto de estrela solitária da nossa música pop, graças aos hits como "Mania de você" e "Chega mais". O LP foi um precursor da primeira faser do rock nacional dessa década - que só estouraria em 82, com a Blitz. 

    AGOSTO
    Estreia no circuito americano o filme Apocalipse Now, o pesadelo definitivo de Francis Ford Coppola sobre o inferno do Vietnã. Bombar, surfe, sangue, coelhinhas d Playboy e uma atuação inesquecível de Marlon Brando, ao som de Ricard Wagner, Doors e Rolling Stones.

    SETEMBRO
    O grupo irlandês U2 lança seu primeiro compacto, "U2-3", com três faixas. O sucesso do lançamento independente tornaria possível o futuro contrato com a Island Records.

    1980

    25/03 - O LP The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, bate o recorde de permanência na parada da revista norte-americana Billboard: 303 semanas consecutivas, sendo 15 delas no primeiro posto.
    29/04 - Morre Alfred Hitchcock. Um dos maiores cineastas do século, Hitchcock elevou o suspense à categoria de grande arte, assustando várias gerações de cinéfilos com filmes como Rebecca (1940), Janela Indiscreta (1954), Psicose (1960) e Os Pássaros (1963).
    1/05 - Sai o número 1 da revista inglesa Face, que geraria uma série de imitações ao lançar uma nova proposta editorial - unindo música, moda e estilo.
    18/05 - Ian Curtis, letrista e vocalista do Joy Division, comete suicídio, aos 23 anos. Com ele, morre uma das mais importantes bandas do pós-punk inglês.
    22/09 - Começa a guerra Irã/Iraque, que se prolongaria por oito anos, matando cerca de um milhão de pessoas. A disputa, envolvendo questões econômicas (petróleo) e políticas (Irã X EUA), termina com um acordo entre as partes, no final de 88.
    25/09 - Morre John "Bonzo" Bonham, baterista do Led Zeppelin. Bonham, 32 anos, morreu de overdose alcoólica, na casa de Jimmy Page, guitarrista da banda. Após sua morte, os outros integrantes do Led anunciaram seu fim.
    8/12 - John Lennon é assassinato com sete tiros em frente ao edifício Dakota, em Nova York, onde morava. O autor do crime é Mark Chapman, um fã dos Beatles que conseguira um autógrafo com John poucas horas atrás. O ex-Beatle acabava de lançar o LP Double Fantasy e estava com quarenta anos.

    JANEIRO
    O Aborto Elétrico - grupo que servirá de embrião para o Legião Urbana e o Capital Inicial faz seu primeiro show no bar Gilberto Salomão, em Brasília.  
    Lançamento de Pretenders, primeiro álbum da banda. Um marco feminino na história do rock, tanto pela combinação rock/baladas, quanto pelas letras provocativas de Chrissie Hynde. 
    Lançamento de London Calling, o terceiro do Clash. Neste álbum duplo, a banda deixa para trás o radicalismo punk para incorporar à sua música o rockabilly, o reggae e o som de Nova Orleans.

    MARÇO 
    Lançamento de Get Happy!!, o LP onde Elvis Costello mostra sua atração pela black music.

    MAIO 
    Lançamento da revista Canja, que terá apenas dezesseis números.

    JUNHO 
    Estréia nos EUA o filme Mad Max, do australiano George Miller. É a entrada em cena do violento herói da Terra devastada pelo futuro (encarnado por Mel Gibson).

    JULHO 
    Lançamento de Closer, segundo LP do Joy Division. Uma das obras-primas da década, influenciaria dezenas de grupos pelo mundo afora (inclusive no Brasil).  - -
    xtinção da TV Tupi, a primeira a ser instalada no Brasil. Os problemas resultantes da má gestão da emissora levam o governo a não renovar a sua concessão.
   
    OUTUBRO
    Lançamento de Dirty Mind, terceiro LP de Prince. Aqui, ele encontra sua voz e seu estilo, além de eternizar o casamento sexo/religião que permeará os trabalhos seguintes. 
    Lançamento de Remain in Light, quarto dos Talking Heads, Byrne ousava na mistura entre o pop e a música africana, num dos melhores trabalhos do produtor Brian Eno.

    NOVEMBRO
    Ronald Reagan é eleito presidente dos Estados Unidos. É a vitória do pensamento conservador norte-americano que, via partido republicano, defende a soberania americana (leia-se defesa militar) acima de todas as coisas. 
    A espaçonave americana Voyager I mostra, pela primeira vez, imagens dos anéis de Saturno - não seis, como se pensava, mas centenas deles.

    DEZEMBRO
    O Camisa de Vênus sobe ao palco pela primeira vez, num sítio em Salvador.


    1981

    20 e 21/03 - O Queen faz no Morumbi (SP) suas duas únicas apresentações no Brasil.
    30/04 - Duas bombas explodem no estacionamento do Riocentro, durante um show promovido pela Centro Brasil Democrático, apoiado pelo Partido Comunista Brasileiro. O ataque de direita acaba vitimando um militar, o sargento Guilherme Rosário. Em seis meses, o caso seria encerrado.
    11/05 - Morre Bob Marley, de câncer, aos 36 anos. Ao lado dos Wailers, sua banda, difundiu o reggae por todo o mundo, tornando se um herói nacional na Jamaica e um dos artistas mais influentes da década.
    10/07 - O grupo Gang 90 & Absurdettes toca "Perdidos na Selva" na eliminatória do MPB Shell, o festival da Globo. A banda carioca liderada por Júlio Barroso lança na Globo a onda que dominaria o rock "carioca": a new wave.
    22/08 - Morre Glauber Rocha, de broncopneumonia, aos 42 anos. É o fim do gênio profético do cinema brasileiro, criador da "estética da fome", que fundiu o neo-realismo italiano, o cinema revolucionário soviético e a Nouvelle Vague de Godard, em obras-primas como Terra em Transe (67) e A Idade da Terra (80).
    10/10 - O grupo paulista Ira! estréia num festival de música punk da PUC (SP).
    13/12 - É decretado o estado de sítio na Polônia, como reação ao movimento revolucionário dos trabalhadores, liderados pelo sindicato Solidariedade, de Lech Walesa.

    JANEIRO 
    Os remanescentes do Joy Division reaparecem com um compacto, agora sob o nome de New Order. As duas faixas são "Ceremony" e "In a Lonely Place", ambas com letra de Ian Curtis e música de Joy Division. 
    Fim do grupo punk Generation X. O vocalista Billy Idol sai em carreira solo, e Tony James (baixo) fica livre para formar, um ano depois, o Sigue Sigue Sputnik.

    FEVEREIRO 
    A gravadora independente paulista Baratos Afins inicia suas atividades com o lançamento de Singin´Alone, do ex-mutante Arnaldo Baptista.

    ABRIL 
    A espaçonave Columbia sobe ao espaço pela primeira vez. É o início de uma nova era para as conquistas espaciais, já que agora as naves voltam intactas, ao contrário dos foguetes.

    JUNHO
    Pela primeira vez,uma publicação médica(Morbidity & Mortality, de Los Angeles) relata casos de pacientes com uma doença que mais tarde seria conhecida como AIDS. 
    Estréia mundial de Os Caçadores da Arca Perdida, o filme que resgatou o espírito das grandes aventuras e lançou o herói da década, Indiana Jones (Harrison Ford). 
    A TV Bandeirantes coloca no ar o programa Mocidade IndePendente, idealizado por Nelson Motta. O programa, aberto a bandas novas e independentes, não chega a completar um ano.


    1982

    16 e 17/02 - O Police faz suas duas únicas apresentações no Brasil, tocando no Maracanazinho em pleno carnaval.
    5/03 - Morre John Belushi, comediante americano que se notabilizou com o cult roqueiro Os Irmãos Cara-de-Pau  filme de John Iandis que traz participações de James Brown e Ray Charles, entre outros.
    16/06 - Morre James Honeyman-Scott, guitarrista dos Pretenders, de overdose, aos 25 anos.
    25/07 - Estréia no circuito norte-americano Blade Runner, de Ridley Scott, o cult movie da década, que funde a estética do filme noir com uma assombrosa cenografia futurista.
    16/09 - Lançamento de As Aventuras da Blitz, que trazia o hit "Você Não Soube me Amar" estopim da explosão do rock.
    22/10 - A Blitz faz o primeiro show da fase roqueira do Circo Voador (antes, reservado para o teatro), na praia do Arpoador, Rio. O circo servirá de base para a ascensão das bandas cariocas no ano seguinte.
    15/11 - O Brasil conhece sua mais ampla eleição, onde são escolhidos 22 governadores. A vitória é do PDS, com doze estados, contra dez da oposição.
    27/11 - Acontece no Sesc Pompéia, em São Paulo, o primeiro festival punk brasileiro, O Começo do Fim do Mundo, registrado no vinil de maneira independente. 1/12 Estréia mundial de E.T., uma das maiores bilheterias de todos os tempos.

    MARÇO
    Entra no ar a Fluminense FM, rádio alternativa carioca responsável pelo lançamento de bandas como Legião e Paralamas, ainda nas primeiras fitas demo.

    ABRIL 
    Lançamento de Grito Suburbano, primeiro vinil punk nacional, pelo selo independente Punk Rock. Participam as bandas Inocentes, Olho Seco e Cólera.

    MAIO 
    Começa a Guerra das Malvinas,desencadeada pela decisão do general Leopoldo Galtieri, então presidente da Argentina, de render os fuzileiros ingleses que guardavam as Ilhas. Na maior operação naval dos últimos 25 anos, Thatcher responde com cem navios, vencendo a guerra e matando 700 argentinos. É o fim do general e da ditadura militar argentina.

    AGOSTO 
    O grupo baiano Camisa de Vênus lança seu primeiro compacto, "Meu Primo Zé", pelo selo independente NN, alcançando grande popularidade local. 
    Lançamento da primeira edição da Roll, revista mensal de rock, extinta no final de 88.
   
    OUTUBRO 
    Estréia no circuito norte-americano Rambo, exemplo primeiro e modelar do revanchismo direitista e ressentido dos americanos derrotados no Vietnã. O filme do desconhecido diretor Ted Rotcheff deu origem não só a continuações como a um sem número de imitações.

    NOVEMBRO 
    Lançamento do livro Feliz Ano Velho, best-seller de Marcelo Rubens Paiva que teria 25 edições no ano seguinte, abrindo o caminho para outros autores jovens. Acabaria se transformando em peça(83) e filme(88).

    DEZEMBRO 
    Lançamento de "Everybody", primeiro single de Madonna. 
    Lançamento de Thriller, o maior fenômeno fonográfico da década e o disco mais vendido de todos os tempos.


    1983

    21/02 - O Van Halen inicia sua turnê pelo Brasil.
    14/04 - Morre Pete Farndon, baixista dos Pretenders, aos 30 anos, de overdose.
    18/06 - O Kiss faz o primeiro show da turnê brasileira, que incluirá Belo Horizonte (21/06) e São Paulo (25/06). 28/07 Abertura da casa noturna paulista Napalm, com shows das Mercenárias e Inocentes. O Napalm seria um dos principais redutos na new wave roqueira, abrindo espaço para os grupos da primeira geração dos anos 80.
    10/12 - Raul Alfonsin toma posse no governo argentino, restaurando a democracia no país. O novo presidente conta com amplo respaldo popular, após a malfadada empreitada militar nas Malvinas.

