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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um ano sem Renato Russo parte IV (final) - A história da Legião Urbana por Renato Russo

A HISTÓRIA DA LEGIÃO URBANA POR RENATO RUSSO

  Urbana Legio Omnia Vincit. Legião Urbana a tudo vence. Renato Russo adaptava a frase do estadista romano Júlio Cesar (Romana Legio Omnia Vincit) para assinar os textos sobre a Legião que sempre escrevia. Ele adorava desfiar a verve genial em histórias sobre a sua "tchurma". Os três textos inéditos e ricos em detalhes que você vai ler aqui foram concebidos durante o segundo semestre de 1982, a partir de uma necessidade de Renato de registrar o momento em que o Legião Urbana dava seus primeiros passos. Você sabia que a Legião teve um tecladista na formação original? Muito bem, aqui, você vai poder aprender tudo sobre essa fase da banda, segundo a ótica de seu criador. Aproveite. 
Música Urbana 
  "Era uma vez a gente. Depois, mais gente e mais gente e muito mais gente (não é tanta gente assim; tem muito mais gente do que tem na verdade); era uma cidade. Quer dizer, antes, uma colina. Só que a colina era pequena e era uma panela. Descemos da colina tal qual bandeirantes (essa frase horrível foi idéia do Dinho) onde é que a gente está mesmo? No porão do Cafofo, lutando contra tudo e contra todos - principalmente contra os microfones. Aparece M. Bonfá (que país é este?), estamos em 1979. 
  Alguns espécimes voltam do velho continente e trazem boas novas; formam-se novas bandas: AE, Blitx 64, Metralhaz, Vigaristas De Istambul, Dado E O Reino Animal, confusão geral. 
  Muitas entradas e bandeiras e finalmente do caos nascem: Plebe Rude, Sia Trecho II, o novo Blitx, Bambino E Os Marginais, Capital Inicial e Legião Urbana. 
  É mais ou menos isso. 
  Uma tribo longínqua também tinha muitos planos que se perdiam dentro de um plano só. E da Erva Maldita e Boca Seca aparece E. Paraná que, também insatisfeito, procurava algo novo. 
  Enquanto isso, R. Russo, trovador exilado planejava voltar a fazer música elétrica. Estamos em 1982. 
  Somos três: Legião Urbana. 
  Nossa primeira apresentação foi no Festival Rock Na Arena, em Patos de Minas. A segunda, um grande acontecimento tribal no Guará. A terceira, na Ciclovia, Lago Norte. Não vamos desistir. Só queremos nos divertir - ‘tá tudo muito bem’, tá tudo bom demais, mas realmente não iremos esquecer a música urbana." 
Raio X 
Eduardo Paraná Tudo começou quando, em Dezembro de 1980, fui convidado por um amigo para tocar em sua loja de discos, show que aconteceria em Janeiro de 1981. Formei o grupo Boca Seca e o seu tipo de música era um rock progressivo bastante trabalhado (instrumental). Embora fossem dadas várias apresentações, o grupo se desfez em julho de 1981. Cada um foi para o seu lado e logo depois Eduardo Paraná foi convidado para montar um grupo de rock ‘brasiliense’ que tocaria músicas de Brasília para dançar, ouvir, e principalmente gostar. Um metal pesado seria a base do grupo, formado por Bonfá, bateria; Renato, baixo; Paraná, guitarra; Paulo, teclados. 
  Paulo Paulista ‘Onde é que fica o Brasília Rádio Center?’ Libriano, 16, mora em Brasília há seis meses. Como seu nome indica, é de um Estado ao sul de Minas Gerais. Universitário. É o tecladista da Legião mas também toca baixo, percussão, gaita e sabe manejar o rhythm-machine muito bem. Esta é a primeira vez que participa de um grupo de música elétrica. (Antes tocava com o Quarteto de Cordas de Sttutgart, na Alemanha, onde ganhou o Rischenbachen, prêmio máximo para músicos jovens). Decidiu entrar para a banda para distrair-se de seus estudos. Gosta de cantar, solo, ‘Rock Around The Clock’ e aquela música da Ana Maria que comprou um biquíni. 
  Renato Russo Teve idéia de formar Aborto Elétrico, que JAERA. Acabou, fim, adeus, goodbye. Continuou escrevendo e cantando músicas para quem quisesse ouvir. Sabe de cor mais de 42 músicas dos Beatles (o que não é um grande feito) e é fã incondicional dos Vigaristas de Istambul (a banda mais honesta a aparecer e depois desaparecer). Escreve uma peça de teatro, é professor. ‘Todos os professores e professoras, sejam bem-vindos!’ Áries descendente Peixes. Não gosta de dentistas, filas de espera, música de elevador, nem de gente falsa e/ou sem criatividade. Gosta muito de cinema e está atualmente preocupado com boatos de que a III Guerra pode começar antes que ele cumpra sua promessa de ir a Mogi das Cruzes para se encontrar com seres extraterrestres. Como todo ser humano, é falso em casos de emergência e todos sabem que não é nem um pouco criativo. Ninguém sabe, mas foi ele quem matou Sid Vicious em 1432 a.C. 
