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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um ano sem Renato Russo parte II - O líder - Caristmático e aglutinador, Renato criou sua própria turma

O LÍDER

  Se a Brasília do final dos anos 70, começo dos 80, tivesse de ser definida em uma só palavra, a mais adequada seria "tédio".
  Principalmente para os jovens. Ainda em plena ditadura militar, a cidade construída no meio do árido Planalto Central oferecia poucas, muito poucas mesmo, opções de entretenimento. A solução para a rapaziada se divertir era formar grupos, fazer festas, ou seja, aglutinar pessoas. E Renato Russo, a princípio um cara estranho, que andava de camisa social, capa preta e com um guarda-chuva na mão, era o aglutinador. Como ele costumava dizer, gostava de "tchurmas". "Desde pequeno eu era ligado em filmes de tchurmas e, aí, armei uma. Eu era muito pentelho, juntava as pessoas, era uma espécie de catalisador... Insistia muito nisso", definiu-se o cantor, em entrevista à BIZZ, em maio de 1989. Mas não pense que o poeta era um simples agitador cultural ou coisa parecida... Renato e a turma eram punks. Muito influenciados pelo lado filosófico-político do termo, que naquela época bagunçava o tradicional coreto britânico, eles se reuniam diariamente. Ico Ouro-Preto (irmão de Dinho Ouro-Preto), guitarrista da fase final do Aborto Elétrico e integrante da turma, atualmente fotógrafo de moda, há oito anos baseado em Paris, lembra dessa fase. 
  "Éramos 25 ou 30 pessoas mais ou menos da mesma idade e de meios muito diferentes. Como eu, alguns eram filhos de diplomatas, que tinham acesso a discos e livros lançados lá fora. Isso era muito raro naquela época. Então nos reuníamos para tocar violão, ouvir discos do Clash, do Sham 69 e, principalmente, conversar. Ah, sim, penetrávamos em bando nas festinhas caretas também." Desse grupo, que chegou a ser chamado de Movimento Punk de Brasília, participavam - além de Renato, Ico e Dinho Ouro-Preto - Fê Lemos e seu irmão Flávio, ambos ex-Aborto Elétrico e hoje também ex-Capital Inicial; Dado Villa-Lobos, na época guitarrista do grupo Dado & O Reino Animal; Marcelo Bonfá; Loro Jones, atualmente também ex-Capital; Paraná (o primeiro guitarrista do Legião); Bi Ribeiro, baixista do Paralamas do Sucesso; e muitas jovens. "As meninas eram ótimas... Eu adorava todas elas. Tinha a Carla, a Ana, a Cris, a Helena... Éramos todos amigos. Rolavam coisas naturais e banais de adolescentes que descobriam as drogas e o sexo naquele momento", lembra Dado Villa-Lobos. Paraná também sente saudade daquela época. "Naquele tempo, o sujeito ou era hippie ou era playboy. Nós quebramos essa regra. A maioria andava desleixada, usava calças rasgadas... Me lembro que o Bi tinha um cabelo enorme, parecia um tufo de algodão com uns 30 centímetros de altura. Queríamos chocar e chocamos. Nesse momento, começamos a virar lenda em Brasília." 

Grampos na boca
  Passada a fase do guarda-chuva e da capa preta, Renato começou a se furar (colocava rebites metálicos no rosto) e freqüentemente adotava o visual punk mais tradicional. Em entrevista publicada na BIZZ em maio de 1989, Renato conta que copiava os modelos de um livro "cor-de-rosa que falava dos primeiros punks" e que colocava grampos na boca, se furava de verdade. "Nossa, ele ficava uma feiúra... Pintava o cabelo com três cores diferentes, rasgava a roupa toda e botava alfinetes de fralda. Também usava um pé de tênis vermelho, outro azul...", descreve hoje sua mãe, dona Maria do Carmo. "Eu não gostava daquela coisa, reclamava com o Júnior, mas ele ria e falava: ‘Isso é punk, mãe! É punk!!!’ " Ela lembra ainda de uma ocasião em que Renato foi vestido desse jeito a uma apresentação nobre do bailarino Mikhaíl Baríshnikov. "Era um espetáculo em que estavam muitos nomes importantes do cenário político de Brasília, inclusive militares. Naquele dia, pensei que ele fosse ser preso... Antes mesmo de ver o balé - que ele adorava -, queria provocar." Resumindo a ópera: falando inglês o tempo todo, Renato se passou por alguém de alguma embaixada, conseguiu lugar na primeira fila, foi ao camarim ao fim da apresentação e ainda ficou amigo do bailarino. "Ele chegou em casa às duas da madrugada e logo foi me acordar para contar a história e dizer que Baríshnikov fazia questão de que ele estivesse presente nas outras duas performances que faria no Rio e em São Paulo", diz a mãe. Renato acabou nem seguindo o astro, mas mostrou o tamanho do seu carisma. 

