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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Bizz número 2 - Showbizz III

O CENTENÁRIO DE UM PIONEIRO

    Jelly Roll Morton falava pelos cotovelos. Dizia ter inventado o jazz em 1902 e não perdia uma chance de desancar seus colegas pianistas como Duke Emngton e Fats Waller. Esta figurinha controvertida, que morreu em 1941 e que, se vivo, faria cem anos no dia 20 de setembro, foi uma espécie de pioneiro na arte de levar músicos de jazz a criar arranjos orquestrais, em substituição à improvisação reinante. Seu trabalho como compositor e pianista pode ter sido superestimado, e sua fama repousa sobre gravações feitas entre 1026 e 1930. Mas sua influência sobre a música que se fez após estas gravações é inquestionável.

FESTIVAL FM DÁ DÓ

    Desorganização e desrespeito a um público pequeno e interessado apenas em sucessos de FM. Eis o São Paulo Rock Show e MPB promovido pela Rede Bandeirantes de 26 a 28 de julho em Interlagos.
    O esquema foi montado especialmente para a TV, com o show interrompido o tempo todo por comerciais e entrevistas. O público, obrigado a levantar toda vez que a câmera se virava para ele, escutava um apresentador confundindo Walter Franco com Jorge Mautner e outro, bêbado, levando bronca em pleno palco.
    Os sucessos ficaram por conta de nomes famosos e freqüentadores de FM. Na sexta Tim Maia. No sábado à tarde, Dr. Silvana e companhia. E à noite, Robertinho do Recife, Baby e Pepeu. No domingo, todos dançaram ao som de Herva Doce e Titãs.

PONTE AÉREA PARA AS ARTES

    Os cariocas invadiram as avenidas paulistas e os paulistanos tomaram de assalto às praias do Rio entre 8 e 20 de julho no projeto Conexão Urbana.
    Em São Paulo o evento aconteceu na Estação Madame Satã.Além das artes plásticas espalhadas por todo espaço e das leituras de poesia, a conexão trouxe o som da Rádio Fluminense FM de Niterói sob o comando do disc-jockey Maurício Valladares. Entre as bandas, o destaque ficou com o grupo Lado B.
    Já no Rio, as bandas paulistas não puderam tocar. O show de encerramento com os grupoS Voga, Basculantes, Ecossistema e Akira S e as Garotas que Erraram não aconteceu porque as luzes do Circo Delírio foram cortadas. Mas os cariocas viram as exposições de artes plásticas, foto, cinema, vídeo, dança, teatro, poesia e performan-ces.
    Inesquecível a apresentação da futurista "Eletro-Performance" de Theo Werneck, com muito baixo e bateria da banda Akira S. & as Garotas que Erraram. Ao final, aplausos super entusiásticos para a única apresentação a contar com a presença de uma banda.
MICHAEL JACKSON TRIDIMENSIONAL

    Há mais semelhanças entre Michael Jackson e Mickey Mouse e que o fato de os dois usarem luvas brancas. Jackson também vai fazer parte da galeria de tipos dos parques Disney. Sob a direção de Francis Ford Coppola e produção de George Lucas, ele vai ser o personagem de Capitão Eo, um filme em três dimensões de cerca de 12 minutos, que pretende falar de Disney como inovador técnico agora e no futuro, com estréia prevista para o ano que vem no Pavilhão Kodak da Imaginação no Epcot Center.

PUNKS MAIS PARA LÁ DO QUE PARA CÁ

    O grupo punk paulistano Cólera embarca,no inicio de 86, para a Europa. Um compacto com três musicas suas esta sendo editado na Bélgica, e é com a renda de sua vendagem que eles farão uma turnê por sete países do Velho Mundo.
    A viagem dá seqüência ao intenso intercâmbio mantido pela tribo. Nas paradas independentes de agosto, na Inglaterra, figura - por exemplo - o compacto duplo do Olho Seco, que leva apenas o nome da banda. Além disso, desde o ano passado essas duas bandas mais os Inocentes e os Ratos do Porão têm faixas editadas em coletâneas da Inglaterra, Alemanha e EUA.

UM DISCO PARA RAUL

    O fã-clube do Raul Seixas saiu na frente e pro-duziu um LP com o melhor da carreira de seu ídolo, O disco pode ser encontrado nos sebos paulistas ou pela CP 12106 (SP).

AO ESPOUCAR DO CHAMPAGNE

    Modéstia parte, as festas de lançamento da BIZZ em São Paulo (22 de julho), Rio (24 de julho) e Porto Alegre (02 de agosto) foram um arraso.
    Em São Paulo, os grupos Titãs e Sossega Leão e o mestre dos discotecários bandeirantes, Mr. Arthur Veríssimo, chacoalharam os três mil presentes á Pool Music Hall.
    No Rio, presença maciça do público, e o palco do Mistura Fina da Barra assaltado pela e Legião Urbana e Hojerizah. Em Porto Alegre o proprietário da danceteria Ovo de Colombo dizia nunca ter visto "algo assim" -    as portas tiveram que ser fechadas ás três horas, por motivos de segurança, e os últimos festeiros só debandaram lá pelas cinco e meia da manhã.