    JANEIRO 
    Os cientistas do Instituto Pasteur, nos Estados Unidos. conseguem isolar o vírus da Aids. Três meses depois, o ministro da saúde norte-americano anunciaria a "descoberta" do vírus por pesquisadores americanos. Ainda nesse ano, três mil casos da doença seriam registrados nos EUA
    Os Paralamas do Sucesso estréiam no Circo Voador. em um show ao lado de Lulu Santos. 
    O programa Fábrica do Som estréia na Rádio e Televisão Cultura (SP). Apresentado ao vivo no Sesc-Pompéia, mostraria em primeira mão grupos como Ultraje a Rigor e Ira!, além de um sem-número de bandas iniciantes de todo o país.

    MARÇO 
    Lançamento de "Blue Monday", do New Order, o compacto de doze polegadas mais vendido de todos os tempos. A música consagraria o grupo como o favorito nas pistas de dança nessa década. 
    Estréia na Globo o programa Cometa Loucura, com as bandas de rock nacional fazendo playbacks dos seus hits recentes.

    MAIO 
    Os Smiths lançam seu primeiro compacto,"Hand in Glove", ganhando rapidamente a atenção da mídia inglesa.

    JUNHO 
    A Aids faz sua entrada oficial em território brasileiro com a morte do costureiro Markito, aos 31 anos. Neste ano, mais nove pessoas morreriam de Aids no Brasil.

    JULHO 
    Os grupos de Brasília invadem o Rio: Legião, Plebe e Capital Inicial tocam no Circo Voador.

    AGOSTO 
    O Camisa de Vênus lança seu primeiro LP pela Som Livre.

    SETEMBRO 
    Os Paralamas tocam ao lado de Lobão no Danceteria, em Nova York. 
    Lançamento de Murmur, o primeiro do R.E.M., a mais bem-sucedida banda independente americana da década. Uma retomada do country-rock dos anos 60, sob uma Ótica atualizada.

    OUTUBRO
    Entra no ar a rádio 97 FM, a equivalente paulista da Fluminense, com destaque para fitas demo, independentes e rock em geral.

    NOVEMBRO 
    Lançamento de Cinema Mudo, o primeiro dos Paralamas, ainda em sua fase Police, com os hits "Vital e Sua Moto" e a faixa título.

     
    1984

    1/04 - Morre Marvin Gaye, o gênio da soul music, assassinado pelo próprio pai.
    25/04 - O Congresso Nacional não aprova a emenda Dante de Oliveira, que restituía as eleições diretas para presidente. Os deputados e senadores dizem não à vontade expressa em diversos comícios monstro nas capitais, na maior campanha popular da nossa história: Diretas Já!!! 27/05 O RPM sobe ao palco pela primeira vez na danceteria Zoom Cósmico, em São Paulo, num show de abertura para o Ira!.
    6/06 - Júlio Barroso; líder da Gang 90, cai da janela do seu apartamento e morre.
    30/07 - Estréia no Rio o filme Bete Balanço, a mais bem-sucedida combinação rock/cinema feita em território nacional. O filme de Lael Rodrigues é responsável por um dos maiores hits do ano, a música-tema, cantada pelo Barão Vermelho.

    FEVEREIRO 
    - Os Smiths lançam seu primeiro LP. A última banda de rock´n´roll do planeta faz o mundo se render ante o lirismo original de Morrissey e as guitarras vibrantes de Johnny Marr.

    MAIO 
    O Ira! tem seu primeiro compacto lançado pela WEA. "Pobre Paulista".

    JUNHO
    Lançamento do fanzine mineiro,Gass, que teria apenas dez números, o último deles lançado em março de 89.
    Os Titãs lançam seu primeiro LP e ganham o titulo de "new brega", graças ao hit metabrega "Sonífera Ilha". _  - Lançamento de Purple Rain, o disco que eleva Prince à categoria de fenômeno internacional, ganhando um Oscar (trilha sonora do filme do mesmo ano). 
    Com Born in the U.S.A., Bruce Springsteen se transforma no novo herói americano, criando o mito do pop star originário da classe trabalhadora.

    SETEMBRO 
    A TV Globo decide criar o seu programa de clips, passando a apresentar semanalmente o Clip Clip.

    OUTUBRO 
    Lançamento de O Passo do Lui, disco que consagra os Paralamas, com quase todas as faixas se transformando em hits. 
    O Brasil entra na era do CD, com o lançamento dos primeiros toca-discos digitais. 
    O bispo negro Desmond Tutu recebe o prêmio Nobel da Paz, pela sua luta contra o apartheid na África do Sul.  - Estréia no circuito norte-americano o filme Stranger Than Paradise, primeiro exemplar do cinema "minimalista" de Jim Jarmusch: trama simplíssima, poucos personagens, diálogos escassos e uma sensibilidade pós-moderna traduzida num preto e branco translúcido.

    NOVEMBRO 
    O RPM lança seu primeiro compacto. "Louras Geladas" é uma das músicas mais executadas em rádio no ano seguinte.
   
    DEZEMBRO 
    Bob Geldof (vocalista dos Boomtown Rats) reúne 41 artistas ingleses para a gravação de "Do They Know It´s Christmas", cuja renda será revertida para as vítimas da fome na Etiópia.

    1985

    11/01 - Começa o Rock in Rio, um festival de proporções gigantescas (dez dias, uma cidade montada especialmente para o evento etc) que coloca o Brasil no circuito de shows dos grupos internacionais e dá novo impulso ao rock nacional. Abertura - Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Pepeu e Baby, Whitesnake, Iron Maiden e Quenn.
    12/01 - Ivan Lins, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Al Jarreau, James Taylor e Geoge Benson.
    13/01 - Paralamas, Lulu Santos, Blitz, Nina Hagen, Go-go´s, Rod Stewart.
    14/01 - Moraes Moreira, Alceu Valença, James Taylor e George Benson.
    15/01 - Kid Abelha, Eduardo Dusek, Barão Vermelho, Scorpions, AC/DC.
    16/01 - Paralamas, Moraes Moreira, Rita Lee, Ozzy Osbourne, Rod Stewart.
    17/01 - Alceu Valença, Elba Ramalho, Al Jarreau, Yes.
    18/01 - Kid Abelha, Eduardo Dusek, Lulu Santos, Go-Go´s, B52´s e Queen.
    19/01 - Pepeu e Baby,Erasmo Carlos,Whitesnake, Ozzy Osbourne, Scorpions e AC/DC.
    20/0 - Barão, Gilberto Gil, Blitz, Nina Hagen, B52´s e Yes. 28/01 Lançamento do compacto "We Are The World" e do LP USA for África, resultado da união de quarenta e cinco astros da música norte-americana a fim de arrecadar fundos para combater a fome na África. O compacto, com música de Michael Jackson e Lionel Richie, serve ainda para projetar internacionalmente a imagem (e a voz) de Broce Springsteen.
    13/07 - Acontece o Live Aid: dois megashows realizados simultaneamente nos Estados Unidos e na Inglaterra, organizados por Bob Geldof para ajudar os pobres da Etiópia. No estádio Wembley, em Londres, tocam U2, David Bowie, Police, Paul McCartney, Pete Townshend, Elvis Costello e Bob Geldof. Na Filadélfia, no estádio John Kennedy, tocam Mick Jagger, Tina Turner, Led Zeppelin (especialmente reunido para a ocasião), Madonna, Duran Duran, Brian Adams, Eric Clapton, Phil Collins, Bob Dylan e Pretenders.
    2 a 6/08 - Acontece a primeira edição do Free jazz Festival em São Paulo. Os shows serão repetidos no Rio entre 5 e 11 de agosto. Participam Pat Metheny, Joe Pass e Bobby Mc Ferrin entre outros.
    17 e 18/08 - Acontece o primeiro festival de rock da Polônia, reunindo os melhores grupos do país.
    1/09 - Nina Hagen inicia sua turnê brasileira com um show no Sambódromo (RJ).
    19/09 - Estréia no Rio o show Rádio Pirata, com um RPM dirigido por Ney Matogrosso. Durante a turnê será gravado o LP Rádio Pirata Ao Vivo, responsável pela maior vendagem do rock nacional até hoje, mais de dois milhões de cópias.
    22/09 - O Tuca (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) é incendiado. O teatro havia sido um dos mais importantes centros de cultura alternativa nos anos 70. 2/10 Morre o ator Rock Hudson, vítima da Aids, chamando a atenção da opinião pública para o problema. Nos EUA, o número de vítimas fatais chega aos quinze mil. No Brasil, os números oficiais dão conta de 246 mortes.
    13/12 - Morre Ian Stewart, considerado o sexto Stone. Ian, primeiro pianista da banda, acabaria sendo seu tour manager, tocando eventualmente em shows e gravações dos Stones.

    MARÇO 
    Lançamento de Nós Vamos invadir Sua Praia, primeiro do Ultraje a Rigor. Com vários hits consecutivos, o Ultraje quebra a hegemonia carioca e entra para a primeira divisão do rock tupiniquim 
    Madonna alcança o estrelato com o LP Like a Virgin. Os oito hits do disco (entre as dez mais da parada) a transformam na maior estrela feminina da música pop da década.

    MAIO
    A dupla Wham! é a primeira banda de rock do mundo a tocar na China.

    JULHO 
    Lançamento do primeiro LP do Legião Urbana. 
    Um grupo de donas-de-casa de Washington organiza uma campanha a favor da censura para as letras de rock. A organização Parents Music Resource Center dará muita dor de cabeça aos roqueiros, especialmente na área do metal. 

    AGOSTO
    Vai para as bancas de todo o país o número 1 da revista BIZZ. 
    Cazuza deixa o Barão Vermelho e parte para a carreira solo. 
    O metal dá a sua resposta ao Live Aid, com um compacto em benefício das vítimas da tragédia na final da Copa dos Campeões, em Bruxelas. Participam Motorhead, Blade, Uriah Heep, entre outros. 
    Acontece na União Soviética o Festival da juventude, com dois grandes shows de rock reunindo bandas do mundo todo. O Brasil comparece com a Blitz.

    SETEMBRO
    Little Steven convoca vários artistas para a gravação do compacto "Sun City", um protesto contra o racismo na África do Sul. Participam Bono (U2), Lou Reed, Ramones, Afrika Bambaataa, 

    NOVEMBRO 
    Entra no ar em São Paulo a 89 FM, com uma ,programação alternativa dedicada ao rock.