Pai de Todos 
  Durante as reuniões da "tchurma", além de ouvir discos de punk rock, conversava-se muito. Noites inteiras só de papo. E era nessas conversas que Renato se destacava. Com habilidade para usar as palavras, ele chamava a atenção do grupo. "O Renato começava a falar e num determinado momento estava todo mundo sentado no chão ouvindo. Era impressionante", lembra Paraná. "Ele tinha uma personalidade fortíssima. Às vezes chegava até a ter alguns poblemas com o pessoal, principalmente com o Fê (Lemos), que também não era fácil. Mas o discurso do Renato sempre acabava prevalecendo", diz Ico. 

Indivíduo competente 
  Renato tinha também um talento musical fora do comum, reconhecido e aplaudido pela turma. Naquela época, mais ou menos 1982, depois do sucesso local do Aborto Elétrico, a primeira banda punk de Brasília, formada inicialmente por Renato (baixo e voz), Fê Lemos (bateria) e André Pretorius (guitarra), o grupo de moleques já se dividia em várias bandas de rock: Legião Urbana, Capital Inicial, Blitx 64, XXX, Plebe Rude, entre outras. Esses grupos interagiam entre si e Renato era visto como o garoto-prodígio do pedaço. Logo após o fim do Aborto, ele fez algumas apresentações solo, só com voz e violão. O estilo folk-urbano, que depois o consagraria, nascia ali. 
  "A maioria das músicas eram concebidas no violão", conta Ico Ouro-Preto, que teve uma breve passagem pela Legião, entre a saída de Paraná e a entrada de Dado. "Passamos uma fase tocando violão na minha casa e depois ensaiando na casa do Renato. Ele freqüentemente chegava com as músicas prontas de cabo a rabo. A gente só mexia nos arranjos, dava um palpite aqui outro ali...", completa Ico. "O Renato normalmente mostrava uma capacidade incrível para compor, nos surpreendia com lances absolutamente geniais", conta Paraná. 
  Desde sempre Renato Russo foi um compositor brilhante. "Dado, Viciado" (incluída recentemente no último CD da Legião, Uma Outra Estação), "Química", "A Dança", "Faroeste Caboclo", "Conexão Amazônica" e "Eduardo E Mônica" eram algumas músicas do seu repertório daquela fase. "Quando inscrevemos ‘Química’ num festival promovido por um colégio, a música não passou nem na primeira triagem. Imagino que os diretores da escola tenham achado a letra um pouco ofensiva...", ri Paraná. Outra curiosidade da época era a (con)fusão entre "Faroeste Caboclo" e "Fátima", do Capital Inicial. "Renato cantava ‘Faroeste’ com a letra de ‘Fátima’ e o Capital fazia o inverso. Dá pra imaginar? Depois as coisas foram acertadas", conta Ico. 