  Marcelo Bonfá Baterista. Aquário. Gosta de natação, de acampamentos, de se divertir (muito). Era do Blitx 64 (também) e tocou junto ao SLU, Autonomia Limitada, Metralhaz e o supergrupo Dado e o Reino Animal. Faz desenhos e visuais para a banda. Aprendeu a tocar bateria logo depois da primeira quinzena de vida. Sabia dançar o pogo bem, enquanto no berço. Mais tarde, tornou-se o terror das menininhas: primeiro na Asa Norte, depois na Asa Sul, depois na Asa Leste e agora na Asa Oeste, onde reside atualmente. Os quatro personagens acima estavam, um dia, procurando por alfinetes perdidos no chão da Rodoviária (Paraná procurava seu logotipo do Led) quando, de repente, decidiram aprender a tocar samba. Após seis meses de tentativas frustradas em busca de apresentações (‘Não meu filho, aqui a gente não quer grupo de samba, a moda é funk. Funk, entendeu?’), descobriram que é impossível ganhar dinheiro fazendo música no país e decidiram tocar música então. Apareceu a LEGIÃO. Arriscaram a sorte se apresentando ao vivo pela primeiríssima vez na cidade de Patos, nas Geraes, quando ninguém sabe o que aconteceu porque ninguém se lembra. Foi um momento histórico, e de hoje em diante Roberto Carlos não recebe mais visitantes em seu túmulo: todas as pessoas estão em casa, dentes cerrados, nervosismo à flor da pele, perguntando: Mas quando será a próxima apresentação da LEGIÃO URBANA." 
Legião 
  "A banda foi formada em agosto de 1982, por Marcelo Bonfá e Renato Russo. Bonfá vinha de uma experiência com o Dado E O Reino Animal, grupo único no sentido de ter um tecladista (Pedro Thompson-Flores), dois guitarristas (Loro Jones, ex-Blitx 64 e atualmente no Capital Inicial; e a guitarra ritmo de Dado Villa-Lobos, neto do famoso compositor australiano). Isto sem falar no bass-man, o incrível Dinho, que, de ex-baterista e ex-heavy metal, passou a ser o líder intelectual do movimento em Brasília, com a dissolução do Aborto Elétrico. A música de Dado E O Reino Animal era primitiva e tribal (a primeira banda a seguir esse estilo): a rica estrutura dos muitos instrumentos, muitas vezes dissonante, lembrava algo entre Doors, Velvets, com muito dos padrões repetitivos dos conjuntos avant-garde de então (principalmente Joy Division). Mas a banda não durou. Embora fosse a que tivesse o maior número de membros instrumentais, apresentaram-se apenas uma vez, na Expoarte-VII da UnB. Insatisfeito com problemas de ensaios e com a aparente indecisão do Loro, que na época não tinha conjunto fixo, Marcelo Bonfá volta a treinar sozinho, aprimorando seu estilo e assimilando influências - tanto do reggae como de música computadorizada (Human League, no-wave alemão e Cabaret Voltaire). Dado Villa-Lobos desiste momentaneamente e só voltaria a pegar na guitarra mais tarde. 
  Enquanto isso, Renato Russo (que havia abandonado o Aborto Elétrico por motivos de insatisfação pessoal) seguia uma turbulenta carreira solo, abrindo as inúmeras apresentações dos conjuntos da época. Deixa de lado o ataque elétrico para revelar suas composições folk-urbanas, como ‘Eduardo e Mônica’, ‘Faroeste Caboclo’ e ‘Dado Viciado’. Eram baladas com uma história (começo, meio e fim) bem diferentes do seu estilo junto ao AE. Inevitavelmente, essa mudança começou a chamar a atenção de pessoas menos ligadas -havia os que detestavam de verdade - ao movimento elétrico da cidade. Agora era possível compreender as letras das músicas, o que tinha sido impossível até então, devido a problemas com microfones e volume alto demais. Além das novas composições, Russo se dedicava a transcrever para o violão de doze cordas a maioria das músicas do Aborto Elétrico (incluindo ‘Veraneio Vascaína’, ‘Que País É Este’, ‘Anúncio de Refrigerante’ entre os blues e as love-songs que passara a cantar). Esta foi a época de ascensão dos ‘Vigaristas de Istambul’ (banda hardcore/ska, liderada pelo carismático Bernardo Mueller, e com o ska-man Jeová Stemller na guitarra, além dos iugoslavos Sava e Jovan; um pensando que era Jean-Jacques Burnel e o outro igual ao baterista dos Ramones, mas antes deste aprender a tocar bateria. Foram as bandas mais autênticas a aparecer na cidade). Foi também a época de mudanças no Blitx-64. Bateristas que entram e saem, brigas entre irmãos por causa dos inúmeros carros que eram comprados a preço de compacto (um Maverick, um gigantesco Galaxie preto e o ‘walkie-talkie do Fred’, um absurdo Gordini vermelho, que parecia saído direto de algum disco dos B-52’s). Era tempo também do Caos Construtivo, em que Felipe Seabra começava a aprender a destruir the eletric guitar. 