Um ano sem Renato Russo parte IV (final) - A história da Legião Urbana por Renato Russo

A HISTÓRIA DA LEGIÃO URBANA POR RENATO RUSSO

  Urbana Legio Omnia Vincit. Legião Urbana a tudo vence. Renato Russo adaptava a frase do estadista romano Júlio Cesar (Romana Legio Omnia Vincit) para assinar os textos sobre a Legião que sempre escrevia. Ele adorava desfiar a verve genial em histórias sobre a sua "tchurma". Os três textos inéditos e ricos em detalhes que você vai ler aqui foram concebidos durante o segundo semestre de 1982, a partir de uma necessidade de Renato de registrar o momento em que o Legião Urbana dava seus primeiros passos. Você sabia que a Legião teve um tecladista na formação original? Muito bem, aqui, você vai poder aprender tudo sobre essa fase da banda, segundo a ótica de seu criador. Aproveite. 
Música Urbana 
  "Era uma vez a gente. Depois, mais gente e mais gente e muito mais gente (não é tanta gente assim; tem muito mais gente do que tem na verdade); era uma cidade. Quer dizer, antes, uma colina. Só que a colina era pequena e era uma panela. Descemos da colina tal qual bandeirantes (essa frase horrível foi idéia do Dinho) onde é que a gente está mesmo? No porão do Cafofo, lutando contra tudo e contra todos - principalmente contra os microfones. Aparece M. Bonfá (que país é este?), estamos em 1979. 
  Alguns espécimes voltam do velho continente e trazem boas novas; formam-se novas bandas: AE, Blitx 64, Metralhaz, Vigaristas De Istambul, Dado E O Reino Animal, confusão geral. 
  Muitas entradas e bandeiras e finalmente do caos nascem: Plebe Rude, Sia Trecho II, o novo Blitx, Bambino E Os Marginais, Capital Inicial e Legião Urbana. 
  É mais ou menos isso. 
  Uma tribo longínqua também tinha muitos planos que se perdiam dentro de um plano só. E da Erva Maldita e Boca Seca aparece E. Paraná que, também insatisfeito, procurava algo novo. 
  Enquanto isso, R. Russo, trovador exilado planejava voltar a fazer música elétrica. Estamos em 1982. 
  Somos três: Legião Urbana. 
  Nossa primeira apresentação foi no Festival Rock Na Arena, em Patos de Minas. A segunda, um grande acontecimento tribal no Guará. A terceira, na Ciclovia, Lago Norte. Não vamos desistir. Só queremos nos divertir - ‘tá tudo muito bem’, tá tudo bom demais, mas realmente não iremos esquecer a música urbana." 
Raio X 
Eduardo Paraná Tudo começou quando, em Dezembro de 1980, fui convidado por um amigo para tocar em sua loja de discos, show que aconteceria em Janeiro de 1981. Formei o grupo Boca Seca e o seu tipo de música era um rock progressivo bastante trabalhado (instrumental). Embora fossem dadas várias apresentações, o grupo se desfez em julho de 1981. Cada um foi para o seu lado e logo depois Eduardo Paraná foi convidado para montar um grupo de rock ‘brasiliense’ que tocaria músicas de Brasília para dançar, ouvir, e principalmente gostar. Um metal pesado seria a base do grupo, formado por Bonfá, bateria; Renato, baixo; Paraná, guitarra; Paulo, teclados. 
  Paulo Paulista ‘Onde é que fica o Brasília Rádio Center?’ Libriano, 16, mora em Brasília há seis meses. Como seu nome indica, é de um Estado ao sul de Minas Gerais. Universitário. É o tecladista da Legião mas também toca baixo, percussão, gaita e sabe manejar o rhythm-machine muito bem. Esta é a primeira vez que participa de um grupo de música elétrica. (Antes tocava com o Quarteto de Cordas de Sttutgart, na Alemanha, onde ganhou o Rischenbachen, prêmio máximo para músicos jovens). Decidiu entrar para a banda para distrair-se de seus estudos. Gosta de cantar, solo, ‘Rock Around The Clock’ e aquela música da Ana Maria que comprou um biquíni. 
  Renato Russo Teve idéia de formar Aborto Elétrico, que JAERA. Acabou, fim, adeus, goodbye. Continuou escrevendo e cantando músicas para quem quisesse ouvir. Sabe de cor mais de 42 músicas dos Beatles (o que não é um grande feito) e é fã incondicional dos Vigaristas de Istambul (a banda mais honesta a aparecer e depois desaparecer). Escreve uma peça de teatro, é professor. ‘Todos os professores e professoras, sejam bem-vindos!’ Áries descendente Peixes. Não gosta de dentistas, filas de espera, música de elevador, nem de gente falsa e/ou sem criatividade. Gosta muito de cinema e está atualmente preocupado com boatos de que a III Guerra pode começar antes que ele cumpra sua promessa de ir a Mogi das Cruzes para se encontrar com seres extraterrestres. Como todo ser humano, é falso em casos de emergência e todos sabem que não é nem um pouco criativo. Ninguém sabe, mas foi ele quem matou Sid Vicious em 1432 a.C. 