Patinho feio 
  Embora tivesse talento e a admiração de todos que o cercavam, Renato era uma cara depressivo. "Eu só fui feliz na infância", disse ele à sua mãe, momentos antes de morrer. Um dos motivos disso era que Renato se achava o feio no meio de um grupo formado, na sua maioria, por jovens bonitos. Franzino e meio desengonçado, ele não aceitava sua aparência. "Era uma situação bem difícil. Todo mundo gostava dele, mas ele tinha esse complexo. Se achava o patinho feio da turma", revela Ico. E soltava sua insatisfação toda vez que bebia. "Ele era meio temperamental... Mas isso aumentava muito quando tomava umas e outras nas festas... Aí, qualquer coisinha o irritava", lembra Paraná. Por várias vezes, Renato saiu mais cedo das tais festinhas e voltou sozinho e a pé para casa. Andava quilômetros e quilômetros nas místicas madrugadas do Planalto Central. Sabe-se lá o que se passava pela cabeça dele. Provavelmente, entre outros assuntos, Renato já se atormentava com questões relativas à sua sexualidade, questão que só resolveu mesmo quase dez anos depois, em 1990, quando foi "sair do armário" nos EUA. "Eu precisava me assumir há muito tempo... Mas fica aquela coisa, filho de católico, ‘você é doente’ etc., etc. No meio do caminho já estava pensando: ‘Pô, eu sou um cara legal, eu não posso ser doente..’ Eu sou assim desde que eu me lembro, desde os 3, 4 anos. Eu sempre gostei de meninos...", disse, em entrevista a José Augusto Lemos, na BIZZ. 

Porre revelador 
  Embora a turma fosse composta por várias meninas, Renato não teve envolvimento público com nenhuma delas. A garota com quem tinha mais contato era uma descendente de chineses chamada Suzy. "Ele só conversava em inglês com ela. Eram muito amigos", lembra dona Maria do Carmo. Apesar de não ter namorada, ninguém da turma desconfiava que Renato tivesse tendências homossexuais. "Não víamos Renato paquerar, nem falar de garotas. Mas nunca cogitamos que ele fosse gay", diz Paraná. A primeira vez que ele deu sinal de que gostava de meninos foi quando, depois de ter bebido, agarrou um sujeito numa festa. Quem lembra dessa história é Ico Ouro-Preto. "Estávamos num grupo grande... Eu, André (Muller), Dinho, Dado... Tínhamos ido a uma festa num lugar longíssimo, mesmo para os padrões de grandes distâncias de Brasília. Lá pelas tantas, o Renato, já meio bêbado, agarrou um cara, ele não gostou e foi a maior confusão. Rolou uma briga, um empurra-empurra... Todo mundo ficou muito surpreso... Ninguém suspeitava da homossexualidade dele e não havia motivo para ele nos esconder uma coisa dessa. Nós tínhamos contato com outros gays e era um relacionamento normal - quer dizer, não existia preconceito." Naquela noite, mais uma vez, Renato voltou para casa a pé, sozinho. Meses depois, ele próprio faria uma insinuação sobre o episódio num texto a respeito da Legião, que você lê na íntegra nesta edição. Num PS. de uma biografia da Legião, ele joga neblina: "Com a saída de Ico-Ouro Preto, após incidentes curiosos que, um dia talvez, serão revelados aos verdadeiros fãs da banda..." Hoje, quinze anos depois do tal "incidente curioso", Ico revela a história. "Aquela briga da festa realmente foi a gota d’água no relacionamento complicado que Renato e eu vínhamos tendo naquele período. Eu estava confuso e já achava que tinha mais talento como fotógrafo do que como músico. Comprei uma passagem para Madri e fui embora." Só meses mais tarde é que Ico e Renato voltaram a se falar e começaram a trocar correspondência. Muitas cartas, cujo tema principal era astrologia. Renato era fascinado pelo assunto. "Sempre fomos muito ligados nisso. Passávamos horas falando a respeito", conta Ico. Paraná lembra de um episódio interessante. "Uma vez estávamos ensaiando, uma mulher veio reclamar do barulho, nos deu o maior esporro e foi embora. Aí, o Renato foi atrás dela: ‘Espera, espera... Qual é o seu signo? Volta aqui, eu senti um astral interessante em você...’ " 
  Embora Ico e Renato tivessem o interesse pela astrologia em comum, o principal motivo de terem reestabelecido o contato foi outro: Ico conheceu o maior ídolo de Renato nos anos 80. "Ele ficou maravilhado quando soube que eu tinha feito uma sessão de fotos com o Morrissey", lembra o fotógrafo. "Me ligou querendo saber todos os detalhes", conclui. 