  Após quase um ano e meio de acontecimentos (entre loucuras, apresentações, ‘Bambino e os Marginais’, filmes super-8, exposições, festivais e acampamentos), tanto Marcelo Bonfá como Renato Russo decidiram voltar à música elétrica, dado o espetacular sucesso do Plebe Rude, banda que seria um modelo a ser seguido em termos de energia e talento (por mais que isso seja motivo de aw-shucks por parte dos Plebeus e Plebetes jóia). Metade do Blitx-64 se junta à metade do ‘Istambul’ (os iugoslavos vigaristas voltam para casa), e aparece o XXX. Fê e Flávio formam o Capital Inicial, junto com o Loro e, com tanta movimentação, não poderia ser diferente: a Legião Urbana é formada às pressas, com Eduardo Paraná (fã de Jeff Beck, Hendrix e Focus) tocando guitarra e Paulo Paulista nos teclados. A experiência dá certo, mas sempre há uma corrida contra o tempo. A primeira apresentação, em um Festival de Rock em Patos de Minas, é feita com apenas três ensaios (ou quatro). O que fica é o agito no ônibus (ida e volta), Tatiana e Tânia indo de carona até lá, para chegarem na hora da volta, os solos intermináveis do Paraná e o stage-flight do Paulista, que permaneceu imóvel durante toda a apresentação. O segundo gig (no estádio do Cave) foi já sem Paulista, que foi ligeiramente sugestionado por Eduardo Paraná a deixar a banda. Uma pena, já que a Legião na época possuía um estilo musical invejável, como comprovam as fitas que sobreviveram. Mais duas apresentações, sempre em estado de emergência e sem ensaios: na Ciclovia, no VI Concerto do Lago Norte (sucesso de crítica e público) e como convidados especiais da Blitz do Rio (‘Geme-Geme’), também sucesso tanto crítico como entre adeptos e não-adeptos do movimento. 
  Mas a inconstância de Paraná, aliada a seus intermináveis solos estilo Jimmy Page, acabou fazendo com que surgisse uma vaga para guitarrista e, então, entra outro inconstante, só que um caso pouco mais sério. Enquanto Paraná não compreendia as nuances do estilo experimental da banda (PiL, Cure e Young Marble Giants como influências), Ico Ouro-Preto, guitarrista da fase final do AE, as compreendia muito bem; seu estilo era puro e único - em outras palavras: ideal. Mas a falta de um ritmo fixo de ensaios, além do lendário medo de palco do artista em questão, fez com que saísse da Legião Urbana sem ao menos ter se apresentado ao vivo. Na verdade, Ico Ouro-Preto se demitiu, um mês apenas antes da Temporada de Rock Brasiliense, deixando Russo e Bonfá na mão. Após várias tentativas (seguir como um duo, usar percussão eletrônica, desistir, aparece das sombras Dado Villa-Lobos, grande amigo e excelente guitarrista. Só sua energia vale por todos os guitarristas que a Legião já teve. Viva Dado!" 
PS. do PS.: 
"Com a saída de Ico Ouro-Preto, após incidentes curiosos que, um dia talvez, serão revelados aos verdadeiros fãs da banda, Marcelo Bonfá entrou em desespero suave (que, junto com sua crise existencial momentânea, lhe deu inspiração para criar não só novos padrões rítmicos, como uma série de desenhos e badges, quase superados pela produção neo-industrial de Bernardo XXX Mueller. Aliás, aqui cabe uma nota de interesse aos adeptos deste nosso movimento: você sabia que, tanto ‘009’ como ‘Caneta Esferográfica’, sucessos do Blitx-64 e do XXX, foram escritos por Bonfá?) O que fazer? Os ensaios continuaram, mas destes, de produtivo, só apareceu ‘A Dança’ - em sua primeira versão. E desistir estava out-of-question. A vinda de Pedro Ribeiro do Rio (coincidentemente, um ex-aluno de inglês do Renato Russo), que se instalou permanentemente em Brasília, traz nova inspiração. Suas histórias sobre o recente súbito sucesso dos PDS - Os Paralamas do Sucesso - fazem com que todos da banda voltem a acreditar no seu potencial, que na época se resumia a seis instrumentais ainda sem letra, um reggae que nunca dava certo e uma música inacabada: ‘Ainda É Cedo’ (a linha vocal dessa foi composta por Ouro-Preto). É verdade que a Legião tinha vinte e tantas composições antigas para usar, mas isto seria contra a idéia básica da banda. 