  Marcelo Bonfá Baterista. Aquário. Gosta de natação, de acampamentos, de se divertir (muito). Era do Blitx 64 (também) e tocou junto ao SLU, Autonomia Limitada, Metralhaz e o supergrupo Dado e o Reino Animal. Faz desenhos e visuais para a banda. Aprendeu a tocar bateria logo depois da primeira quinzena de vida. Sabia dançar o pogo bem, enquanto no berço. Mais tarde, tornou-se o terror das menininhas: primeiro na Asa Norte, depois na Asa Sul, depois na Asa Leste e agora na Asa Oeste, onde reside atualmente. Os quatro personagens acima estavam, um dia, procurando por alfinetes perdidos no chão da Rodoviária (Paraná procurava seu logotipo do Led) quando, de repente, decidiram aprender a tocar samba. Após seis meses de tentativas frustradas em busca de apresentações (‘Não meu filho, aqui a gente não quer grupo de samba, a moda é funk. Funk, entendeu?’), descobriram que é impossível ganhar dinheiro fazendo música no país e decidiram tocar música então. Apareceu a LEGIÃO. Arriscaram a sorte se apresentando ao vivo pela primeiríssima vez na cidade de Patos, nas Geraes, quando ninguém sabe o que aconteceu porque ninguém se lembra. Foi um momento histórico, e de hoje em diante Roberto Carlos não recebe mais visitantes em seu túmulo: todas as pessoas estão em casa, dentes cerrados, nervosismo à flor da pele, perguntando: Mas quando será a próxima apresentação da LEGIÃO URBANA." 
Legião 
  "A banda foi formada em agosto de 1982, por Marcelo Bonfá e Renato Russo. Bonfá vinha de uma experiência com o Dado E O Reino Animal, grupo único no sentido de ter um tecladista (Pedro Thompson-Flores), dois guitarristas (Loro Jones, ex-Blitx 64 e atualmente no Capital Inicial; e a guitarra ritmo de Dado Villa-Lobos, neto do famoso compositor australiano). Isto sem falar no bass-man, o incrível Dinho, que, de ex-baterista e ex-heavy metal, passou a ser o líder intelectual do movimento em Brasília, com a dissolução do Aborto Elétrico. A música de Dado E O Reino Animal era primitiva e tribal (a primeira banda a seguir esse estilo): a rica estrutura dos muitos instrumentos, muitas vezes dissonante, lembrava algo entre Doors, Velvets, com muito dos padrões repetitivos dos conjuntos avant-garde de então (principalmente Joy Division). Mas a banda não durou. Embora fosse a que tivesse o maior número de membros instrumentais, apresentaram-se apenas uma vez, na Expoarte-VII da UnB. Insatisfeito com problemas de ensaios e com a aparente indecisão do Loro, que na época não tinha conjunto fixo, Marcelo Bonfá volta a treinar sozinho, aprimorando seu estilo e assimilando influências - tanto do reggae como de música computadorizada (Human League, no-wave alemão e Cabaret Voltaire). Dado Villa-Lobos desiste momentaneamente e só voltaria a pegar na guitarra mais tarde. 
  Enquanto isso, Renato Russo (que havia abandonado o Aborto Elétrico por motivos de insatisfação pessoal) seguia uma turbulenta carreira solo, abrindo as inúmeras apresentações dos conjuntos da época. Deixa de lado o ataque elétrico para revelar suas composições folk-urbanas, como ‘Eduardo e Mônica’, ‘Faroeste Caboclo’ e ‘Dado Viciado’. Eram baladas com uma história (começo, meio e fim) bem diferentes do seu estilo junto ao AE. Inevitavelmente, essa mudança começou a chamar a atenção de pessoas menos ligadas -havia os que detestavam de verdade - ao movimento elétrico da cidade. Agora era possível compreender as letras das músicas, o que tinha sido impossível até então, devido a problemas com microfones e volume alto demais. Além das novas composições, Russo se dedicava a transcrever para o violão de doze cordas a maioria das músicas do Aborto Elétrico (incluindo ‘Veraneio Vascaína’, ‘Que País É Este’, ‘Anúncio de Refrigerante’ entre os blues e as love-songs que passara a cantar). Esta foi a época de ascensão dos ‘Vigaristas de Istambul’ (banda hardcore/ska, liderada pelo carismático Bernardo Mueller, e com o ska-man Jeová Stemller na guitarra, além dos iugoslavos Sava e Jovan; um pensando que era Jean-Jacques Burnel e o outro igual ao baterista dos Ramones, mas antes deste aprender a tocar bateria. Foram as bandas mais autênticas a aparecer na cidade). Foi também a época de mudanças no Blitx-64. Bateristas que entram e saem, brigas entre irmãos por causa dos inúmeros carros que eram comprados a preço de compacto (um Maverick, um gigantesco Galaxie preto e o ‘walkie-talkie do Fred’, um absurdo Gordini vermelho, que parecia saído direto de algum disco dos B-52’s). Era tempo também do Caos Construtivo, em que Felipe Seabra começava a aprender a destruir the eletric guitar. 