De fã para ídolo 
  Depois que os Paralamas do Sucesso foram tocar na antiga capital (o Rio) e aconteceram com "Vital e Sua Moto", a Legião, já com Dado, pegou a mesma estrada e também saiu de Brasília. O sucesso não demorou a vir e então, sutilmente, foi acontecendo a metamorfose de Renato. "No começo, nós tínhamos uma banda cujo objetivo principal era tocar ao vivo. Aí, pintou gravadora, um monte de compromissos, as coisas mudaram muito e a gente ficou em função do trabalho. O espírito inicial se perdeu. É inevitável, as pessoas acabam mudando muito com a fama...", atesta Dado Villa-Lobos. Renato Russo, aquele garoto que seguia a fio a doutrina punk pregada pelos Sex Pistols, passou a ver as suas frases de efeito repecurtirem, viu também seus amigos saírem de Brasília, fazer sucesso com suas bandas e constatou à distância que a "tchurma" que tanto fez para aglutinar, enfim, havia se dissolvido. 
  O Planalto Central se transformou numa grande garagem onde se via uma banda em cada esquina e a minoria virou maioria. Mesmo de longe, a lenda de Renato era uma espécie de exemplo para toda aquela geração de novas bandas. Hoje, um ano após a sua morte e muitos anos desde que deixou Brasília, a "tchurma" já é história e muitos de seus integrantes assumiram empregos normais, como é o caso de André Muller, ex-baixista da Plebe Rude, atualmente trabalhando para o Banco Central. Fica a lembrança. "Sinto saudade por ter sido um época mais livre em que acreditávamos em grandes ideais. Éramos só uns garotos que tinham algo em comum. E o Renato foi o cara que proporcionou tudo isso", agradece Dado Villa-Lobos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Bizz número 1 - Showbizz I

UM MAGO DA ELETRÔNICA EM VISITA

    Mais precisamente dia 12, no Museu de Arte de São Paulo. Como já faz uns oito anos que esse mago da música eletrônica não toca ao vivo, não haverá show e sim um seminário sobre seus métodos de composição e gravação. Para quem não conhece o distinto músico, Holger Czukay era o homem por trás dos teclados e do baixo do Can, um dos importantes grupos alemães dos anos 70, e foi aluno de Stockhausen. Desde que a banda se dissolveu, tem desenvolvido um trabalho solo da maior consistência - no meio do qual brilha Snake Charmer, LP produzido em colaboração com The Edge, o guitarrista do U2, e Jah Wobble, ex-baixista do PIL.

MAIS BOWIE NO CINEMA

    Além de estar trabalhando com diretor Jullen Temple no longa Absolute Beginners (veja na seção Cinema), David Bowle prepara a trilha sonora de When the Wind Blows. Baseado em um livro de quadrinhos para crianças sobre o holocausto nuclear, o filme é uma animação com bonecos parecidos com os Muppets e direção de Jimmy Murakami.
    Ainda não está confirmada a participação de Bowie como um dos raros seres humanos presentes em todo o rolo de celulóide.

O MAPA DO ROCK

    Acaba de ser lançado aos EUA, coro o maior sucesso, um poster/mapa mundi em que o nome de inúmeras cidades, Estados, regiões etc. são substituídos por trocadilhos com nomes de roqueiros e derivados. Coisas como Boy Geórgia e Iraque Clapton.
    A idéia veio de Richard Brestoff,34, um ator de Los Angeles. Um belo dia, entre as gravações de um filme para TV a cabo, Richard soltou o mote. Argentina Turner! Um outro ator respondeu no ato: Bolivia Newton-John!

CONCURSO DE ROTEIROS

    Kodak, Curt e Alex Associados Laboratório/ Cinematográfico e tão promovendo um concurso a roteiros para longa e curta-metragem. O melhor roteiro original a longa ganhará noventa latas a quatrocentos pés de filme, revelação e copião, enquanto o melhor roteiro de curta ficará com dez latas, além de revelação e copião.
    Envie o seu roteiro até o dia de outubro, junto às copias de registro de direito autoral protocolado pela Embrafilme, para o Departamento de Cinema da Kodak Brasileira (r. George Eastman, 213 CEP 05690 - Morumbi - São Paulo). Para maiores informações, só escrever para lá.