  Ao passo que, com Paraná e Paulista (e depois, sem este último), o estilo era decididamente heavy metal (para desespero de Russo e agonia mal disfarçada de Bonfá), quando da entrada de Ico Ouro-Preto a tendência foi suavizar tudo, com músicas de títulos como ‘O Grande Inverno Na Rússia’ e ataque intelectual/melódico, sans energie. Ao entrar Dado Villa-Lobos, logo se chegou à conclusão de que seria impossível, em apenas três semanas, inventar e aprender músicas experimentais, como era o plano original. O que fazer? Dado tem a resposta: hardcore! Três acordes! Então, com muitos ensaios e muitas doses de energia, começaram a aparecer as bases para: ‘Petróleo do Futuro’, ‘Teorema’, ‘O Reggae’ (em fase final - Dado aprendeu em três dias o que outros levaram três semanas para aprender) e ‘A Dança’. As letras para estas músicas foram escritas por Russo, em estado inspiradamente próximo ao da coma alcóolica, numa noite só (ou duas). ‘Química’, música recusada pelo AE (horrível, diziam eles), e também ‘Tédio’ e ‘Conexão Amazônica’ foram resgatadas por absoluta falta de tempo. ‘Ainda É Cedo’ ganhou novo estilo e o repertório básico da Legião ficou completo. Desde a Temporada de Rock Brasiliense a banda não tem tido tempo para ensaios e músicas novas como ‘1977’, ‘Perdidos No Espaço’, ‘Setor de Diversões Sul’ e ‘Revoluções Por Minuto’ ainda não estão completas: vieram mais apresentações. Na QL 8 Sul (onde, de acordo com as más-línguas, mas nem tanto, a banda salvou a festa), no III Festival de Windsurf, na Lagoa Formosa, e esta, no Teatro Galpão pela Expoarte VIII da UnB, todas razoavelmente bem-sucedidas. O estilo e o ataque da Legião surpreendeu a todos, ao mesmo tempo em que ficou claro que cada uma das quatro bandas principais do movimento (Plebe Rude, XXX, Capital Inicial e Legião Urbana) já tem estilo e dinâmica próprios, sem que haja competição ou intrigas musicais. Há uma nova força, o que é uma direção a ser seguida. Já sabem, os que sempre diziam que éramos falhos, que estamos aqui para ficar. É interessante observar como os ‘anônimos’ da cidade têm apresentado uma tendência a não dar crédito ao movimento, ao mesmo tempo em que nos copiam e insistem em freqüentar os mesmos lugares que freqüentamos. Outro fator digno de nota aqui, é que os brasilienses só aceitam o que é canonizado pelo eixo mídia impressa - TV - juventude Rio/Sampa. 
  Antes de Bivar e Os Inocentes, antes do Circo Voador e punks no Fantástico e Lixomania, ninguém, ninguém nos dava uma ajuda sequer aqui na cidade. Éramos obrigados a esperar até que alguma futura estrela brasiliense da MPB nos deixasse subir ao palco (e de graça, ainda por cima), para tocar uma canção ou duas. E isso sem mencionar o pouco-caso dos técnicos de som e organizadores etc., que se achavam no direito de decidir o que deveria ou não ser ouvido pelo público jovem da cidade. 
  Não deixaremos que se esqueça que somos nós mesmos desde ’78, rótulos ou não-rótulos; new-wave, punk ou no-wave. O que acontece? A quem estamos enganando? Qual o verdadeiro papel do artista, n’uma cidade como Brasília, a nossa cidade? Qual o papel da imprensa; do público? Sempre fizemos questão de ir até o público e isso ninguém poderá negar - carregávamos amps e guitarras, bateria e microfones e, só com uma tomada emprestada, uma extensão, armávamos tudo, em lanchonetes, colégios, sempre de graça para quem quisesse e pudesse ouvir. Poucos queriam e esses, os visionários, já estão conosco agora. Estão participando, agindo, em vez de discutirem práxis em auditórios. Estão fazendo alguma coisa em vez de criticar e sorrir com o despeito próprio dos falsos membros da avant-garde. 
  Temos de ir em frente e para isso é necessário, ao menos, assimilar o esquema sórdido que é o meio artístico brasileiro. Principalmente quanto a aspectos ligados à produção. Vamos ter que cobrar ingressos do público: para manter equipamento, pagar aluguel, taxas de sindicato e também da Ordem dos Músicos (que, aliás, foi muito compreensiva com a gente. Thanks, Edgard e Mr. Antunes). Mas vamos também sempre tocar de graça, como hoje. Em resposta à música ‘Petróleo do Futuro’. O importante é você fazer o que você quer fazer. Esqueçam os rótulos. Só não se esqueçam que amizade ainda é muito importante e que tribos são o único meio de sobreviver individualmente, sem se perder no meio de tanta informação, tanta moda e tantas mentiras. Essa é a nossa tribo. E a sua?"