  Após quase um ano e meio de acontecimentos (entre loucuras, apresentações, ‘Bambino e os Marginais’, filmes super-8, exposições, festivais e acampamentos), tanto Marcelo Bonfá como Renato Russo decidiram voltar à música elétrica, dado o espetacular sucesso do Plebe Rude, banda que seria um modelo a ser seguido em termos de energia e talento (por mais que isso seja motivo de aw-shucks por parte dos Plebeus e Plebetes jóia). Metade do Blitx-64 se junta à metade do ‘Istambul’ (os iugoslavos vigaristas voltam para casa), e aparece o XXX. Fê e Flávio formam o Capital Inicial, junto com o Loro e, com tanta movimentação, não poderia ser diferente: a Legião Urbana é formada às pressas, com Eduardo Paraná (fã de Jeff Beck, Hendrix e Focus) tocando guitarra e Paulo Paulista nos teclados. A experiência dá certo, mas sempre há uma corrida contra o tempo. A primeira apresentação, em um Festival de Rock em Patos de Minas, é feita com apenas três ensaios (ou quatro). O que fica é o agito no ônibus (ida e volta), Tatiana e Tânia indo de carona até lá, para chegarem na hora da volta, os solos intermináveis do Paraná e o stage-flight do Paulista, que permaneceu imóvel durante toda a apresentação. O segundo gig (no estádio do Cave) foi já sem Paulista, que foi ligeiramente sugestionado por Eduardo Paraná a deixar a banda. Uma pena, já que a Legião na época possuía um estilo musical invejável, como comprovam as fitas que sobreviveram. Mais duas apresentações, sempre em estado de emergência e sem ensaios: na Ciclovia, no VI Concerto do Lago Norte (sucesso de crítica e público) e como convidados especiais da Blitz do Rio (‘Geme-Geme’), também sucesso tanto crítico como entre adeptos e não-adeptos do movimento. 
  Mas a inconstância de Paraná, aliada a seus intermináveis solos estilo Jimmy Page, acabou fazendo com que surgisse uma vaga para guitarrista e, então, entra outro inconstante, só que um caso pouco mais sério. Enquanto Paraná não compreendia as nuances do estilo experimental da banda (PiL, Cure e Young Marble Giants como influências), Ico Ouro-Preto, guitarrista da fase final do AE, as compreendia muito bem; seu estilo era puro e único - em outras palavras: ideal. Mas a falta de um ritmo fixo de ensaios, além do lendário medo de palco do artista em questão, fez com que saísse da Legião Urbana sem ao menos ter se apresentado ao vivo. Na verdade, Ico Ouro-Preto se demitiu, um mês apenas antes da Temporada de Rock Brasiliense, deixando Russo e Bonfá na mão. Após várias tentativas (seguir como um duo, usar percussão eletrônica, desistir, aparece das sombras Dado Villa-Lobos, grande amigo e excelente guitarrista. Só sua energia vale por todos os guitarristas que a Legião já teve. Viva Dado!" 
PS. do PS.: 
"Com a saída de Ico Ouro-Preto, após incidentes curiosos que, um dia talvez, serão revelados aos verdadeiros fãs da banda, Marcelo Bonfá entrou em desespero suave (que, junto com sua crise existencial momentânea, lhe deu inspiração para criar não só novos padrões rítmicos, como uma série de desenhos e badges, quase superados pela produção neo-industrial de Bernardo XXX Mueller. Aliás, aqui cabe uma nota de interesse aos adeptos deste nosso movimento: você sabia que, tanto ‘009’ como ‘Caneta Esferográfica’, sucessos do Blitx-64 e do XXX, foram escritos por Bonfá?) O que fazer? Os ensaios continuaram, mas destes, de produtivo, só apareceu ‘A Dança’ - em sua primeira versão. E desistir estava out-of-question. A vinda de Pedro Ribeiro do Rio (coincidentemente, um ex-aluno de inglês do Renato Russo), que se instalou permanentemente em Brasília, traz nova inspiração. Suas histórias sobre o recente súbito sucesso dos PDS - Os Paralamas do Sucesso - fazem com que todos da banda voltem a acreditar no seu potencial, que na época se resumia a seis instrumentais ainda sem letra, um reggae que nunca dava certo e uma música inacabada: ‘Ainda É Cedo’ (a linha vocal dessa foi composta por Ouro-Preto). É verdade que a Legião tinha vinte e tantas composições antigas para usar, mas isto seria contra a idéia básica da banda. 