FESTIVAL DE FESTIVAIS

    É verão no Hemisfério Norte, e isso significa uma proliferação de festivais e concertos ao ar livre. Só no fim de semana 22 23 de junho foram realizados três festivais na Inglaterra: o de Milton Keynes, encabeçado pelo U2, Knebworth, com o Deep Purple fechando a noite, e Glastonhury, encerrado pelo Echo & the Bunnymen.
    Já o tradicional Festival de Jazz de Montreux, realizado na primeira semana de julho, foi um prato cheio para musicomaníacos em geral. Além de medalhões como Miles Davis e Keith Jarrett, uma noite com o melhor do novo rock inglês; Aztec Camera, Everything But the Girl e Sade. E, no setor das participações brasileiras, Naná Vasconcelos (presente no último LP dos Talking Heads) acompanha o violinista L. Shankar, mas o grande contingente ficou para a noite-abertura, com shows de Gal Costa, Baby e Pepeu, Airto e Flora Purim. Por último, num grande momento transcultural, o encontro de Nina Hagen & The Coconuts com a bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Aproveitando o embalo, vale lembrar que Alceu Valença arrasou no Kool Jazz Festival, realizado no final de junho em Nova York.

PARALAMAS DE OURO

    Bi, Barone e Herbert coletivamente conhecidos como Paralamas do Sucesso ficaram menos de vinte minutos na festa de entrega do disco de ouro referente às 100 mil cópias vendidas do álbum O Passo do Lui. E que Paula Toller, mulher de Herbert. precisava voltar voando para o estúdio de Liminha, onde está sendo produzido o disco do Kid Abelha.

A VOLTA DO GRATEFUL DEAD

    Após anos de férias, os mais loucaços baluartes do psicodelismo californiano voltam à ativa. Estamos falando do Grateful Dead, sim. Aproveitanda a onda neopsicodélica que varre o planeta, o pessoal comemora vinte anos de estrada embarcando em uma excursão por nove cidades americanas. Como se não bastasse, reaparecem também os Beach Boys, igualmente monstros sagrados do rock made in Califórnia. Getcha Back é o nome do LP que eles acabam de lançar lá fora, para uma boa acolhida crítica.

UM MESTRE DO BLUES EM SP

    Os paulistas bluesistas estão dando piruetas e esfregando as mãozinhas. O júbilo é justificado. Está chegando à capital bandeirante, para uma temporada de 13 a 31 de agosto no 150 Night Club do Maksoud Plaza, Buddy Guy - um dos maiores cantores e guitarristas de blues de todos os tempos. No agudo de seus lamentos, Guy parece ter sido a matriz de Robert Plant. Em seu dedilhado sutil-sinuoso, um dos mestres de Erlc Clapton. Ou seja, em cada show uma noite que vale por 1001, como se diz nas Arábias.

OUÇA ESSA

    "Ainda somos os mesmos e vivemos como o Belchior"
    Língua de Trapo, "Fraude´, do LP Como é Bom Ser Punk

ADIVINHA QUEM

    Se você gritou "Pote Townshend?!", acertou. Sem barba e com a calvície conquistando terreno, o venerável guitarrista e cabeça do Who é visto aqui chegando para o show em um castelo perto de Dublim, Irlanda, da excursão européia de Bruce "Chefão" Springsteen.