    1986

    28/01 - A espaçonave americana Challenger explode no ar, na pior tragédia espacial dos últimos 25 anos. Morrem sete astronautas americanos, além da professora Christa McAuliffe, voluntária para a viagem.
    28/02 - O presidente José Sarney anuncia o Plano Cruzado, criando a nova moeda e congelando preços e salários por tempo indeterminado. Todo o ano será marcado pela euforia consumista - inclusive no setor fonográfico.
    7 e 8/03 - Kid Creole & the Coconuts iniciam sua primeira turnê brasileira, com dois shows no Rio. Seguem para Porto Alegre (11/03)e SP (13,14 e 15/03).
    15/04 - Os Estados Unidos bombardeiam a Líbia, provocando a ira do coronel Muamar Kadafi e fazendo com que o planeta vislumbre, mais uma vez, a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial.
    21 a 25/04 - Acontece no Royal Albert Hall, em Londres, uma série de concertos em benefício do movimento internacional ecológico Greenpeace. Participam, entre outros, Waterboys, Lloyd Cole & The Commotions, Cure e Echo & The Bunnymen.
    30/05 - Acontece na União Soviética um superconcerto em favor das vítimas do acidente nuclear de Chernobyl. Vinte e cinco mil pessoas assistem aos shows dos grupos locais como o Alla Pougatchova.
    14/06 - Morre Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores do século. O escritor argentino morre aos 87 anos, vítima de câncer no fígado.
    27/06 - O Wham! realiza seu último concerto no estádio londrino de Wembley, para 75 mil pessoas. É o começo da ascensão meteórica de George Michael, agora em carreira solo.
    30/06 - Estréia na TV Globo o programa Xou da Xuxa, que será o líder de audiência no horário e transformará a ex-modelo em estrela do mundo infantil.
    6/07 - Começa a Conspiracy of Hope, uma turnê que percorrerá os Estados Unidos durante um mês arrecadando fundos para a Anistia Internacional. As estrelas da turnê são o U2, Lou Reed, Peter Gabriel, Bob Dylan e o Police (reunidos especialmente para o evento).
    26/09 - Morre, em um acidente de ônibus, Cliff Burton, baixista do Metallica.
    27/11 - Siouxsie and the Banshees iniciam turnê com quatro shows em São Paulo, tocando ainda em Santos (29/11) e Rio (3/12).
    3/12 - Venom e Exciter iniciam em Brasília uma tumultuada turnê, que passará pelo Rio e São Paulo.

    JANEIRO 
    Estréia na TV Globo o programa Mixto Quente, com bandas de rock tocando ao vivo - uma exceção no mar de playback da televisão brasileira, que dura alguns poucos meses.

    FEVEREIRO 
    Leoni briga com Paula Toller e deixa o Kid Abelha, partindo para criar sua própria banda, os Heróis da Resistência.

    ABRIL 
    A explosão de um reator na usina soviética de Chernobyl provoca o maior acidente nuclear da história, com dezenas de mortos na primeira semana e mais de vinte mil pessoas contaminadas pela radiação. As conseqüências do desastre chegam até o Brasil, através de leite e carne contaminados importados da Europa.
    A Terra recebe mais uma vez a visita do cometa Halley, que pode ser visto apenas a cada 76 anos. É a decepção do ano, já que nem os binóculos conseguem proporcionar um boa visão do cometa. 
    Depois de vinte meses de detenção, é libertado o cantor nigeriano Fela Kuti, um dos mais importantes nomes da música africana. O cantor, um militante político em seu país, havia sido preso em função de pressões do regime militar. 
    Pop Stars ingleses criam a AAA - Artists Against Apartheid - programando shows de protesto contra o regime sul-africano e comprometendo-se a não comercializar seus discos naquele país. Participam da associação Simon Le Bon (Duran Duran), Sade, Style Council, Pet Shop Boys e Siouxsie and the Banshees, entre outros. 
    Simon Le Bob, John Taylor e Nick Rhodes voltam a gravar juntos, depois do racha Power Station/Arcadia. Mas o Duran Duran perde dois integrantes no caminho: Andy e Roger Taylor. 
    Lançamento de Cabeça Dinossauro, o LP que marca a virada decisiva na carreira dos Titãs.

    JULHO 
    Boy George interna-se numa clínica para livrar-se da heroína. É o começo do escândalo que quase acaba com a carreira de Boy, envolvido na morte do músico Michael Rudetsky, vítima de overdose de heroína. 
    Lançamento de Dois, o segundo do Legião Urbana. Com hits como "Tempo Perdido", "Eduardo e Mônica" (e quase todas as outras faixas do LP), o Legião é a banda do ano.  - Em Manchester, algumas bandas locais se reúnem para comemorar os dez anos do movimento punk: Smiths, New Order, Fall e Durutti Column participam da festa, e aproveitam para homenagear Ian Curtis, o ex-vocalista do Joy Division.

    AGOSTO 
    O Police volta a se reunir para regravar seus hits -  apenas "Don´t Stand So Close To Me" é aproveitada, entrando na coletânea Every Breath You Take (86).  
    Lançamento de Graceland, a incursão de Paul Simon pela música sul-africana, que acabou gerando uma grande polêmica: será que Simon furou o boicote, ao gravar seu disco em plena África do Sul?

    OUTUBRO 
    O UB40 excursiona pela União Soviética, numa miniturnê que será transformada em vídeo.

    NOVEMBRO 
    Lançamento de Bruce Springsteen and the E Street Band, 1975-1985, uma caixa com cinco LPs ao vivo do cantor, gravados em vários shows durante a década. O álbum quíntuplo vende um milhão e meio de cópias em apenas um dia, nos Estados Unidos. 
    Os Dead Kennedys, uma das mais importantes bandas do movimento punk da Califórnia, anuncia seu fim, depois da saída do guitarrista East Bay Ray. 
    Os roqueiros decidem se comprometer com mais uma causa: a defesa dos direitos dos animais, representada pela PETA (People for the Ethical Treatment of Animais). Animal Liberation, um disco em benefício da PETA, conta com as presenças dos Smiths, Nina Hagen e Red Hot Chilli Peppers, entre outros. 
    Estoura nos Estados Unidos o escândalo envolvendo a remessa ilegal de dinheiro para os contras da Nicarágua. Para piorar as coisas para o lado de Reagan, o dinheiro seria resultado da venda (também ilegal) de armas para o Irã. No final, a culpa toda acabou caindo sobre o coronel Oliver North, assessor do Conselho de Segurança Nacional.

    DEZEMBRO 
    Andy Rourke, baixista dos Smiths, escapa de uma sentença de seis meses por posse de heroína, pagando uma fiança de mil libras.


    1987

    30, 31/01 e 1/02 - Os Ramones fazem suas únicas apresentações no Brasil, tocando em São Paulo, no Palace.
    2/02 - Os fãs dos Titãs destroem completamente as cadeiras do teatro Carlos Gomes, no Rio, durante uma apresentação da banda.
    22/03 - Morre Andy Warhol, uma figura-chave do século, responsável pela implosão do conceito das Belas Artes, aproximando-as das artes pop - cinema, rock, televisão e multimídia.
    20/03 - O Cure inicia sua turnê pelo Brasil, com um show em Porto Alegre. Depois, seguem para Belo Horizonte (25), Rio (27 e 28) e São Paulo (31/03, 1 e 2/04).
    1/04 - Com um show em Tempe, Arizona, o U2 dá início à turnê The Joshua Tree, que consolidará sua posição de maior banda de rock da década. Será na segunda parte desta turnê, nos Estados Unidos, que a banda irlandesa realizará as gravações e filmagens para Rattle and Hum - filme e disco lançados no ano seguinte,
    9/04 - Começa a turnê do Echo & The Bunnymen no Brasil, com um show em Porto Alegre. Daí, o Echo segue para São Paulo (11 a 17/04) e Rio (19 e 21/04).
    06/06 - O Public Image Ltd. de John Lydon estréia no Rio, fazendo dois shows no Canecão. Seguem para São Paulo (17, 18 e 19).
    28/0 - O alemão Mathias Rust, dezenove anos, pousa seu monomotor em Moscou, a poucos metros do Kremlin. O feito rende quatro anos de prisão para Rust, além da demissão do Ministro da Defesa Soviético.
    4/07 - Os Paralamas tocam na noite brasileira do Festival de Montreux.
    8/08 - Johnny Marr anuncia sua saída dos Smiths. Algumas semanas depois, Morrissey admitiria o final de uma das bandas mais importantes da década.
    13/08 - O Big Audio Dynamite dá início à sua turnê brasileira, que se estende até o dia 23, com shows em SP e Rio.
    11/09 - Morre Peter Tosh, um dos maiores expoentes do reggae, responsável pela união entre a dança africana e uma mensagem de protesto contra o racismo. Tosh foi assassinado por ladrões aos 39 anos.
    18/09 - O Bolshoi inicia turnê brasileira com show no Scala (RJ), seguindo para Santos (19), Santo André (20), São Paulo (21 e 22) e Porto Alegre (23).
    21/09 - Morre Jaco Pastorius, um dos baixistas mais influentes do jazz-rock e considerado um dos melhores em seu instrumento em todos os tempos. Pastorius, ex-baixista do Weather Report, morreu em conseqüência de uma briga com um segurança de uma casa noturna americana.
    1/10 - O país toma conhecimento da tragédia de Goiânia, o maior acidente já ocorrido no mundo envolvendo o césio. A substância radioativa contamina boa parte da cidade depois que um dono de ferro velho compra a sucata do Instituto Goiano de Radioterapia - que inclui cápsulas de césio. Além das duas vítimas fatais, o acidente deixa o estigma da contaminação sobre a cidade.
    12 a 14/10 - O Rush Hour - banda formada pelos ex-Police Stewart Copeland e Andy Summers mais Stanley Clarke e Debra Holland - toca no projeto SP. O grupo faz mais duas apresentações (17 e 18) no Canecão, Rio.
    19/10 - A Bolsa de Valores de Nova York quebra, varrendo bilhões de dólares do mercado. A quebra é resultado do desequilíbrio da economia americana, afogada em dívidas.
    8/12 - Estados Unidos e União Soviética dão um passo decisivo na direção da paz, com uma reunião de cúpula entre Reagan e Gorbachev. Juntos, eles decidem eliminar uma categoria inteira de armas atômicas: os mísseis de curto e médio alcance.
    9/12 - Os principais dirigentes da Anistia Internacional se unem aos pop stars Sting e Peter Gabriel para anunciar, em São Paulo, o lançamento da campanha Human Rights Now, que levará os astros da música pop aos países do terceiro mundo - inclusive o Brasil.
    12/12 - O Camisa de Vênus faz o seu último show, no clube Caiçara, em Santos.

    MARÇO
    A TV Cultura coloca no ar o programa Boca Livre, um espaço aberto para bandas iniciantes.
    Lançamento do ABZ do Rock Brasileiro, um apanhado de Marcelo Dolabela com discografias de boa parte das bandas de rock já surgidas em território nacional.
    O grupo punk paulista Cólera inicia turnê pela Europa, cobrindo até o mês de julho nove países, com 57 shows.

    MARÇO
    Lançamento do álbum duplo Sign´O´The Times, o mais eclético da carreira de Prince, que teria sua turnê transposta para as telas, com um filme do mesmo nome lançado ainda nesse ano.

    JULHO
    Lançamento de Estação Primeira, primeiro LP do Gueto. O funk deixa as pistas de dança e ganha um registro no vinil, prenunciando a onda funk/hip hop do ano seguinte.

    AGOSTO
    O Pink Floyd anuncia sua volta, com o baixista Tony Levin no lugar de Roger Waters, que segue em carreira solo.
    Paulo Ricardo e Luiz Schiavon anunciam o final do RPM, encerrando a carreira da banda de rock mais bem-sucedida de nossa história. No ano seguinte, eles fariam uma nova tentativa com Quatro Coiotes, mas acabariam decidindo pelo fim da banda.
   