  Ao passo que, com Paraná e Paulista (e depois, sem este último), o estilo era decididamente heavy metal (para desespero de Russo e agonia mal disfarçada de Bonfá), quando da entrada de Ico Ouro-Preto a tendência foi suavizar tudo, com músicas de títulos como ‘O Grande Inverno Na Rússia’ e ataque intelectual/melódico, sans energie. Ao entrar Dado Villa-Lobos, logo se chegou à conclusão de que seria impossível, em apenas três semanas, inventar e aprender músicas experimentais, como era o plano original. O que fazer? Dado tem a resposta: hardcore! Três acordes! Então, com muitos ensaios e muitas doses de energia, começaram a aparecer as bases para: ‘Petróleo do Futuro’, ‘Teorema’, ‘O Reggae’ (em fase final - Dado aprendeu em três dias o que outros levaram três semanas para aprender) e ‘A Dança’. As letras para estas músicas foram escritas por Russo, em estado inspiradamente próximo ao da coma alcóolica, numa noite só (ou duas). ‘Química’, música recusada pelo AE (horrível, diziam eles), e também ‘Tédio’ e ‘Conexão Amazônica’ foram resgatadas por absoluta falta de tempo. ‘Ainda É Cedo’ ganhou novo estilo e o repertório básico da Legião ficou completo. Desde a Temporada de Rock Brasiliense a banda não tem tido tempo para ensaios e músicas novas como ‘1977’, ‘Perdidos No Espaço’, ‘Setor de Diversões Sul’ e ‘Revoluções Por Minuto’ ainda não estão completas: vieram mais apresentações. Na QL 8 Sul (onde, de acordo com as más-línguas, mas nem tanto, a banda salvou a festa), no III Festival de Windsurf, na Lagoa Formosa, e esta, no Teatro Galpão pela Expoarte VIII da UnB, todas razoavelmente bem-sucedidas. O estilo e o ataque da Legião surpreendeu a todos, ao mesmo tempo em que ficou claro que cada uma das quatro bandas principais do movimento (Plebe Rude, XXX, Capital Inicial e Legião Urbana) já tem estilo e dinâmica próprios, sem que haja competição ou intrigas musicais. Há uma nova força, o que é uma direção a ser seguida. Já sabem, os que sempre diziam que éramos falhos, que estamos aqui para ficar. É interessante observar como os ‘anônimos’ da cidade têm apresentado uma tendência a não dar crédito ao movimento, ao mesmo tempo em que nos copiam e insistem em freqüentar os mesmos lugares que freqüentamos. Outro fator digno de nota aqui, é que os brasilienses só aceitam o que é canonizado pelo eixo mídia impressa - TV - juventude Rio/Sampa. 
  Antes de Bivar e Os Inocentes, antes do Circo Voador e punks no Fantástico e Lixomania, ninguém, ninguém nos dava uma ajuda sequer aqui na cidade. Éramos obrigados a esperar até que alguma futura estrela brasiliense da MPB nos deixasse subir ao palco (e de graça, ainda por cima), para tocar uma canção ou duas. E isso sem mencionar o pouco-caso dos técnicos de som e organizadores etc., que se achavam no direito de decidir o que deveria ou não ser ouvido pelo público jovem da cidade. 
  Não deixaremos que se esqueça que somos nós mesmos desde ’78, rótulos ou não-rótulos; new-wave, punk ou no-wave. O que acontece? A quem estamos enganando? Qual o verdadeiro papel do artista, n’uma cidade como Brasília, a nossa cidade? Qual o papel da imprensa; do público? Sempre fizemos questão de ir até o público e isso ninguém poderá negar - carregávamos amps e guitarras, bateria e microfones e, só com uma tomada emprestada, uma extensão, armávamos tudo, em lanchonetes, colégios, sempre de graça para quem quisesse e pudesse ouvir. Poucos queriam e esses, os visionários, já estão conosco agora. Estão participando, agindo, em vez de discutirem práxis em auditórios. Estão fazendo alguma coisa em vez de criticar e sorrir com o despeito próprio dos falsos membros da avant-garde. 
  Temos de ir em frente e para isso é necessário, ao menos, assimilar o esquema sórdido que é o meio artístico brasileiro. Principalmente quanto a aspectos ligados à produção. Vamos ter que cobrar ingressos do público: para manter equipamento, pagar aluguel, taxas de sindicato e também da Ordem dos Músicos (que, aliás, foi muito compreensiva com a gente. Thanks, Edgard e Mr. Antunes). Mas vamos também sempre tocar de graça, como hoje. Em resposta à música ‘Petróleo do Futuro’. O importante é você fazer o que você quer fazer. Esqueçam os rótulos. Só não se esqueçam que amizade ainda é muito importante e que tribos são o único meio de sobreviver individualmente, sem se perder no meio de tanta informação, tanta moda e tantas mentiras. Essa é a nossa tribo. E a sua?"