MOVIMENTAÇÃO DE ESTÚDIO

    Deve sair, até outubro, o quarto LP do Barão Vermelho (Som Livre), enquanto os discos de Mae East e Vinicíus Cantuáría (Odeon) recebem seus retoques finais.
    Já a RCA vem com Joe Eutanásia, Sá & Guarabira e Fevers ainda este mês, simultaneamente com Renúncia, LP de Nelson Gonçalves do qual participam Caetano e Tim Maia. Em outubro, a RCA lança Lobão, Alceu Valença e Roupa Nova.
    Do lado da WEA, devem estar saindo os novos LPs do Kid Abelha e Lulu Santos. Enquanto isso, Gil entra em estúdio para lançar o seu em outubro.
    Pela CBS, Fagner lança novo disco agora, enquanto Ritchie, Moraes Moreira e Pepeu ficam também para outubro. Um mês antes, deve estar nas lojas o pacote da Polygram: Erasmo Carlos, Dusek e a estréia de Valéria & Alma de Borracha.
    Enquanto a Continental solta o primeiro LP do Sossega Leão, a independente Baratos Afins continua ampliando seu catálogo. Este mês, saem Platina, Chave do Sol e Bocato & Banda Bloco. Em setembro, uma coletânea com quatro novos grupos paulistas: Muzak, Akira S & As Garotas que Erraram, Ness e Automartírio.

MUITO JAZZ NO EIXO RIO-SP

    Rola no começo de agosto, no eixo Rio- São Paulo, o Free Jazz Festival promovido pela produtora de Djavan, a Luanda Produções.
    No Rio, tocam Chet Baker, Hubert Laws, McCoy Tyner e Joe Pass, mais os brasileiros Hélio Delmiro, Luis Eça e Paulo Moura, entre outros, Em São Paulo, Joe Pass de novo, mais Pat Metheny, Pau Brasil, Sivuca e César Camargo Mariano.
ROCK PARA LER

    Já nas livrarias dois lançamentos que merecem uma conferida. O primeiro chama-se simplesmente Rock Progressivo (Ed. Papirus) e é escrito por Waldir Montanari, um especialista no gênero. Muita Informação - como discografia das bandas analisadas - e a ousadia de encaixar bandas raramente consideradas progressistas, como os Doors, Steppnwoif e Roxy Music.
    O outro é uma peça de Dagomir Marquezi, o Zappófílo que também co-escreve a novela "Um Sonho a Mais". Intitulada O Ocidente É Vermelho (EMW), inclui vinte músicas para uma banda de rock, muitas delas versões de conhecidas pérolas do rock´n´roll. Tudo Isto como pano de fundo para a maior gozação em cima de um grupo de militantes do movimento estudantil no período 1972-1974 e suas "contradições internas".

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bizz número zero - Meu instrumento (Herbert Vianna)