    SETEMBRO
    Início da turnê Bad, em Tóquio. Segundo Michael Jackson, esta deve ser a última turnê de sua carreira - já que ele pretende se dedicar mais ao cinema.

    OUTUBRO
    Brian Eno visita o Brasil, por ocasião da Bienal de São Paulo, onde são mostrados dois vídeos seus.
    Pela primeira vez, duas bandas soviéticas de rock deixam a terra natal. O Autograph e o Dialogue tocam no Hammersmith Odeon, em Londres.


    1988

    6/01 - Começa na Apoteose a fase carioca do Hollywood Rock. Os shows, repetidos em São Paulo (Morumbi) de 13 a 16 de janeiro, foram os seguintes: Abertura: Ira!, Titãs e Pretenders.
    7/01 - Paralamas, UB40 e Simple Minds.
    8/01 - Ultraje a Rigor, Simply Red e Duran Duran.
    9/01 - Lulu Santos, Marina e Supertramp.
    9 e 10/0 - Tina Turner faz duas apresentações em São Paulo, seguindo para o Rio, onde toca no Maracanã (16).
    25/02 - Estoura nos Estados Unidos o maior escândalo da década envolvendo a payola - mais conhecida entre nós como "jabá". Dois divulgadores independentes são acusados de realizar pagamentos totalizando 270 mil dólares para rádios americanas executarem Duran Duran, Janet Jackson, Culture Club e outros.
    9/04 - James Brown inicia sua segunda visita ao Brasil com um show no Maracanãzinho, no Rio. Segue para São Paulo, tocando de 12 a 15 no Palace e 16, no Chic Show.
    22/04 - A banda de thrash metal alemã Exumer faz uma única apresentação no Ginásio da Portuguesa, em São Paulo, com shows de abertura das nacionais Sepultura, Dorsal Atlântica e Harppia.
    29,30/04 e 1/05 - A banda inglesa Toy Dolls faz três shows em São Paulo, no Projeto SP.
    13/05 - Morre Chet Baker, uma das maiores expressões do cool jazz, aos 58 anos, depois de cair do segundo andar de um hotel.
    11/06 - Acontece no estádio de Wembley, em Londres, o Free Mandela Concert. George Michael, Peter Gabriel, Dire Straits, Simple Minds e Tracy Chapman são alguns dos artistas que pedem a liberdade para Nelson Mandela, um dos líderes da luta antiapartheid, completando 70 anos na data.
    18/06 - Um show do Legião Urbana no estádio Mané Garrincha, em Brasília, acaba em tumulto, com depredação do palco e da aparelhagem de som, e mais de trezentos feridos. O incidente levanta a polêmica sobre a responsabilidade da banda.
    30/06 - Morre aos 71 anos, vítima de uma parada cardíaca, Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Considerado um dos maiores comunicadores que o país já teve, Chacrinha teve papel decisivo na divulgação de artistas novos, inclusive no setor roqueiro.
    8/07 - Os Titãs se tornam a primeira banda brasileira a tocar na noite do rock do Festival de Jazz de Montreux. Em seguida, fazem uma miniturnê em Portugal, de 12 a 16 de julho.
    18/07 - Morre, vítima de um derrame cerebral, a cantora Christa Pffagen, mais conhecida no círculo do rock como Nico. Além de participar do primeiro LP do Velvet Underground, Nico construiria nos anos 70 uma sólida carreira solo.
    26/07 - O Jethro Tull inicia sua turnê brasileira - parte da excursão mundial que comemora os 20 anos do grupo - com um show no Mineirão, em Belo Horizonte.
    30/07 - Iggy Pop aterrissa no Brasil e faz alguns dos melhores shows no ano. São três apresentações no Projeto SP (30 e 31/07 e 4/08) e duas no Rio (2 e 3/08).
    30/07 - Ian McCulloch anuncia o fim do Echo & The Bunnymen, depois de quase 10 anos de carreira.
    12 a 14/08 - O grupo inglês Mighty Lemon Drops faz três apresentações em São Paulo (Projeto SP), seguindo para o Rio (15).
    9/08 - O Mission inicia turnê brasileira, com três shows em São Paulo, seguindo depois para o Rio (6) e Porto Alegre (13).
    10/08 - O grupo alemão The Blech inicia sua turnê no Rio, seguindo para Brasília, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e São Paulo.
    20/08 - Duas pessoas morrem em conseqüência dos tumultos durante o festival Monsters of Rock, em Donnington, Inglaterra. No palco, estão Guns N´Roses, David Lee Roth e Iron Maiden, entre outros.
    2, 3 e 4/09 - A Grécia é o palco de um dos maiores tumultos da história do rock. Durante um festival em Atenas, são jogados coquetéis molotov no palco e a aparelhagem é incendiada. Participavam do evento o PIL, Jesus & Mary Chain e Triffids.
    25/09 - Em São Paulo, dezenas de pessoas são pisoteadas em um show realizado no Parque do Carmo para cerca de 600 mil espectadores, com as presenças de Tim Maia e Titãs, entre outros.
    12/10 - A turnê da Anistia Internacional chega ao Brasil. Quem exige Direitos Humanos Já são Youssou N´Dour, Milton Nascimento, Tracy Chapman, Peter Gabriel, Sting e Bruce Springsteen.
    21/10 - O Church abre sua turnê brasileira com três shows no Projeto SP, partindo depois para uma única apresentação no Rio (25).
    6/12 - Morre Roy Orbison, uma das lendas do rock´n´roll, que colecionou hits clássicos entre 59 e 64. Depois de sua morte, Orbison teria ainda um LP lançado, Mystery Girl.
    15/12 - James Brown é condenado a seis anos de prisão num instituto penal da Carolina do Sul, EUA. O Godfather do Soul é acusado de assalto à mão armada e resistência à prisão.
    22/12 - É assassinado o líder sindical Chico Mendes, também dirigente da CUT, um dos fundadores do PT e defensor incansável da Floresta Amazônica.

    JANEIRO
    Fim da banda inglesa Housemartins, que acabaria fazendo sucesso no Brasil durante todo o ano com a música "Build", do seu penúltimo LP, The People Who Grinned Themselves to Death.

    MAIO
    Lançamento do LP Ideologia, de Cazuza. O ex-vocalista do Barão Vermelho é aclamado por público e crítica, partindo para a gravação de um álbum ao vivo.

    ABRIL
    O grupo mineiro Sepultura assina com o selo alemão Road Runner, dando impulso a sua carreira internacional - em 87, eles foram considerados uma das melhores bandas de thrash metal do mundo pela Kerrang, a bíblia do metal.

    JUNHO
    Boy George lança o single "No Clause 28", um protesto contra a cláusula do código civil britânico que proíbe e condena o homossexualismo.
    A Motown, gravadora que moldou o pop negro a partir dos anos 60, é vendida por Berry Gordon Jr. para a MCA/Boston Ventures.

    JULHO
    Paul McCartney lança com exclusividade para a União Soviética o álbum Back in the USSR - uma coletânea de covers de clássicos do rock´n´roll.

    AGOSTO
    Albert Goldman lança seu livro The Lives of John Lennon, que provoca uma polêmica sobre o verdadeiro caráter do ex-beatle. O livro é rebatido por Yoko Ono, com o pacote Imagine - livro, disco e filme lançados em outubro desse ano.

    OUTUBRO
    É sancionada a nova Constituição brasileira, à primeira depois do fim da ditadura.

    NOVEMBRO
    Tropas do Exército matam três operários em Volta Redonda, durante a repressão à greve dos metalúrgicos da Siderúrgica Nacional.

    DEZEMBRO
    É fundada a Stop the Violence, uma associação formada pelos rappers para desvincular o rap da imagem de violência propagada pela mídia. Public Enemy, Boogie Down Productions e Kool Moe Dee gravam para a associação o compacto "Self Destruction".


    1989

    15/01 - Sarney anuncia o Plano Verão, congelando mais uma vez preços e salários. Três anos depois do Plano Cruzado, o país ganha uma nova moeda, o novo cruzado.
    8/02 - Morre Lael Rodrigues, diretor dos filmes Bete Balanço, Rock Estrela e Rádio Pirata - que transportaram a explosão do rock nacional desta década para as telas.
    14/02 - O aiatolá Khomeini condena à morte Salman Rushdie, autor do livro Versos Satânicos - considerado ofensivo à religião islâmica. O ataque à liberdade de expressão tem repercussão no mundo pop, com Cat Stevens tendo seus discos queimados por apoiar o aiatolá.
    4/03 - O grupo Time Inc. funde-se à Warner Communications, formando a Time Warner - o maior conglomerado de jornalismo e entretenimento dos Estados Unidos, reunindo revistas, televisão, rádio, cinema e livros.
    10/03 - Noel abre sua turnê brasileira com dois shows no Projeto SP, seguindo para Ribeirão Preto (SP, 12/03), Rio (14), Santos (18) e voltando para São Paulo (19).
    11 e 12/03 - O Motorhead faz duas apresentações no Ibirapuera (SP), seguindo para o Rio (15) e Porto Alegre (18).
    23/03 - Rod Stewart inicia turnê brasileira com show no estádio Orlando Scarpelli, em Florianópolis. O cantor segue para Porto Alegre (26), Rio (31)e São Paulo (29/03 e 2/04).
    26/04 - A revista Veja coloca na capa uma foto de Cazuza com a chamada: "Uma vítima da Aids agoniza em praça pública". Capa e matéria são repudiadas pelo cantor e provocam intensa polêmica nos meios artístico e jornalístico.
    2/05 - Uma bomba destrói o monumento construído em homenagem aos operários mortos pelo Exército em Volta Redonda, na greve do ano anterior. É o maior atentado de direita desde o Riocentro, em 81.
    9/05 - O Sigue Sigue Sputnik inicia sua turnê brasileira com dois shows no Canecão, no Rio, seguindo para São Paulo, onde tocam no Projeto SP (12 a 14).
    22 e 23/05 - Os Ambitious Lovers fazem duas apresentações no Canecão (RJ), seguindo para São Paulo (Palace, 24 e 25).
    5/06 - No dia mundial do meio ambiente, é lançado o projeto "Spirits of the Forest" - compacto, álbum e documentário sobre os índios da Amazônia. Na gravação de "Spirits..." estão setenta artistas, entre eles Iggy Pop, Ringo Starr, David Gilmour, John Anderson e os brasileiros Gilberto Gil e Rita Lee.
    15 a 18/06 - Acontece o primeiro festival de blues brasileiro, no ginásio do Cave, em Ribeirão Preto (SP). Entre os participantes Etta James, Buddy Guy e André Christóvam.
    27/06 - O Who abre sua turnê comemorativa de 25 anos de carreira com uma apresentação da ópera-rock Tommy no Radio City Music Hall, em Nova York, partindo para uma série de 35 shows nos Estados Unidos.

    JANEIRO
    A Glasnost se estende ao rock com o lançamento do álbum Greenpeace - Breakthrough na União Soviética. Participam do disco U2, Dire Straits, Sting, R.E.M. e Peter Gabriel.
    O baixista Renato Rocha deixa o Legião Urbana.