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Um ano sem Renato Russo parte III - Detidos na estreia - A Legião terminou seu primeiro show nos braços da polícia


DETIDOS NA ESTRÉIA

  Detidos na estréia Surpreendentemente o primeiro show da Legião Urbana não foi em Brasília. Aconteceu dia 12 de fevereiro de 1982, na cidade de Patos de Minas, MG. A estréia foi o mais marcante possível: no final da apresentação, a banda saiu algemada do palco. O evento chamava-se Festa do Milho e, entre atrações bem populares, o produtor resolveu encaixar dois grupos de rock: a Legião Urbana e a Plebe Rude, que na época era a banda que mais fazia sucesso em Brasília. O guitarrista Paraná conta: "Vivíamos o governo Figueiredo e estava cheio de polícia no lugar. Enquanto tocávamos, o André Muller, baixista da Plebe, conversava com os peões da platéia, jogando todo aquele papo socialista que a gente já conhece das músicas da Plebe Rude. Durante o show, eles perguntavam aos trabalhadores o que achavam do salário que recebiam, se concordavam com as condições em que viviam... Pronto. Foi só descermos do palco que havia uma fila de policiais nos esperando para nos levar para a delegacia. Ficamos detidos por algum tempo antes de ser liberados". Depois dessa experiência, Paraná ainda faria outros poucos shows com a Legião. O mais importante de todos aconteceu num pequeno festival ao ar livre, num local conhecido como Centro Comercial Norte. Nessa época, com Renato no baixo e Marcelo Bonfá na bateria, eles tocavam, entre outras, "Química", "Música Urbana", "Faroeste Caboclo", "Conexão Amazônica" e duas canções que depois foram abandonadas: "Carne Clandestina", sobre a maneira pouco saudável de como a carne de boi chegava à Brasília, e a instrumental "O Cachorro". "Essa apresentação foi interessantíssima. Não foi um sucesso estrondoso, não tinha tanta gente na platéia. Mas o público reagiu muito bem. Pode-se dizer que foi um grande passo para a banda."
  Com a saída do guitarrista, bom demais para os padrões punks que Renato idealizava (leia mais no quadro ao lado), a solução mais rápida e conveniente foi a entrada de Ico Ouro-Preto, que havia tocado na última fase do Aborto Elétrico. Ele fez alguns ensaios com a banda, mas saiu do grupo sem fazer um showzinho sequer. Reza a lenda que Ico se pelava de medo do palco. É aí que, quando Renato e Bonfá já pensavam em formar um núcleo e só chamar guitarristas convidados, surge Dado Villa-Lobos. Ele chega para "apagar um incêndio" e tocar num show pouco após entrar no grupo. A "tchurma" havia alugado o Teatro da AOB (Associação Odontológica Brasileira) por quatro finais de semana. Era a primeira vez que bandas como Blitx 64, Capital Inicial, Plebe Rude, XXX e Legião Urbana se juntavam para um grande evento cultural juntos. "Como havíamos alugado o teatro, ficamos ensaiando lá direto. A gente era quase hardcore, mas como as melodias do Renato eram geniais, o resultado acabou ficando bem satisfatório. Viramos a zebra do páreo. Nos saímos tão bem que a galera resolveu nos dar a maior força", conta Dado, que naquela noite se apresentou de pijama. "Só tocamos umas sete músicas. Era mais um negócio de tocar para os amigos, uma festa... Mas como continuamos ensaindo forte para as sete apresentações que restavam, acabamos até fazendo algumas canções naquele teatro. "A Dança" e várias outras músicas que entraram no primeiro disco tiveram seus arranjos finais feitos lá", revela. Dali em diante, a carreira da Legião começou a engrenar. "Partimos para shows na Escola Parque, no Galpão, nas cidades-satélites de Brasília e o resto você já sabe...", conclui Dado. 

Músico demais 
  Kadu Lambach, mais conhecido como Paraná, foi o primeiro sujeito a assumir a guitarra na Legião Urbana. Muito influenciado por Jimmy Page, Jimi Hendrix e Jeff Beck, ele era considerado um dos melhores guitarristas de Brasília e, depois de ter seu a trabalho observado por Renato Russo num showzinho num bar do Lago Sul, recebeu o convite de Renato: "Cara, você toca muito. Quer formar uma banda comigo?" Paraná não pensou duas vezes. "Já sabia do talento do Renato e, além do mais, eu ia entrar para a ‘tchurma’", conta. Ficou no grupo por alguns meses e ajudou a dar a primeira cara da banda. "Me lembro de um ensaio que, depois de uma música, o Renato olhou no fundo do meu olho e disse: ‘Paraná, esse negócio vai dar certo.’ Cara, era como se ele estivese fazendo um pacto comigo." Só que esse pacto não durou muito tempo. Meses depois, o guitarrista deixava o grupo para se dedicar mais à música. Embora se desse muito bem com Renato, Paraná era músico demais para os padrões punks da época. Às vezes, ele reconhece, exagerava um pouco no tamanho dos solos. O punk rock era muito simples para Eduardo Paraná. Ele queria ser um virtuose. E conseguiu. Hoje, tomou o caminho do jazz e se transformou num guitarrista ainda melhor. Last Blues, seu primeiro disco, traz jazz fusion de qualidade. A faixa-título, um blues instrumental, é dedicado à memória de Renato. "Ele ia fazer a letra desta música e cantar no disco. Havíamos nos falado e tínhamos acertado tudo. Infelizmente, ele se foi no dia em que eu enviei o tape para a casa dele no Rio." Quem quiser conferir o CD de Kadu (independente), ligue para: (061) 346-2001.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Bizz número 1 - Showbizz II

FESTIVAL PUNK NO RADAR

    Contra todos os diagnósticos, o Festival Punk promovido pela danceteria paulista Radar Tantã, nos dias 14 e 15 de junho. transcorreu na maior tranqüilidade.
    Antes dos shows, foi apresentado o filme Punks, realizado em 1983 por Sarah Yarhnie e AIbert Gieco Na seqüência, fulminantes assaltos sonoros do melhor punk paulista: Cólera, Inocentes, Ratos de Porão, Olho Seco, Lobotomia e Vírus 27.