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um ano sem Renato Russo parte III - Detidos na estreia - A Legião terminou seu primeiro show nos braços da polícia


DETIDOS NA ESTRÉIA

  Detidos na estréia Surpreendentemente o primeiro show da Legião Urbana não foi em Brasília. Aconteceu dia 12 de fevereiro de 1982, na cidade de Patos de Minas, MG. A estréia foi o mais marcante possível: no final da apresentação, a banda saiu algemada do palco. O evento chamava-se Festa do Milho e, entre atrações bem populares, o produtor resolveu encaixar dois grupos de rock: a Legião Urbana e a Plebe Rude, que na época era a banda que mais fazia sucesso em Brasília. O guitarrista Paraná conta: "Vivíamos o governo Figueiredo e estava cheio de polícia no lugar. Enquanto tocávamos, o André Muller, baixista da Plebe, conversava com os peões da platéia, jogando todo aquele papo socialista que a gente já conhece das músicas da Plebe Rude. Durante o show, eles perguntavam aos trabalhadores o que achavam do salário que recebiam, se concordavam com as condições em que viviam... Pronto. Foi só descermos do palco que havia uma fila de policiais nos esperando para nos levar para a delegacia. Ficamos detidos por algum tempo antes de ser liberados". Depois dessa experiência, Paraná ainda faria outros poucos shows com a Legião. O mais importante de todos aconteceu num pequeno festival ao ar livre, num local conhecido como Centro Comercial Norte. Nessa época, com Renato no baixo e Marcelo Bonfá na bateria, eles tocavam, entre outras, "Química", "Música Urbana", "Faroeste Caboclo", "Conexão Amazônica" e duas canções que depois foram abandonadas: "Carne Clandestina", sobre a maneira pouco saudável de como a carne de boi chegava à Brasília, e a instrumental "O Cachorro". "Essa apresentação foi interessantíssima. Não foi um sucesso estrondoso, não tinha tanta gente na platéia. Mas o público reagiu muito bem. Pode-se dizer que foi um grande passo para a banda."
  Com a saída do guitarrista, bom demais para os padrões punks que Renato idealizava (leia mais no quadro ao lado), a solução mais rápida e conveniente foi a entrada de Ico Ouro-Preto, que havia tocado na última fase do Aborto Elétrico. Ele fez alguns ensaios com a banda, mas saiu do grupo sem fazer um showzinho sequer. Reza a lenda que Ico se pelava de medo do palco. É aí que, quando Renato e Bonfá já pensavam em formar um núcleo e só chamar guitarristas convidados, surge Dado Villa-Lobos. Ele chega para "apagar um incêndio" e tocar num show pouco após entrar no grupo. A "tchurma" havia alugado o Teatro da AOB (Associação Odontológica Brasileira) por quatro finais de semana. Era a primeira vez que bandas como Blitx 64, Capital Inicial, Plebe Rude, XXX e Legião Urbana se juntavam para um grande evento cultural juntos. "Como havíamos alugado o teatro, ficamos ensaiando lá direto. A gente era quase hardcore, mas como as melodias do Renato eram geniais, o resultado acabou ficando bem satisfatório. Viramos a zebra do páreo. Nos saímos tão bem que a galera resolveu nos dar a maior força", conta Dado, que naquela noite se apresentou de pijama. "Só tocamos umas sete músicas. Era mais um negócio de tocar para os amigos, uma festa... Mas como continuamos ensaindo forte para as sete apresentações que restavam, acabamos até fazendo algumas canções naquele teatro. "A Dança" e várias outras músicas que entraram no primeiro disco tiveram seus arranjos finais feitos lá", revela. Dali em diante, a carreira da Legião começou a engrenar. "Partimos para shows na Escola Parque, no Galpão, nas cidades-satélites de Brasília e o resto você já sabe...", conclui Dado. 

Músico demais 
  Kadu Lambach, mais conhecido como Paraná, foi o primeiro sujeito a assumir a guitarra na Legião Urbana. Muito influenciado por Jimmy Page, Jimi Hendrix e Jeff Beck, ele era considerado um dos melhores guitarristas de Brasília e, depois de ter seu a trabalho observado por Renato Russo num showzinho num bar do Lago Sul, recebeu o convite de Renato: "Cara, você toca muito. Quer formar uma banda comigo?" Paraná não pensou duas vezes. "Já sabia do talento do Renato e, além do mais, eu ia entrar para a ‘tchurma’", conta. Ficou no grupo por alguns meses e ajudou a dar a primeira cara da banda. "Me lembro de um ensaio que, depois de uma música, o Renato olhou no fundo do meu olho e disse: ‘Paraná, esse negócio vai dar certo.’ Cara, era como se ele estivese fazendo um pacto comigo." Só que esse pacto não durou muito tempo. Meses depois, o guitarrista deixava o grupo para se dedicar mais à música. Embora se desse muito bem com Renato, Paraná era músico demais para os padrões punks da época. Às vezes, ele reconhece, exagerava um pouco no tamanho dos solos. O punk rock era muito simples para Eduardo Paraná. Ele queria ser um virtuose. E conseguiu. Hoje, tomou o caminho do jazz e se transformou num guitarrista ainda melhor. Last Blues, seu primeiro disco, traz jazz fusion de qualidade. A faixa-título, um blues instrumental, é dedicado à memória de Renato. "Ele ia fazer a letra desta música e cantar no disco. Havíamos nos falado e tínhamos acertado tudo. Infelizmente, ele se foi no dia em que eu enviei o tape para a casa dele no Rio." Quem quiser conferir o CD de Kadu (independente), ligue para: (061) 346-2001.

Um ano sem Renato Russo parte II - O líder - Caristmático e aglutinador, Renato criou sua própria turma