    FEVEREIRO
    Pela primeira vez, um brasileiro fatura o Grammy de melhor cantor pop latino. O premiado pela Academia de Artes e Ciências fonográficas dos Estados Unidos é Roberto Carlos.
    Deep Purple, Joe Cocker e Tangerine Dream tocam em Moscou, em benefício das vítimas do terremoto da Armênia.
    Paul McCartney é o primeiro astro do rock a falar pela BBC soviética - respondendo diretamente às perguntas dos beatle-maníacos daquele país.
    Keith Richards anuncia a volta dos Rolling Stones, com uma excursão pelos Estados Unidos a partir do dia 4 de setembro.
    Sting vem ao Brasil participar do I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, no Pará.

    MARÇO
    Paul Simon faz sua segunda visita ao Brasil, e grava três bases para seu novo LP como grupo mineiro Uakti.
    Fim do Lloyd Cole & the Commotions. O escocês Cole sai em carreira solo.
    Madonna provoca nova polêmica com o vídeo clip para a música "Like a Prayer", proibido em vários países - e vetado por algumas emissoras de TV brasileira - por pressões da Igreja.

    MAIO
    A banda paulista Ratos de Porão parte para a Alemanha, onde gravam pelo selo Runner e iniciam uma turnê pela Europa.

Os anos 80 - parte 3

ROCK BRASIL

    Nos últimos meses de 79, ainda era difícil imaginar o que o rock reservava para a música do Brasil nesta década. A MPB ainda queimava os últimos cartuchos de sua derradeira grande era, mas uma certa perplexidade já parecia afligir os "grandes" - Caetano, Gil e Chico começavam a tropeçar em problemas de identidade e modernização de seus recursos de produção, e preparavam-se para mergulhar em suas respectivas piores fases... Iniciava-se o ciclo das cantoras - Joanna, Simone, Bethânia, a Gal menos criteriosa -, na verdade um preâmbulo para o pesadelo brega. O único farol do período é o LP Rita Lee, coleção de pérolas pop em que a ex-mutante incitava, pela segunda vez em sua carreira, à mudança: deboche e romantismo em embalagem semi-tecno. "Mania de Você" e "Lança Perfume", do disco seguinte, seriam os hits instantâneos que fariam escola entre roqueiros da próxima geração. Um verdadeiro antídoto para a síndrome "progressiva" que derrubou nove entre dez roqueiros da antiga, inclusive os pseudo-Mutantes (sem Arnaldo e Rita) de Serginho Dias.
    Com um atraso que variou de um a quatro anos, os ecos do cataclisma punk foram se fazendo ouvir nos porões das capitais. Do pessoal bem-informado e sedento de novidades de Brasília (que em meados de 78 já promovia suas primeiras apresentações de punk rock) aos subúrbios de São Paulo (onde a composição social das gangues conferia verdadeira fúria ao movimento), de Salvador a Porto Alegre e Belo Horizonte, o recado de Johnny Rotten seria recebido, entendido e correspondido. Grilo Suburbano (82) é o primeiro registro punk no vinil, com os paulistas Inocentes, Olho Seco e Cólera. Mas o clímax do movimento é o festival O Começo do Fim do Mundo, uma batalha campal entre punks e policiais no Sesc-Pompéia (SP), cuja gravação também se tornaria um LP.
    É em São Paulo que a palavra "independente" assume um papel de destaque na música brasileira. Para além dos punks, o selo e teatro Lira Paulistana centralizou no início da década trabalhos de apelo universitário, como o pop dodecafônico de Arrigo Barnabé, a sátira culta do Premê ou o jazz erudito de Lelo Nazário. O pioneirismo acabou punido com a extinção do Lira, que legou para a posteridade o som de Itamar Assumpção, mestre da poesia urbana e dos ritmos negros. Também pelo Lira foi lançado o curioso LP do artista plástico Aguillar, acompanhado por dez músicos - entre eles Lanny Gordin (o guitarrista da Tropicália) e os futuros Titãs Miklos e Arnaldo. Exceção num cenário de bandas "à inglesa" - pequenas, unas e aguerridas, como rezava a cartilha punk - a Banda Performática foi uma experiência "nova-iorquina": cheia de referências às artes visuais, ecléticas. Talvez essa origem possa explicar a inusitada e competente esquizofrenia dos Titãs...

    Nada menos provável do que o surgimento de novidades no MPB-Shell, um festival de cartas marcadas, caricatura daqueles que agitavam a massa nos anos 60. Mas foi o que aconteceu em 81, quando Júlio Barroso e sua Gang 90 & As Absurdettes fizeram de "Perdidos na Selva" o primeiro hit "new wave" do país. Na verdade, o roqueiro carioca já vinha lançando a moda, como DJ e band leader, em casas noturnas como Noites Cariocas e Paulicéia Desvairada, nas duas capitais. "Perdidos na Selva", porém, ainda é um caso isolado na programação das FMs. Imperava, então, como "rock", o híbrido de pop com brega de má extração praticado por grupos de veteranos como o Rádio Táxi ou o Herva Doce.
    Hora, proposta e lugar certos - a química perfeita foi engendrada pela Blitz, que deflagrou logo no início de 82 uma revolução na indústria fonográfica. Uma apresentação no Circo Voador - celeiro de todas as bandas cariocas do período - e um compacto executado em primeira mão pela Fluminense FM (a primeira e mais importante rádio alternativa da década) abriram caminho para o estouro da banda. "Você Não Soube Me Amar", com seu humor típico e suas frases de efeito, é mais um marco nessa história.
    As seiscentas mil cópias vendidas do compacto da Blitz indicaram o caminho para as gravadoras, que recorreram aos "paus-de-sebo" para tentar localizar novas minas de ouro. O primeiro passo capitalizou a agitação do Circo: Rock Voador traz, entre uma leva de nomes inexpressivos, o primeiro hit do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, "Pintura Íntima", ainda em 82. O pop carioca que invade as rádios é rapidamente rotulado pela mídia como new wave - ou "niuêive", como diria Lulu Santos, um dos responsáveis pelo ressurgimento do gênero em sua melhor forma, no ano de 83. A zen-surfista "Como Uma Onda" é a música do ano ao lado de "Menina Veneno", de seu ex-parceiro Ritchie. Um ano mais tarde seria a vez do Kid Abelha assumir o papel de baluarte do pop radiofÔnico com um LP, Seu Espião, que emplacou nada menos que sete hits - um fenômeno, mesmo se considerado em escala mundial.
    Correndo por fora na onda nova, São Paulo entra na brincadeira com o sucesso isolado de "Sou Boy", do Magazine, uma das apostas locais da WEA, ao lado do Ira!, Agentss, Azul 29 e Ultraje a Rigor. Na verdade as quatro bandas eram apenas uma pequena amostra da enorme movimentação pós-punk, em casas noturnas como o pioneiro Napalm (por sinal o primeiro local onde uma banda como a Legião se apresentou na cidade, e que seria, após curta existência, sucedido pelo Madame Satã). É também o momento em que tanto vigor começa a se chocar com as intenções comerciais da indústria, disposta a dividir para reinar. Não só dividir as bandas entre as contratadas e as "outras" - as que se atreveram a lançar discos independentes foram estigmatizadas para sempre. Houve mesmo o caso de sabotagem, em que decidiu-se na diretoria de uma grande gravadora dificultar ao máximo o lançamento de um modesto LP independente, atrasando sua prensagem durante um ano. Mas também dividir seu próprio cast, mantendo certos contratados "no limbo". O próprio Ira!, antes de alcançar o sucesso, esteve a ponto de ser extinto, amargurado por mais de dois anos no banco de reservas.
    As casas noturnas do sendo substituídas pelas danceterias, a febre de 84. Os pequenos e médios cenários dançantes são perfeitos para a afirmação de grupos como o RPM - ainda em início de carreia - ou os Paralamas, que aproveitam o mega-hit de seu segundo LP, "Óculos". É o Ultraje que mais se beneficia da moda. A música de seu compacto de estréia, "Inútil", se tornaria uma espécie de hino político, e ponta-de-lança da explosão do grupo após sua execução, pelos Paralamas, no Rock in Rio. Mas todo um repertório de hits burilados e consagrados em apresentações ao vivo transformaram Nós Vamos Invadir Sua Praia num LP fadado ao sucesso.

    Na tela grande, o rock também tem vez: o casamento rock/cinema é plenamente realizado em Bete Balanço, de Lael Rodrigues. O tema principal do filme projeta nacionalmente o Barão Vermelho. Uma tentativa menos feliz, Areias Escaldantes, tem o mérito de registrar o início da ascenção da banda que só emplacaria dois anos depois: os Titãs. Por enquanto, eles contam apenas com um sucesso da fase metabrega, a radiofônica "Sonífera Ilha".

    O ano de 85 completa a tomada total do cenário. Logo em janeiro, o Rock in Rio apresenta, numa maratona de dez dias, opções para todos os gostos, de Iron Maiden a Nina Hagen, de Rita Lee à Blitz. Além do ecletismo, o festival traz a polêmica sobre um suposto boicote técnico aos artistas brasileiros, que se queixavam de problemas com som e luz. A organização alegou inexperiência de músicos e operadores nacionais em eventos desse porte. Fato ou boato, o Rock in Rio consagrou definitivamente os Paralamas e introduziu o país no circuito internacional de shows.

    Um outro fenômeno, protagonizado pela Legião Urbana - que emplacou o hit "Será" como carro-chefe de seu primeiro LP -, seria o surgimento na mídia nacional de bandas alheias ao circuito Rio-São Paulo. Na Bahia, o Camisa de Vênus arrasta multidões a cada show, mesmo sem o apoio promocional de uma grande gravadora. É o resultado do trabalho de Marcelo Nova desde o início dos anos 80, sacudindo o cenário de Salvador com sua banda de atitude punk e seu programa de rock na Rádio Aratu, passando pelo primeiro compacto independente ("Primo Zé"/"Controle Total") já em 82. Outro selo independente, o Baratos Afins, de São Paulo - que já havia lançado em 81 o segundo disco-solo de Arnaldo Baptista, e em 84 o LP dos Voluntários da Pátria (banda que foi celeiro de músicos das Mercenárias, Smack, Fellini, Zero, Akira S e Ultraje) -, acelera sua produção. São lançadas sucessivamente as coletâneas SP Metal e Não São Paulo, LPs do Smack e do Fellini. Um caminho que seria seguido, nos próximos anos, por novos selos como o Wop Bop (May East, Harry, Violeta de Outono, Vzyadoq Moe) e o Vinil Urbano (Arnaldo e a Patrulha do Espaço, Maria Angélica), além de outros como Ataque Frontal e Devil Discos.

    No Rio, o "Tédio" do Biquini Cavadão convive com "A Fórmula do Amor" de Léo Jaime e Kid Abelha. De São Paulo vêm o Metrô com "Beat Acelerado" e o RPM, abrindo caminho com "Loiras Geladas", até chegar ao álbum de estréia. Ainda no final de 85, iniciam a turnê Rádio Pirata, com shows cada vez mais concorridos, que os levariam em 86 a um estrondoso sucesso popular. Com o show registrado no disco Rádio Pirata, o RPM conseguiria outra façanha: sucesso de vendas com um segundo LP que praticamente se limita a reproduzir, ao vivo, o repertório do primeiro. Se deu certo como recurso comercial, o truque - inédito na indústria fonográfica mundial - também marcou o início da melancólica perda de credibilidade da banda.
 