KIKO CANTA LEGIÃO

    Já faz algum tempo que Kiko Zambianchi incluiu "Será", a música da Legião Urbana que estourou só agora. no repertório de seus shows.
    Na noite, porém, em que Kiko lançava o LP Choque na danceteria paulista Latitude 3001º a homenagem foi além. Chamou Dado Villa-Lobos, o guitarrista da Legião em visita a São Paulo. Assim que o garoto subiu no palco, recebeu a guitarra das mãos de Kiko, que pegou no microfone e emendou "Será" com Ainda é "Cedo", outra do grupo brasiliense.

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

    O pacato pessoal da Vila Formosa, um bairro distante do centro de São Paulo, com certeza tem estranhado algumas das composições executadas no concerto mensal do carrilhão local, o conjunto de sinos da Igreja N.S.ª do Sagrado Coração. Algum dia um ouvido mais informado talvez identifique o que lá se escuta além de Bach, Mozart e Haendei. Nesse dia, Marcos Smirkoff, 22 anos, tecladista por opção e carrilhonista por acaso, espera ser cumprimentado, ao descer da torre, por algum roqueiro que dirá: "Adorei seus arranjos para essas músicas do David Bowie, Tailking Heads, King Crimsom, Frank Zappa e Brian Eno!"
    Pelo jeito, Marcos é o único carrilhonista pop do planeta.

IMPRÓPRIO PARA MENORES


    Um grupo de donas-de-casa d Washington, intitulado Parents Music Resource Center, está organizando uma campanha a favor da censura por faixa etária para letras de rock que sejam "violentas ou sexualmente explícitas". Para Pam Howar, c beça do PMSC, as jovens que o vem Madonna estão "aprendendo na mais tenra idade, como ser um rainha pornô no cio!"

DAVID BYRNE NÃO MORREU

    Se você é daqueles que estão achando Little Creatures, o novo LP dos Talking Heads, próximo demais do espírito pop ensolarado do Tom Tom Club, não se desespere. O cabeça pensante David Byrne não sofreu uma regressão até os tenros dias da Infância. A prova está em Music for the Knee Plays, o novo disco solo do rapaz, lançado lá fora há cerca de um mês, pelo selo ECM, especialista em jazz de vanguarda. São músicas criadas para os íntervalos/sketches da épica/qui lométrica ópera Civil Wars, de Robert Wilson. A inspiração vem da Dirty Dozen Brass Band, uma tradicional banda de metais e marchinhas de New Orleans. Todas as composições são arranjadas apenas com tubas, trompetes e outras cometas, voz e percussão. Alto teor de genialidade, ininterrupta atividade cerebral, como na letra de In the Future; No futuro será impossível distinguir as garotas dos garotos/mesmo na cama... No futuro toda casa será uma fortaleza/no futuro toda casa será um total centro de diversões/... No futuro haverá uma máquina que produzirá uma experiência religiosa através da música".


O ROCK ROLA EM MG

    Enquanto a Globo se esforça para ressuscitar o espirito dos Festivais da Record, o espirito de Woodstock renasce em Juiz de Fora (MG). O II Festival de Rock da cidade será realizado no fim de semana 24/25 de agosto, com mais de vinte bandas de todo o pais. Entre elas, Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Cólera e Celso Blues Boy. Informações pelos telefones 212-0987 (Juiz de Fora) e 714-4391 (Niterói)

MEGASHOW PARA A ETIÓPIA


    Aconteceu no dia 13 de julho o transatlântico show "Live Aid", uma reunião via satélite dos projetos Band Aid e USA for Africa. Totalizando onze horas de música, foram mais de cinqüenta artistas divididos entre Londres e Filadélfia (EUA). Entre eles: Eric Clapton, Duran Duran, Mick Jagger, Judas Priest, Tears for Fears, Stevie Wonder (Filadélfia), David Bowie, Phil Collins, Dire Straits, Elton John, Paul McCartney, Queen, Rod Stewart, Sting, U2 e Who.
    Organizado pelo idealizador do Band Aid, Bob Geldof (vocalista dos Boomtown Rats e o Pink do filme The Wall), o evento de mão dupla está arrecadando pelo menos dez milhões de dólares para as vítimas da fome na Etiópia. Enquanto isso, a iniciativa de Geldof com o Band Aid - já seguida pelos americanos e por músicos africanos (Tam Tam Pour L ´Ethiopie) -, vai ser colocada em prática por mais duas novas reuniões de músicos. A primeira, no Dompacto "Land of Africa",junta só grupos de reggae como Third Norld e Steel Pulse. A outra aglomera artistas de musicais da BroadNay, como Anthony Quinn e Liza Minelli. BIZZ diz: Prêmio Nobel da Paz para Bob Geldof!

II ABRIMA
    Foi realizada, entre 18 e 23 de junho, em São Paulo, a II Abrima -Feira Nacional de Brinquedos e Instrumentos Musicais. Músicos presentes, como Luiz Schiavon (RPM), tiraram consenso para destacar o TX-70, novo teclado da Gambit, e as baterias eletrônicas recém-lançadas pela Pitch (estes destaques da Feira são comentados em nossa seção Equipamento, pág. 62).Nas guitarras uma constatação. Se houve um considerável avanço tecnológico na indústria nacional d instrumentos musicais, o design ainda deixa muito a desejar. Alguma das tais guitarras pareciam mais pistolas a laser de uma ficção científica paraguaia.