O LÍDER

  Se a Brasília do final dos anos 70, começo dos 80, tivesse de ser definida em uma só palavra, a mais adequada seria "tédio".
  Principalmente para os jovens. Ainda em plena ditadura militar, a cidade construída no meio do árido Planalto Central oferecia poucas, muito poucas mesmo, opções de entretenimento. A solução para a rapaziada se divertir era formar grupos, fazer festas, ou seja, aglutinar pessoas. E Renato Russo, a princípio um cara estranho, que andava de camisa social, capa preta e com um guarda-chuva na mão, era o aglutinador. Como ele costumava dizer, gostava de "tchurmas". "Desde pequeno eu era ligado em filmes de tchurmas e, aí, armei uma. Eu era muito pentelho, juntava as pessoas, era uma espécie de catalisador... Insistia muito nisso", definiu-se o cantor, em entrevista à BIZZ, em maio de 1989. Mas não pense que o poeta era um simples agitador cultural ou coisa parecida... Renato e a turma eram punks. Muito influenciados pelo lado filosófico-político do termo, que naquela época bagunçava o tradicional coreto britânico, eles se reuniam diariamente. Ico Ouro-Preto (irmão de Dinho Ouro-Preto), guitarrista da fase final do Aborto Elétrico e integrante da turma, atualmente fotógrafo de moda, há oito anos baseado em Paris, lembra dessa fase. 
  "Éramos 25 ou 30 pessoas mais ou menos da mesma idade e de meios muito diferentes. Como eu, alguns eram filhos de diplomatas, que tinham acesso a discos e livros lançados lá fora. Isso era muito raro naquela época. Então nos reuníamos para tocar violão, ouvir discos do Clash, do Sham 69 e, principalmente, conversar. Ah, sim, penetrávamos em bando nas festinhas caretas também." Desse grupo, que chegou a ser chamado de Movimento Punk de Brasília, participavam - além de Renato, Ico e Dinho Ouro-Preto - Fê Lemos e seu irmão Flávio, ambos ex-Aborto Elétrico e hoje também ex-Capital Inicial; Dado Villa-Lobos, na época guitarrista do grupo Dado & O Reino Animal; Marcelo Bonfá; Loro Jones, atualmente também ex-Capital; Paraná (o primeiro guitarrista do Legião); Bi Ribeiro, baixista do Paralamas do Sucesso; e muitas jovens. "As meninas eram ótimas... Eu adorava todas elas. Tinha a Carla, a Ana, a Cris, a Helena... Éramos todos amigos. Rolavam coisas naturais e banais de adolescentes que descobriam as drogas e o sexo naquele momento", lembra Dado Villa-Lobos. Paraná também sente saudade daquela época. "Naquele tempo, o sujeito ou era hippie ou era playboy. Nós quebramos essa regra. A maioria andava desleixada, usava calças rasgadas... Me lembro que o Bi tinha um cabelo enorme, parecia um tufo de algodão com uns 30 centímetros de altura. Queríamos chocar e chocamos. Nesse momento, começamos a virar lenda em Brasília." 

Grampos na boca
  Passada a fase do guarda-chuva e da capa preta, Renato começou a se furar (colocava rebites metálicos no rosto) e freqüentemente adotava o visual punk mais tradicional. Em entrevista publicada na BIZZ em maio de 1989, Renato conta que copiava os modelos de um livro "cor-de-rosa que falava dos primeiros punks" e que colocava grampos na boca, se furava de verdade. "Nossa, ele ficava uma feiúra... Pintava o cabelo com três cores diferentes, rasgava a roupa toda e botava alfinetes de fralda. Também usava um pé de tênis vermelho, outro azul...", descreve hoje sua mãe, dona Maria do Carmo. "Eu não gostava daquela coisa, reclamava com o Júnior, mas ele ria e falava: ‘Isso é punk, mãe! É punk!!!’ " Ela lembra ainda de uma ocasião em que Renato foi vestido desse jeito a uma apresentação nobre do bailarino Mikhaíl Baríshnikov. "Era um espetáculo em que estavam muitos nomes importantes do cenário político de Brasília, inclusive militares. Naquele dia, pensei que ele fosse ser preso... Antes mesmo de ver o balé - que ele adorava -, queria provocar." Resumindo a ópera: falando inglês o tempo todo, Renato se passou por alguém de alguma embaixada, conseguiu lugar na primeira fila, foi ao camarim ao fim da apresentação e ainda ficou amigo do bailarino. "Ele chegou em casa às duas da madrugada e logo foi me acordar para contar a história e dizer que Baríshnikov fazia questão de que ele estivesse presente nas outras duas performances que faria no Rio e em São Paulo", diz a mãe. Renato acabou nem seguindo o astro, mas mostrou o tamanho do seu carisma. 

Pai de Todos 
  Durante as reuniões da "tchurma", além de ouvir discos de punk rock, conversava-se muito. Noites inteiras só de papo. E era nessas conversas que Renato se destacava. Com habilidade para usar as palavras, ele chamava a atenção do grupo. "O Renato começava a falar e num determinado momento estava todo mundo sentado no chão ouvindo. Era impressionante", lembra Paraná. "Ele tinha uma personalidade fortíssima. Às vezes chegava até a ter alguns poblemas com o pessoal, principalmente com o Fê (Lemos), que também não era fácil. Mas o discurso do Renato sempre acabava prevalecendo", diz Ico. 

Indivíduo competente 
  Renato tinha também um talento musical fora do comum, reconhecido e aplaudido pela turma. Naquela época, mais ou menos 1982, depois do sucesso local do Aborto Elétrico, a primeira banda punk de Brasília, formada inicialmente por Renato (baixo e voz), Fê Lemos (bateria) e André Pretorius (guitarra), o grupo de moleques já se dividia em várias bandas de rock: Legião Urbana, Capital Inicial, Blitx 64, XXX, Plebe Rude, entre outras. Esses grupos interagiam entre si e Renato era visto como o garoto-prodígio do pedaço. Logo após o fim do Aborto, ele fez algumas apresentações solo, só com voz e violão. O estilo folk-urbano, que depois o consagraria, nascia ali. 
  "A maioria das músicas eram concebidas no violão", conta Ico Ouro-Preto, que teve uma breve passagem pela Legião, entre a saída de Paraná e a entrada de Dado. "Passamos uma fase tocando violão na minha casa e depois ensaiando na casa do Renato. Ele freqüentemente chegava com as músicas prontas de cabo a rabo. A gente só mexia nos arranjos, dava um palpite aqui outro ali...", completa Ico. "O Renato normalmente mostrava uma capacidade incrível para compor, nos surpreendia com lances absolutamente geniais", conta Paraná. 
  Desde sempre Renato Russo foi um compositor brilhante. "Dado, Viciado" (incluída recentemente no último CD da Legião, Uma Outra Estação), "Química", "A Dança", "Faroeste Caboclo", "Conexão Amazônica" e "Eduardo E Mônica" eram algumas músicas do seu repertório daquela fase. "Quando inscrevemos ‘Química’ num festival promovido por um colégio, a música não passou nem na primeira triagem. Imagino que os diretores da escola tenham achado a letra um pouco ofensiva...", ri Paraná. Outra curiosidade da época era a (con)fusão entre "Faroeste Caboclo" e "Fátima", do Capital Inicial. "Renato cantava ‘Faroeste’ com a letra de ‘Fátima’ e o Capital fazia o inverso. Dá pra imaginar? Depois as coisas foram acertadas", conta Ico. 