    Outras estrelas de primeira grandeza ascendem num ano favorecido pelo novo plano econômico. O segundo LP da Legião, Dois, e o terceiro dos Titãs, Cabeça Dinossauro, representam marcos na carreira das bandas e do próprio rock brasileiro. O disco dos Titãs casa, curiosamente, uma excelência técnica raramente alcançada em discos nacionais - som limpo e pesado e arranjos objetivos, resultado da colaboração da banda com o produtor Liminha - com uma temática "apunkalhada" proposta bem antes por bandas como os Inocentes e as Mercenárias. Uma ponte oportuna, aclamada pelo público. O sucesso da Legião, por outro lado, lança as gravadoras à caça de novas bandas brasilienses com o mesmo potencial. As primeiras contratadas seriam a Plebe Rude e o Capital Inicial, mas o certo é que o talento de Renato Russo não se prende a questões geográficas...
    Outra investida, desta vez rumo ao sul, é a do selo Plug (BMG-Ariola), que aposta em 87 no som vindo dos pampas, Engenheiros do Hawaii à frente. É a descoberta de um cenário fértil, que vivia desde 84 o explosivo movimento que chegou a fazer um hit independente, o "Surfista Calhorda" dos Replicantes - dando impulso ao selo Vortex, pioneiro na distribuição do trabalho de bandas inéditas em fita cassette. Dezenas de grupos fizeram a cena, com destaque para DeFalla, Julio Reny & O Expresso Oriente e A Vingança de Montezuma. (Além dos gaúchos, o Plug proporcionaria, mais tarde, trabalhos inusitados como o dos cariocas Black Future, antes de uma retração quase total em fins de 88).

    Paradoxalmente, toda a abertura de possibilidades de 87 correspondeu a um estreitamento do mercado. Nas rádios, cada vez menos hits roqueiros sobrevivem a uma programação onde o brega passa a predominar. "Flores em Você", na abertura de uma novela das oito, dá ao Ira! uma inesperada projeção global. "Kátia Flávia" apresenta ao grande público o rap branco de Fausto Fawcett. Mas, no geral, o ano só confirmou sucessos já conquistados: a Legião faz meio mundo cantar a letra quilométrica de "Eduardo e Mônica" (e repetiria a dose, em 88, com o "Faroeste Caboclo"): os Titãs deixam para o final do ano o lançamento do novo disco, Jesus Não Tem Dentes..., aproveitando a permanência nas paradas de músicas como "Polícia", "AAUU" e "O Que": o Ultraje ataca de "Pelado", "Eu Gosto É de Mulher", puxando o LP Sexo!!! Os Paralamas inauguram uma carreira internacional no Festival de Montreux - onde gravam D, LP ao vivo -, passando por Paris e capitais da América do Sul. Com "Rádio Blá", Lobão reedita o sucesso de 84 ("Me Chama", que chegou a ser regravado por João Gilberto). Lobão também amarga alguns meses na prisão, como o titã Arnaldo amargara no ano anterior.

    Seguindo a trilha de Siouxsie e seus Banshees, que vieram no final de 86, finalmente desembarcam em solo pátrio Ramones, Cure, Echo, PIL, B.A.D., Bolshoi, Sting, Kid Creole, Phillip Glass, King Sunny Adé e até Brian Eno. Para além da chance de conferi-los ao vivo, os shows proporcionam o lançamento de vários discos dos artistas. No começo de 88, o bem organizado Hollywood Rock trouxe ao Rio e São Paulo Duran Duran, Pretenders, UB40, Simple Minds, Simply Red e Supertramp, dividindo o palco com artistas nacionais, entre os quais se destacam, em pé de igualdade com os estrangeiros, os Titãs e os Paralamas. Coroando o ano, Direitos Humanos Já é um único concerto que reúne, em São Paulo, Sting, Bruce, Peter Gabriel, Youssou N´Dour, Tracy Chapman e Milton Nascimento. Nesse meio tempo, Tina Turner, Exumer, James Brown, Toy Dolls, Mission, Jethro Tull, Gene Loves Jezebel, Might Lemmon Drops, Iggy Pop, Church e o New Order, num fluxo significativo, confirmaram, em eventos bem dimensionados e em geral bem sucedidos, que está aberto o caminho da roça.

    Do Rio desponta como novidade o sucesso de artistas solo: Ed Motta e Marisa Monte (esta, seguida de Adriana Calcanhoto, parece prefigurar um novo ciclo de cantoras...). É também solo o grande destaque de 88, Cazuza, com o LP Ideologia. Os Engenheiros do Hawaii são alçados ao primeiro escalão com o LP Ouça O Que Eu Digo... Fechando o círculo, os Titãs gravam em Montreux o LP Go Bach, reciclando ao vivo músicas já gravadas, como a faixa-título e "Marvin". A última jazida local a ser explorada é a do rock mineiro, também ativa desde 83 ou 84, da qual nos chegam o Último Número (com bons LPs independentes em 87 e 88) e o Sexo Explícito, "queimado" na reviravolta do selo Plug, que promete para breve seu já tardio primeiro álbum. Mas isso já é (quase) outra década...
    Por mais estranho que pareça, o heavy metal nacional nunca esteve tão bem. Mesmo sem ter espaço na mídia e passando longe da programação das casas noturnas, continua, com seus fiéis seguidores, rumo ao mercado internacional.
    O destaque fica com a banda Sepultura, que teve seu terceiro LP Beneath the Rimains editado nos EUA e Europa, além de figurar nas principais revistas especializadas do gênero.
    Aqui, alguns selos tentam abarcar o número crescente de bandas, caso do Rock Brigade que edita também a única publicação sobrevivente; da loja Woodstock que além dos lançamentos internacionais, é responsável pelo programa rádio-fônico Comando Metal, ambas em São Paulo e a Cogumelo, de Belo Horizonte (celeiro inicial do Sepultura).
    Nos últimos anos, os palcos brasileiros estremeceram ainda com os shows do Venom, Exumer, Nasty Savage, e Motorhead. Para headbanger nenhum botar defeito.

    Deixando a sazonalidade carnavalesca e invadindo todos os dias do ano, uma nova música baiana vem marcando presença desde 86. Depois de tomar conta de Salvador, através da consolidação de um mercado local (desde estúdios de gravação às programações de FM e TV) os blocos e bandas afro-baianos conquistaram outras capitais. Com uma mistura pop de samba, reggae e ritmos africanos, em nomes como Reflexu´s, Olodum, Araketu, Geronimo e Chiclete com Banana, seus LPs foram lançados por grandes gravadoras, alcançando sucesso em vendas e farta execução nas rádios. Um verdadeiro fenômeno, como há muito não se via no mercado nacional.
    A cultura hip hop saiu dos guetos nova-iorquinos e veio parar no Brasil. Até a hermética programação das FMs cedeu horários especiais ou até a rádio inteira, como é o caso da Bandeirantes FM (SP). Na mesma cidade, há mais de quatro anos, a estação de metrô São Bento transformou-se em ponto de encontro de breakers, rappers e DJ´S.

    O primeiro registro fonográfico surgiu no final do ano passado com a coletânea Cultura de Rua, reunindo os grupos Credo, Código 13, MC Jack e Thaíde, pelo selo Eldorado. Logo depois, a gravadora CBS apostou n´ O Som Das Ruas apresentando Os Metralhas, Sampa, Crew, De Repent, entre outros.
    Ainda em 88´ em plena onda hip hop, Kurtis Blow, Kool Moe Dee, Whoodini e a Boogie Down Productions fizeram shows em solo nacional, reforçando a iniciativa das gravadoras em lançar títulos do gênero.
    Vale lembrar que, anos atrás, o break contagiava os dançarinos de rua e o rap já tinha lugar marcado nos bailes de periferia, nos quais diversas equipes de som - entre elas, Furacão 2000 (RJ) e Chie Show (SP) - sempre procuraram sintonizar as últimas novidades do pop negro internacional.

sábado, 28 de agosto de 2010

Os anos 80 - parte 2

TECNOLOGIA

    Os anos 60 viram a volta ao campo e a atração pela vida ao ar livre regidas por prefeitos naturalistas. A década seguinte trouxe uma guinada na direção oposta, mirada em prazeres químicos, individualistas e urbanos. Já os anos 80 sofisticaram a fórmula da antiga Me Generation, abrigando um crescente encasulamentodo animal urbano, graças à popularização das tecnologias de comunicação e entretenimento.
    Os computadores de uso pessoal, os aparelhos de fac-símile e os bancos de dados públicos multiplicaram nossa capacidade de consumir e produzir informação. As telas de TV cresceram, os videocassetes passaram a oferecer melhores imagens e sons, e, como conseqüência, mais gente preferiu permanecer em casa, deixando os cinemas mais vazios. Os compact discs e a DAT (Digital Audio Tape) abriram os portões do som State of the art a multidões de audiófilos instantâneos, minaram a hegemonia das fitas pré-gravadas e dos LPs a ponto de quase decretarem a morte do vinil - existem lojas nos Estados Unidos que expulsaram de suas prateleiras as bolachas pretas. "Pirataria à vista", gritaram as gravadoras, quando entenderam que a comercialização em massa de fitas digitais virgens poderia causar uma febre indesejável (pela indústria de discos) de gravações caseiras a partir de CDs, diminuindo, assim, as vendas dos disquinhos. A Sony foi mais astuta e, para ter maior cacife na discussão, comprou a CBS Records.

    MÚSICA EM CASA - FAÇA VOCÊ MESMO
    Gravação caseira - este foi um dos passatempos mais quentes dos 80 e, dado o boom tecnológico nesse sentido, é de se prever o dia em que a grande maioria dos terráqueos preferirá fazer música a ouvir música.
    O gravador cassete de quatro canais - popularizado por marcas como Fostex, Tascam e Yamaha - tornou-se bloco de rascunho de compositores e produtores. Uma verdadeira revolução, já que permite a qualquer um ter acesso à técnica de gravação multipista em todas as etapas: da gravação de uma base, aos overdubs, à mixagem final para estéreo. Houve até quem gravasse LPs assim, no aconchego do lar - um exemplo notório é Nebraska, de Bruce Springsteen, e, no Brasil, ...Só Vive Duas Vezes e Três Lugares Diferentes, respectivamente segundo e terceiro LPs do grupo Fellini. Em 85, a Tascam deu outro salto à frente lançando seu cassete oito canais.
    A computadorização musical e as técnicas de gravação digital foram mais fundo na criação de aparelhos que chegaram a gerar até uma estética prÓpria. Pois o que seria da house music sem as seguintes engenhocas?

    Drum machine, o popular "beat box". Seqüenciador com sons de bateria e percussão que permitem a programação com variações para introdução, estrofe, refrão etc. Com sua TR808, a fábrica japonesa Roland deu a largada para uma série de modelos que se sucediam a cada ano. Com a entrada em cena do sampler, porém, está ameaçado de virar um brinquedo para amadores, já que os profissionais estão adotando sons de percussão sampleados e programados direto em seqüenciador, junto com outras frases melódicas e baixo.

    O Sampler (literalmente "amostrador") grava digitalmente qualquer som, que pode então ser editado, filtrado etc. e transferido para um teclado ou uma "pele" percutível. Foi a integração da música concreta ao pop, só que o que um compositor como Stockhausen demorava meses para editar - usando gilete e fita adesiva para manipular a fita magnética - hoje o sampler faz com o apertar de um botão.
   