HERBERT VIANNA

    Ele usa óculos. Tem uma invejável coleção deles só superada por uma segunda coleção -    a favorita - que, ironicamente, ajudaria a celebrizar nacionalmente os óculos: as 10 guitarras de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso.
    O caso de amor de Herbert com a guitarra começou bem cedo, quando, aos 5 anos, ele viu os Beatles na TV pela primeira vez. "O que me pegou, em primeiro lugar, foi a atitude do guitarrista", explica Herbert, E muito diferente uma guitarra de um teclado, por exemplo. Quando você vai tirar aquele acorde que vem do fundo da alma, você fica praticamente parado, se for um tecladista. Já a guitarra permite ao músico responder com mais intensidade, usando mais o corpo."
    Por sorte, os pais de Herbert aprovaram este precoce namoro. Aos 10 anos, Herbert ganhou do pai seu primeiro violão e aprendeu de ouvido a tocar alguns hits vigentes, como My Sweet Lord, de George Harrison e Amada Amante, de Roberto Carlos. Pouco mais tarde, um carpinteiro amigo da família fez, por encomenda do pai de Herbert, uma guitarra caseira, "na verdade um verdadeiro tronco", Novamente o sr. Vianna ajudaria a alimentar a carreira do Herbert-músico quando trouxe dos EUA uma guitarra. De verdade; uma Gibson. Curiosamente, Herbert, na época com 14 anos, estava mais interessado em aprender bossa nova no violão ("Eu só ouvia Tom Jobim. Outro dia destes até pedi um autógrafo a ele") do que tocar guitarra ou rock.
    Por influências de bandas que tocavam em sua quadra, em Brasília, Herbert acabou voltando ao rock. "Aí só ouvia Jeff Beck, Eric Clapton, Jimi Hendrix, John McLaughlin. Só comprava discos para ouvir o guitarrista." Quando se mudou para o Rio, aos 15 anos, Herbert não tinha amigos e ficava tardes inteiras trancado no quarto, plugando sua novíssima Gibson L6-S num amplificador Honner (obrigado, sr. Vianna). E foi aí que começou a mexer no instrumento; "Se você abrir a sua guitarra, desmontar tudo, ver como cada peça funciona, você vai entender melhor sua guitarra. Tem muita gente que acha que é só ligar o instrumento e sair tocando, mas se você mexer nela, vai poder enriquecer muito mais o seu conhecimento e a sua música".
    Depois de tanto fuçar, Herbert acabou optando por uma sonoridade de guitarra mais limpa. "Eu gosto das nuances da guitarra limpa. Você vê uma guitarra heavy metal, por exemplo, Se você for comparar os sons de diferentes guitarristas heavy vai ver que o som é basicamente sempre o mesmo. Os recursos - como pedais - que eu uso são usados para preencher mais espaço, não para mudar o timbre do instrumento."
    Se os guitarristas que influenciaram Herbert simbolizavam o cume da veneração da guitarra como instrumento de destaque no rock traduzida em longos (e muitas vezes tediosos) solos -, Herbert é agora um claro exemplar do guitarrista anos 80: econômico, contido, mais preocupado com ritmo e harmonia do que com solos ou melodia. "Dois terços das músicas (dos Paralamas) não têm solo", diz Herbert, "a gente cria mais climas com paradas e ecos de repetição do que com solos, Antigamente, nos anos 60/70, o solo era considerado a parte mais importante de um rock, era o destaque da banda. Mas acontece que naquela época surgiu uma geração de guitarristas excelentes, principalmente na Inglaterra. E isso não acontece todo dia. E foi da própria Inglaterra que partiu a desmistificação do guitarrista. Surgiu o punk, com bandas que não se interessavam em tocar extremamente bem, que se preocupavam mais em passar uma idéia. Hoje em dia, ninguém mais é o destaque. O destaque é o que a banda quer dizer."
    "Por isso eu digo que o Andy Summers é o Hendrix dos anos 80. A guitarra dos anos 60 teve a direção que o Hendrix deu e a guitarra dos anos 70 e 80 tem a direção que o Summers iniciou no Police; a guitarra como contracanto, fazendo cama para voz."
    "Hoje em dia", continua Herbert, "não me preocupo em ser o mais rápido e acho perfeita a definição que o Jeff Beck - que pra mim é o mestre do solo deu para o solo; o solo pega a melodia da música, leva ela pra dar uma voltinha lá lora, depois volta e devolve a melodia ao cantor. E só."

Ficha técnica

    De suas dez guitarras, Herbert prefere duas Fender Stratocaster (uma azul, outra a vermelha da séria especial The Strat. "Elas têm um corpo especial, de madeira pesada, e a eletrônica delas é toda nova."
    As outras duas favoritas são lbanez, de fabricação japonesa. "Só uso essas duas no estúdio, porque são muito complicadas para shows, têm muitos controles diferentes, enquanto outras guitarras funcionam apenas com uma chave de captadores e controles de volume e tonalidade. Essas lbanez também são diferentes por causa do braço de 24 trastes (quando o normal são 21)."
    "De uma forma geral, sempre prefiro o som Strato, aquele som do Summers e do Adrian Botew (do King Crimson)."
    Strato ou não, as guitarras de Herbert - ao vivo ou em estúdio - são ligadas a um compressor DBX (que aumenta o sinal de saída da guitarra e diminui os abismos existentes entre notas mais ou menos intensas), Um diqital delay Roland, mais um Ibanez HD-1.5~~ø. Essa nova aquisição acumula funções de harmonizem e chorus (para "dobrar" os desenhos musicais da guitarra e dar mais ressonância a essa "dobra", respectivamente) pitch control.
    Um pitch control serve para alterar a tona/idade de uma ou mais notas. Assim, quando Herbert toca um acorde, ele pode, ao mesmo tempo, conseguir, do pich control de seu HD- 1500, a terça, a quinta e a oitava de cada nota daquele acorde.
    Os pedala e as guitarras falam através de dois amplificadores Mesa Boogie (os mesmos usados por guitarristas como Keith Richards e Pele Townshend) e caixas Marshall.