Patinho feio 
  Embora tivesse talento e a admiração de todos que o cercavam, Renato era uma cara depressivo. "Eu só fui feliz na infância", disse ele à sua mãe, momentos antes de morrer. Um dos motivos disso era que Renato se achava o feio no meio de um grupo formado, na sua maioria, por jovens bonitos. Franzino e meio desengonçado, ele não aceitava sua aparência. "Era uma situação bem difícil. Todo mundo gostava dele, mas ele tinha esse complexo. Se achava o patinho feio da turma", revela Ico. E soltava sua insatisfação toda vez que bebia. "Ele era meio temperamental... Mas isso aumentava muito quando tomava umas e outras nas festas... Aí, qualquer coisinha o irritava", lembra Paraná. Por várias vezes, Renato saiu mais cedo das tais festinhas e voltou sozinho e a pé para casa. Andava quilômetros e quilômetros nas místicas madrugadas do Planalto Central. Sabe-se lá o que se passava pela cabeça dele. Provavelmente, entre outros assuntos, Renato já se atormentava com questões relativas à sua sexualidade, questão que só resolveu mesmo quase dez anos depois, em 1990, quando foi "sair do armário" nos EUA. "Eu precisava me assumir há muito tempo... Mas fica aquela coisa, filho de católico, ‘você é doente’ etc., etc. No meio do caminho já estava pensando: ‘Pô, eu sou um cara legal, eu não posso ser doente..’ Eu sou assim desde que eu me lembro, desde os 3, 4 anos. Eu sempre gostei de meninos...", disse, em entrevista a José Augusto Lemos, na BIZZ. 

Porre revelador 
  Embora a turma fosse composta por várias meninas, Renato não teve envolvimento público com nenhuma delas. A garota com quem tinha mais contato era uma descendente de chineses chamada Suzy. "Ele só conversava em inglês com ela. Eram muito amigos", lembra dona Maria do Carmo. Apesar de não ter namorada, ninguém da turma desconfiava que Renato tivesse tendências homossexuais. "Não víamos Renato paquerar, nem falar de garotas. Mas nunca cogitamos que ele fosse gay", diz Paraná. A primeira vez que ele deu sinal de que gostava de meninos foi quando, depois de ter bebido, agarrou um sujeito numa festa. Quem lembra dessa história é Ico Ouro-Preto. "Estávamos num grupo grande... Eu, André (Muller), Dinho, Dado... Tínhamos ido a uma festa num lugar longíssimo, mesmo para os padrões de grandes distâncias de Brasília. Lá pelas tantas, o Renato, já meio bêbado, agarrou um cara, ele não gostou e foi a maior confusão. Rolou uma briga, um empurra-empurra... Todo mundo ficou muito surpreso... Ninguém suspeitava da homossexualidade dele e não havia motivo para ele nos esconder uma coisa dessa. Nós tínhamos contato com outros gays e era um relacionamento normal - quer dizer, não existia preconceito." Naquela noite, mais uma vez, Renato voltou para casa a pé, sozinho. Meses depois, ele próprio faria uma insinuação sobre o episódio num texto a respeito da Legião, que você lê na íntegra nesta edição. Num PS. de uma biografia da Legião, ele joga neblina: "Com a saída de Ico-Ouro Preto, após incidentes curiosos que, um dia talvez, serão revelados aos verdadeiros fãs da banda..." Hoje, quinze anos depois do tal "incidente curioso", Ico revela a história. "Aquela briga da festa realmente foi a gota d’água no relacionamento complicado que Renato e eu vínhamos tendo naquele período. Eu estava confuso e já achava que tinha mais talento como fotógrafo do que como músico. Comprei uma passagem para Madri e fui embora." Só meses mais tarde é que Ico e Renato voltaram a se falar e começaram a trocar correspondência. Muitas cartas, cujo tema principal era astrologia. Renato era fascinado pelo assunto. "Sempre fomos muito ligados nisso. Passávamos horas falando a respeito", conta Ico. Paraná lembra de um episódio interessante. "Uma vez estávamos ensaiando, uma mulher veio reclamar do barulho, nos deu o maior esporro e foi embora. Aí, o Renato foi atrás dela: ‘Espera, espera... Qual é o seu signo? Volta aqui, eu senti um astral interessante em você...’ " 
  Embora Ico e Renato tivessem o interesse pela astrologia em comum, o principal motivo de terem reestabelecido o contato foi outro: Ico conheceu o maior ídolo de Renato nos anos 80. "Ele ficou maravilhado quando soube que eu tinha feito uma sessão de fotos com o Morrissey", lembra o fotógrafo. "Me ligou querendo saber todos os detalhes", conclui. 