    MIDI ou Musical Instruments Digital Interface é a nova linguagem, que permite o diálogo entre instrumentos digitais de diferentes marcas e modelos. Assim, uma só pessoa pode reger sua orquestra pessoal, em que um seqüenciador - ou um computador com um programa de seqüenciação - é o cérebro, transmitindo para cada sintetizador/sampler/computador rítmico as informações necessárias sobre onde, quando e o que tocar. Pode ser tenebroso ficar horas sentado só programando, mas depois é só dar ostart e se recostar na poltrona para ouvir sua banda robotizada executando sua última composição.
    Só um problema: se você é brasileiro, a Lei de Importação Nacional de Informática impede o acesso a estas maravilhas todas.

 VIDEOCLIP MTV

    A MÚSICA TEM IMAGEM
    Disseram que não ia dar certo. Que não havia chance de dar certo. Quem ia querer ver 24 horas de anúncios? Por que os tais videoclips - que nos anos 60 e 70 eram chamados promos - eram exatamente isso, não? Anúncios, peças de apoio na venda de discos. Mas, contrariando tudo e todos, no dia primeiro de agosto de 1981 entrou no ar a MTV, Music Television, o primeiro canal de TV (cabo) a transmitir exclusivamente vídeos musicais.
    A idéia não era nova - vários programas da TV americana já passavam clips - mas tinha um toque diabólico: a MTV vendia o que não chegava a comprar e cobrava (duas vezes, já que tinha assinantes e anunciantes) pela exibição do que recebia de graça (os clips).
    Nos nove anos seguintes, Ronald Reagan imperou na Casa Branca e a MTV mudou a face do business. Carreiras inteira foram construídas sobre seu apelo hipnótico - imaginar um universo com seu artista favorito ficou mais fácil depois de ver seu artista favorito no meio desse universo imaginário. Duran Duran, Madonna, INXS, Terence Trent D´Arby, a vertente pop/glam do metal estão entre os que mais tomaram partido disso. Nesta quase década, também, o próprio clip mudou: incorporando técnicas mistas do cinema, da publicidade, da animação, explorando os novos territórios da alta definição, da imagem computadorizada, o clip tornou-se uma entidade em si mesma, um objeto de consumo, uma forma de expressão que, muitas e muitas vezes, liberta-se do seu pretexto - a canção - e fala sozinha.



ESTILO

    A antítese da moda: quem tem estilo, não segue rebanhos. Nas palavras de Oscar Wilde: "Toda pessoa deveria ou ser uma obra de arte, ou vestir uma obra de arte." Este foi um dos preceitos básicos de uma década de entropia: colagens, alusões, citações, revivals e o reinado do look. No corte do cabelo de Grace Jones ou no colorido do sushi

    Foi uma década da pesada: dez anos inteiros de desilusão, desesperança e, absolutamente, nenhum futuro. Ainda bem que foi assim. Ninguém agüentava mais ouvir falar em sonhos, utopias e promessas de felicidade integral para o fim da história. Ninguém suportava mais ouvir dizer que os bons tempos passaram, que chegamos atrasados, que a festa terminou.
    Os anos 80 foram o império do presente, do efêmero, dos quinze minutos de fama ou de fracasso. Todo mundo teve que aprender a grande lição de Andy Warhol: ser pop é gostar de tudo. Tudo esteve na moda. Tudo virou moda. Nada foi levado a sério.
    Comidas, roupas, idéias: os anos 80 transformaram os mínimos detalhes e as máximas paixões de nossas vidas em "simples" questões de estilo. Tal situação tem suas vantagens: estilos não são verdadeiros ou falsos, não são sacerdÓcios, não exigem fidelidade eterna de quem os adota. Nenhuma outra década teve tanto(s) estilo(s).

    COMIDA

    Do dia para a noite, todo mundo passou a adorar peixe cru. O sushi foi o prato da década, para a alegria dos donos de restaurantes japoneses que antes alimentavam somente a colônia. Outras comidas étnicas, como a thai ou a mexicana, também tiveram seus instantes de glória no hit-parade culinário. Para competir com elas, do lado ocidental, só a frugalíssima porém elegantérrima nouvelle cuisine francesa. Pena que ainda é muito cara para se transformar num produto pop ideal.
   
    YOHJI YAMAMOTO E COMME DÊS GARÇONS
    Rei Kawakubo, da Comme de Garçons, e Yohji Yamamoto foram os estilistas que criaram o princípio de elegância mais estável dos anos 80. Você sabe do que se trata: aquela roupa preta, aparentemente pobre e de sensualidade enigmática, se é que existe algum vestígio de sensualidade. As criações japonesas invadiram as metrópoles de todo o mundo e acabaram por se firmar como o único uniforme da uma década que se caracterizou pelo seu inabalável horror a qualquer uniforme.

    JAPÃO

    Deve haver algum deus irônico presidindo a história da humanidade. Os Estados Unidos virtualmente detonaram o Japão no final da Segunda Guerra, inaugurando sobre Hiroshima e Nagasaki seu poderio nuclear. Pouco depois, num acesso de culpa tipicamente americano, pôs-se a reconstruir o país, emprestando dinheiro a troco de banana e abrindo as portas comerciais. Três décadas depois, a América deve rios de dinheiro ao Japão, as freeways estão abarrotadas de Hondas e Toyotas, yuppies e milionários do Império do Sol Nascente não se cansam de comprar terrenos na Califórnia. Sushi, karaokê, Sony-CBS, Comme des Garçons, HDTV: os japoneses atacaram em todas as frentes e quase reduziram todos os concorrentes a poeira. Nos anos 90, com o lançamento comercial da TV de alta definição e com o desenvolvimento da inteligência artificial, a totalidade do mercado eletrônico ameaça passar a ser monopólio do Japão e dos países asiáticos, como Coréia, Formosa e Cingapura, que descobriram as artimanhas da pirataria tecnolÓgica. A Europa Unificada e os Estados Unidos pós-Reagan vão ter que rebolar para competir com a voracidade oriental.

    JEAN-PAUL GAULTIER
    Os anos 80 não vão passar para a história como uma década original. Quase todo artista repetiu aquele manjado dito pop: tudo já foi criado, então tudo será recriado. Jean-Paul Gaultier não fez outra coisa além de transportar a moda de rua, principalmente as gracinhas londrinas, para as passarelas da alta-costura parisiense. Algumas de suas roupas são geniais, como aquela coleção dedicada aos "homens-objeto", onde Gaultier provou que é possível vestir uma saia e continuar a ser macho.

    B-BOY

    O sucesso do hip hop fez com que as mais conhecidas marcas esportivas passassem a ser consideradas o auge do chique. A dupla Run-DMC gravou toda uma música dedicada a Adidas. Outros cantaram sua preferência por produtos Nike, Puma, New Balance, Fila e até mesmo Gucci. Não confundir com merchandising: é somente amor, sem segundas intenções. O golpe de mestre do b-boy, o garoto do hip hop, foi ter inventado uma outra maneira de se vestir cool a partir da roupa mais banal.

    GRACE JONES

    Que os branquelos que imitam Brian Ferry me perdoem mas o corte de cabelo dos anos 80 foi mesmo o de Grace Jones. Nada pode ser mais simples, nada pode ser mais prático e nada pode ser mais esteticamente adequado. Miss Grace The Rhythm, assessorada por seu então namorado Jean-Paul Goude, divulgou o unissex black e foi seguida pelas massas. Hoje, os b-boys acrescentam ao corte Jones desenhos cada vez mais complexos feitos com máquina de raspar. Ser reco nunca foi tão divertido.

    REVIVAL
    Os anos 80 não ignoraram as décadas passadas. Pelo contrário, os anos 20, 30, 40, 50, 60, entre outros, foram homenageados com inúmeros revivals. A "volta" mais estranha foi a da década de 70. Quando ninguém esperava, a medonha pantalona reconquistou todas as vitrines. Mas não foram só as roupas que voltaram. Teve o revival "rare groove" do funk dos anos 70, o revival "daquele timbre de guitarra" dos anos 60, o revival do LSD, o revival dos mÓveis anos 50. Já teve até a volta do início dos anos 80, isto é, um revival do revival do revival do... E o tempo não pára.




    PÓS-MODERNO
    Dizem que a pós-modernidade foi uma invenção de escritores e críticos norte-americanos dos anos 60. Não importa. Foi só nos anos 80 que o pós-moderno virou um fenômeno da massa. Apareceu de tudo: sabonetes pós-modernos, travesseiros pós-modernos, sorvetes pós-modernos. Qualquer objeto mais eclético era logo classificado na nova onda e vendia horrores para os desavisados. Símbolos máximos de nossa pós-década foram os móveis coloridos criados pelos italianos da Memphis. Hoje, este estilo de design já parece obra do mais remoto passado. Onde estamos? No pós-pós-tudo?

    INFORMÁTICA

    Pode parecer mentira, mas o pessoal dos anos 70 conseguia viver sem microcomputadores e sem cartões eletrônicos. O IBM-PC só foi lançado comercialmente em 81. Steve Jobs, um dos criadores do Apple (N. da R. - o micro que popularizou a informática), lançou o MacIntosh em 84 e hoje tenta emplacar o Next, computador que tornará obsoleto o equipamento de som e o videocassete. Os anos 80 criaram também a mais sofisticada forma de terrorismo: o vírus cibernético, principal personagem da odisséia cyberpunk, novo subgênero da ficção científica. William Gibson, o pai do cyberpunk, é o autor de Neuromancer, o livro da década.

    ZAP
    No princípio, zap foi o termo usado pelos profissionais de comunicação eletrônica para se referirem à manipulação das imagens, via controle remoto, pelos telespectadores. Depois a palavra foi contrabandeada para todas as áreas. Os anos 80 zapearam tudo: modos de vida, roupas, comidas, idéias. Se vários "canais" nos interessam, ao invés de escolher o melhor, preferimos ver todos eles ao mesmo tempo.

    HARD-TIMES
    Algum biólogo deveria estudar o aparecimento deste misterioso microorganismo que tem mania de atacar os jeans de nove em cada dez estrelas pop. Nenhuma outra década foi obrigada a conviver com tantas calças rasgadas no joelho. Tempos difíceis? Nem tanto. Madonna e George Michael ganham milhões de dólares e mesmo assim adoram andar por aí esfarrapados. Isto já é motivo suficiente para considerar o jeans furado como a peça de indumentária mais chique dos anos 80.

    PINTURA
    A década teve início em clima neo-expressionista. De repente, as grandes telas voltaram à moda e pintores surgidos do nada viraram celebridades instantâneas, tão glamourosas quanto os rock stars (alguma delas, como o alemão Salomé ou o nova-iorquino Robert Longo, tocavam também em bandas de rock). Os anos 80 chegam ao fim com a consagração do neo-geometrismo. Parece o oposto do neo-expressionismo mas não é. Tudo não passa de mais um modismo "neo".