De fã para ídolo 
  Depois que os Paralamas do Sucesso foram tocar na antiga capital (o Rio) e aconteceram com "Vital e Sua Moto", a Legião, já com Dado, pegou a mesma estrada e também saiu de Brasília. O sucesso não demorou a vir e então, sutilmente, foi acontecendo a metamorfose de Renato. "No começo, nós tínhamos uma banda cujo objetivo principal era tocar ao vivo. Aí, pintou gravadora, um monte de compromissos, as coisas mudaram muito e a gente ficou em função do trabalho. O espírito inicial se perdeu. É inevitável, as pessoas acabam mudando muito com a fama...", atesta Dado Villa-Lobos. Renato Russo, aquele garoto que seguia a fio a doutrina punk pregada pelos Sex Pistols, passou a ver as suas frases de efeito repecurtirem, viu também seus amigos saírem de Brasília, fazer sucesso com suas bandas e constatou à distância que a "tchurma" que tanto fez para aglutinar, enfim, havia se dissolvido. 
  O Planalto Central se transformou numa grande garagem onde se via uma banda em cada esquina e a minoria virou maioria. Mesmo de longe, a lenda de Renato era uma espécie de exemplo para toda aquela geração de novas bandas. Hoje, um ano após a sua morte e muitos anos desde que deixou Brasília, a "tchurma" já é história e muitos de seus integrantes assumiram empregos normais, como é o caso de André Muller, ex-baixista da Plebe Rude, atualmente trabalhando para o Banco Central. Fica a lembrança. "Sinto saudade por ter sido um época mais livre em que acreditávamos em grandes ideais. Éramos só uns garotos que tinham algo em comum. E o Renato foi o cara que proporcionou tudo isso", agradece Dado Villa-Lobos.

Um ano sem Renato Russo parte I - O punk que mudou o Brasil

O PUNK QUE MUDOU O BRASIL

  Dia 11 de outubro faz um ano que o Brasil perdeu Renato Russo. Mesmo sem estar entre nós, ele continua influenciando toda uma geração que cresceu ouvindo as mensagens certeiras que cantava à frente da Legião Urbana. Atendendo a inúmeros pedidos de nossos leitores, não deixamos a data passar em branco e preparamos este álbum especial (parte integrante de SHOWBIZZ 147) homenageando o ídolo. Uma Outra Estação, o último disco da Legião, já tem quase meio milhão de cópias vendidas e os fãs continuam ávidos por qualquer tipo de informação sobre o ídolo. Quem sente isso mais de perto é dona Maria do Carmo, a mãe de Renato, que recebe ligações diárias de fãs. "É incrível o carinho que eles têm pelo meu filho... Sentem muita falta dele e me pedem todo tipo de coisa. Outro dia uma menina me ligou desesperada pedindo os óculos do Júnior. Infelizmente, nem que eu cortasse em pedacinhos todos os tapetes e as cortinas da casa dele não daria para atender a todo mundo." Como já foi publicado em SHOWBIZZ, dona Carminha pretende fazer um museu Renato Russo, onde várias fotos, roupas e objetos pessoais de Renato serão expostos ao público. Mas isso ainda não tem nem data para acontecer. "No momento, não temos condição emocional de mexer com as coisas do Júnior. Ainda é muito difícil superarmos a perda. Peço aos fãs que, por favor, tenham paciência e não nos cobrem a respeito. Nem gosto de falar sobre essa idéia do museu na imprensa, para não transformá-la em obrigação", desabafa dona Maria do Carmo. Boa parte da herança artística de Renato, principalmente textos, está nas mãos de amigos. Coisas pessoais, como roupas, quadros, livros e alguns discos, continuam no apartamento em que o poeta vivia em Ipanema, no Rio. "A casa dele está intocada desde sua morte. Lá só entra uma pessoa para limpar. Quando tiver condições, vou até o apartamento para arrumar tudo", diz a mãe.  
  Fora os textos e, quem sabe, algumas músicas, que segundo dona Carminha estão com os amigos de Renato, existem sobras de estúdio de Equilíbrio Distante - que até agora já vendeu mais de um milhão de cópias - e de The Stonewall Concert, os dois discos solo do ídolo, que devem ser lançadas em CD no primeiro semestre do ano que vem. 
  Para este suplemento especial, ao invés de publicarmos uma burocrática retrospectiva da carreira do poeta ou uma melancólica coletânea de depoimentos saudosos e chorosos, lembramos os anos de formação de Renato Russo, menos conhecidos e bastante mitificados (exatamente por marcarem a transformação de um adolescente de talento promissor num artista consagrado). Além de publicarmos textos inéditos em que o próprio Renato registra esse período, conversamos com Paraná, primeiro guitarrista da Legião, Ico Ouro-Preto, que tocou na banda entre a saída de Paraná e a entrada de Dado Villa-Lobos, descobrimos detalhes dos primeiros shows da banda e fomos buscar informações reveladoras sobre o ídolo na época em que, pouco após Aborto Elétrico, o jovem Russo aglutinava pessoas e se tornava o maior expoente de um movimento que viraria lenda em Brasília e mudaria a história do pop rock brasileiro.