    GRAFITE
    O grafite sofreu uma surpreendente metamorfose no decorrer da década: de caso policial para bem cultural, do submundo urbano para o museu de arte moderna. Os grafiteiros Jean-Michel Basquiat e Keith Haring começaram a ter suas obras expostas em todo o mundo. Basquiat virou pintor, não suportou a fama e morreu de uma overdose de heroína. Haring inaugurou uma loja onde vende camisetas com seus desenhos e enriqueceu.

    BRUCE WEBER
    Nos anos 80, nenhum outro fotógrafo foi tão influente como Bruce Weber. Seus trabalhos mais conhecidos, como as publicidades da Calvin Klein, foram copiados em todo o mundo. Weber, responsável pela transformação do homem em objeto erótico na fotografia de moda, terminou a década lançando seus filmes sobre o boxe e sobre a música de Chet Baker.

    CLONES
    Os anos 80 foram povoados por exércitos de Madonnas, exércitos de Boys George, exércitos de Morrisseys. O fã assumiu o visual de seu ídolo como se fosse sua propriedade. Morrissey fez um clip (outra palavra mágica da década) com seus clones. Madonna e Boy George infernizaram a vida de seus imitadores com mudanças constantes de estilo. Michael Jackson radicalizou a importância da aparência transformando seu próprio corpo numa escultura em mutação.



    ESPORTES
    O típico representante dos anos 80 passou centenas de horas de sua década em academias de ginástica e maratonas. Tanto que John Travolta trocou a discoteca de Saturday Night Fever pelas aulas de aeróbica de Perfect. A indústria de roupas, que não é boba, ganhou bilhões de dólares com o sportwear. Grande parte deste lucro foi para as marcas de surf, esporte que é a mais importante referência comportamental para a juventude planetária, ao lado da música pop.

    DROGAS
    Responda rápido: é a década que escolhe a droga ou a droga que escolhe a década? O que seria dos anos 30 sem o ópio, dos 40 sem morfina, dos 50 sem álcool, dos 60 sem maconha e ácido e dos 70 sem cocaína? O que, diabos, esperar desta década esquizofrênica? O óbvio - não houve unanimidade possível nos anos 80. Cada tribo teve a sua droga. As novidades no território dos delírios químicos - um mercado já grande demais, poderoso demais para ser ignorado - foram a terrível onda do crack e a invenção das designer drugs. O crack é a cocaína ao alcance de todos: batata, concentrada, violenta devoradora de células cerebrais, com excelente relação custo/benefício no próspero mercado administrado pelo Cartel de Medélin, os bucaneiros do Caribe e as gangues de Washington, Los Angeles e Nova York: Para os yuppies e o pessoal da acid house, as designers drugs - o ecstasy e suas variantes MDMA, e MMDA, criadas quando a primeira entrou na lista dos entorpecentes ilegais. São criaturas de laboratório, destinadas a provocar as sensações certas: energia sem travação, sensualismo sem alucinação, uma cálida empatia sem... Bem, sem que ninguém tenha vontade de largar o emprego e formar comunidades rurais.

    ACESSÓRIOS
    Além do microcomputador, os principais acessórios da década foram o compact disc e o fax. O laser inventou uma nova maneira de escutar música que já suplantou aquele vinil primitivo. O fax diminuiu ainda mais nossa aldeia global, possibilitando a comunicação barata e instantânea enquanto as redes telemáticas não ligam todos os países. Os anos 80 também tornaram célebre um acessório que nada tem a ver com inovações eletrônicas. Voltou "à moda" a velha e boa camisinha, parceira essencial desses tempos de sexualidade pós-Aids.

    IDÉIAS
    O mundo das idéias também descobriu os encantos do showbiz. Os mais variados modismos intelectuais tiveram menos do que quinze minutos de fama. Houve filosofia para todos os gostos: descontrucionismo, revival estóico, neo-iluminismo, simulacionismo. Dois grandes superstars: Jean Baudrillard e Umberto Eco. Baudrillard foi o melhor tradutor do espírito fatal da década. Eco lançou o best-seller O Nome da Rosa, um primor de pós-modernismo.

    CULT
    Foi o nome que os anos 80 deram para a moda que não quer ser moda, que se sente superior e despreza o gosto da massa. Os jornais brasileiros levaram estas bobagens à sério e determinaram que qualquer videoclip com néon, qualquer filme com deserto, qualquer regravação de Cole Porter (seguida por uma regravação de Roberto Carlos) é o máximo do refinamento. A ladainha cult tornou insuportável até ouvir falar nos nomes de Tom Waits, Philip Glass e Win Wenders, entre outros.

    TRIBOS
    Os yuppies conviveram com neo-românticos, com góticos, com b-boys, com trashers, etc. Ninguém deteve a hegemonia do comportamento jovem e ninguém acredita mais nas proclamações de rebeldia adolescente. Os punks se institucionalizaram como cartões postais londrinos. Vivienne Westwood, a mulher que inventou as roupas dos Sex Pistols, teve um breve romance com a Fiorucci. Novas tribos? Escritores estreantes como Bret Easton Ellis, de Abaixo de Zero, Jay McInerney, de Bright Lights-Big City, e Tama Janowits, de Braves of New York, tentaram fazer a crônica jovem dos anos 80. Eles ainda não descobriram que os problemas da juventude são assuntos do passado.

    BRASIL
    Quando os anos 80 começaram, o Brasil se escandalizava com Fernando Gabeira, sua tanga de crochê lilás e suas memórias "sexo, drogas e rock´n´roll" dos anos de ditadura militar. Era o tempo em que o governo Figueiredo estava dando seus primeiros passos e a juventude, brasileira da classe média, em sua maioria, ainda percorria seu caminho de volta de Woodstock. Longo sonho. O despertar aconteceu aos poucos, com os punks (filhos de diplomatas) de Brasília, com os punks (filhos de operários) paulistas, com a Blitz detonando o sucesso comercial do rock brasileiro, com os milhões de discos vendidos pela Xuxa (e a moda Xuxa), com o hip hop/novo pagode dos subúrbios cariocas, com o desfile Guerra nas Estrelas (em 85) da Mocidade Independente. Mas nada foi tão zap, tão pós-moderno quanto a explosão dos blocos afro de Salvador, aquela mistura alucinada de Brasil, Senegal, Egito e Madagascar, aquela mixagem rítmica de samba, reggae e merengue feita só com percussão acústica.



CINEMA

    A fantasia dominou as (super) produções cinematográficas mas uma retomada de interesse pelo cinema permitiu brechas para as mais variadas tendências

    O grande cinema americano dos anos 80 foi feito por diretores ingleses que viveram um período fértil, do comercial Tony Scott (Top Gun - Ases Indomáveis) ao requintado Stephen Frears (Ligações Perigosas). À margem da badalação, o cinema independente americano germinou algumas boas sementes como Totalmente Selvagem, Arizona Nunca Mais e o "terrir" Uma Noite Alucinante. De modo geral, viveu-se uma onda de infantilização, dominada pela temática fantasiosa, cuja última conseqüência são as adaptações dos super-heróis dos quadrinhos: Batman, O Justiceiro e Watchmen são os primeiros de uma série que promete se estender pelos anos 90.
    Steven Spielberg e George Lucas cristalizaram um cinema definitivamente americano, cuja fonte de referência é a própria história cinematográfica - um cinema, diriam alguns, pós-moderno, pois citar é mais importante que (tentar) criar. Spielberg e Lucas recuperaram a noção de entretenimento no latu sensu e para isso, a técnica em si é mais do que uma virtude, é uma linguagem. Dos efeitos especiais espetaculares, que todos julgavam mortos e enterrados em 1969 com 2001 - Uma Odisséia no Espaço (de Stanley Kubrick e Douglas Trumbull), às minuciosas e precisas novas técnicas de som, luz e captação de imagens, a dupla milionária de Hollywood propôs uma cinema de imaginação, de anti-realismo, de suspensão da descrença e, em extremo, daquilo que realmente não está lá na tela. A grande estrela é mesmo o cartoon ensandecido Uma Cilada para Roger Rabbit (produzido pelo estúdio de Spielberg), o ápice da técnica de efeitos especiais que caracterizou o cinema dos anos 80, repleto de ETs camaradas e Aliens ameaçadores. A fantasia deu o tom, alimentando tanto fábulas infantis como Willow e A Lenda quanto cult movies como Blade Runner e A Marca da Pantera. Nem tudo, no entanto, foi super produção. Pouca grana e muita gosma caracterizaram a imaginação dos diretores de tripas, mortos-vivos, serras elétricas e sexo doentio - Cronenberg, Freddie Krueger e os demônios de Uma Noite Alucinante e Hellraiser (inédito no Brasil) encabeçando a lista dos enjôos da década.

    O gênero suspense também rendeu filmografia abundante, cuja maior parte não sobreviveu à memória do consumo rápido. Exceções vão para o intrincado jogo de referências de De Palma e Busca Frenética (Polanski). O noir, ressuscitado nos anos 70, produziu duas pequenas pérolas: Gosto de Sangue e Corpos Ardentes. A vertente policial foi igualmente significativa, descartável e coberta de sangue. Destaques para Os Intocáveis e Colors - As Cores da Violência.

    O rock encontrou seu tom na tela grande em U2 - Rattle and Hum, o mais bem realizado documentário sobre banda/gravação de show de uma década que se ocupou bastante com a música pop. Enquanto isso, Madonna e Sting investiram pesado em suas carreiras dramáticas.

    Na década que recusou heróis, só mesmo o impossível Indiana Jones (Harrison Ford) e o cibernético Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro conseguiram ocupar este lugar.

    O cinema de autor não morreu nos anos 80. Jim Jarmusch, com sua estética minimal de profundas raízes na cultura pop, produziu dois dos mais instantâneos cult movies de todos os tempos: Estranhos no Paraíso e Daunbailó. O alemão Wim Wenders, o peregrino das imagens, mostrou uma Europa curvada diante da América e seus ícones em Paris, Texas.

    Hollywood ainda apostou em revivals. A ferida aberta do Vietnã foi expiada em Platoon, um filme em ritmo de aventura lavado por uma chuva de Oscar e recebeu uma versão cool em Nascido Para Matar, obras à léguas do truculento Rambo. Os épicos foram revisitados no estetizado O Último Imperador, no espetacular Ghandi e no sentimental O Império do Sol. A nostalgia dos anos 60, por outro lado, também rendeu uma onda de filmes sobre direitos civis, que aliás, contínua em curso. Destaques: Um Grito de Liberdade e Mississippi em Chamas.

    Imagens perfeitas, bem enquadradas, geralmente em tons azulados e com uma música ao fundo. A experiência publicitária dos diretores britânicos Alan Parker, Adrian Lyne e irmãos Scott transformou o cinema num show fotográfico. Mickey Rourke virou o emblema do astro fabricado por closes, num coquetel sexy-maldito com barba por fazer. Mas nem só do erotismo de 9 1/2 Semanas de Amor viveram as imagens elevadas à obra, que capturaram os olhares da década, vide o design cultuado de Blade Runner. Os franceses foram mais radicais, ao transformar fotografia em estilo cinematográfico - especialmente Luc Besson, Jean-Jacques Beineix e Leos Carax. O mestre da invenção imagética, porém, veio da escola trash do cine B americano: Francis Coppola. Seu O Fundo do Coração é um clássico do artificialismo néon. As mais belas musas lindamente fotografadas: Nastassja Kinski, Beatrice Dalle e Juliette Binoche.