SÃO PAULO, A BANDA

    Eles estrearam no começo do ano passado, com um show no Teatro Lira Paulistana, e desde então vêm espalhando sua proposta de dar um tratamento contemporâneo e eletrônico a ritmos do folclore latino-americano. Para Tadeu Passarelli (guitarra, craviola, xilofone, vocal) são estes os "ritmos do futuro, um filão que ainda não foi tocado".

INVERNO EM BRASA

    O frio pode estar de lascar os ossos, mas a noite paulistana vive um momento dos mais quentes. Primeiro, abriram novas casas para a apresentação de bandas emergentes - ou seja, Lira Paulistana e Madame Satã não estão mais sozinhas. Você pode ir também ao Incubus Sucubus, Via Berlim, Coliseum e Anny 44. Em segundo lugar, essa abertura coincide com Uma nova geração de grupos. Enquanto veteranos (já?) como RPM, Ira!, Titãs e Metrô lançavam seus álbuns de estréia com shows de infra-estrutura profissional (todos na Pool Music Hall), despontava nos porões acima uma nova safra, Vamos aos nomes: Akira 5, Muzak, 25 Segundos Depois, Voga, Fixpá, Reprise, Disciplina e Dum Dum Boys. Além disso, retornam com nova formação bandas que já têm uma história no circuito subterrâneo da metrópole. É o caso dos Voluntários da Pátria (troca de vocalista, baixista e baterista), das Mercenárias (nova baterista) e do Smack (reduzido a um trio desde que o guitarrista Edgard optou por ser exclusivo do Ira!). Outro acontecimento foi o primeiro show solo do tecladista/vocalista Kodiak Bachine, Ex Agentes, com projeções de pinturas renascentistas, super-heróis e nebulosas de ambientação cênica.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bizz número zero - Visual - Cinema/Vídeo/Clip

CINEMA
DUNA

    Se você acha que o cinema dificilmente iria realizar proezas maiores e mais sofisticadas do que aquelas que viu em 2001: Uma Odisséia no Espaço, ou mais recentemente em obras como Guerra nas Estrelas, espere para ver a parafernália que o diretor David Lynch e seus colaboradores colocaram em Duna.
    O filme está sendo aguardado como uma das grandes promessas desta temporada cinematográfica, e deve estar nas telas ainda este mês com as chances de ser um novo sucesso de público e crítica. De público é praticamente certo, levando-se em conta a carga publicitária que, inevitavelmente, fará a cabeça do espectador, Mas milhões de dólares em publicidade nem sempre resolvem. Depende da qualidade.
    No caso de Duna, ao menos o fator literário, ou de ficção científica, está garantido. Afinal, a novela de Frank Herbert já vendeu mais de 12 milhões de exemplares desde seu lançamento, em 1965. E como o cinema sempre está de olho nos best sellers, inevitavelmente Duna acabaria nas telas com sua história interplanetária, sua filosofia, seu arcabouço de efeitos especiais, sua grande e caprichada produção, a presença do grupo Police através de seu líder, Sting, e a necessidade de se resolver certos problemas através da criatividade dos desenhistas de produção.

    Nova humanidade
    Os críticos afirmam que Duna é um caso a parte na ficção científica. Consideram que, no gênero, certos autores criam personagens memoráveis, citando, por exemplo, o computador Hal 9000, de 2001, o capitão Nemo de Vinte Mil Léguas Submarinas, de ,Julio Verne, as criaturas de George Orwell e Aldous Huxley, ou as de Ray Bradbury, Asimov, Heinem. Mas acham que Herbert, em vez de falar sobre os cientistas, criou uma história sobre a nova humanidade, aquela daqui a dez mil anos, quando a capacidade não é medida em termos de kilobytes de computadores e sim pelo poder de raciocínio dos humanos.
    E dizem mais: que Frank Herbert, com a série Duna, não apenas construiu um épico, nos modelos de uma Odisséia ou de uma Guerra nas Estrelas. Inventou uma sociedade que, a seu modo, recapitula a História.

    Rejeição inicial
    O mais engraçado é que esse best seller foi, inicialmente, rejeitado pelos editores americanos. Ninguém acreditava no seu sucesso. Herbert correu atrás de nada menos do que 22 editoras com o manuscrito que havia publicado em série na revista Analog, e acabou sendo obrigado a se satisfazer com uma edição minguada, de 2 mil cópias, publicada por uma casa muito mais especializada em consertos de automóveis. Depois, um editor de ficção científica descobriu o livro e lançou uma edição de bolso. Herbert recebeu 2 mil e 500 dólares pelas duas. Hoje fatura 500 mil dólares por ano.
    E a trajetória de Duna começou aí, modestamente, sem que ninguém, nem o próprio autor, pudesse imaginar quais seriam os rumos que a obra tomaria. Só o primeiro volume, com mais de 700 páginas, traduzido para 14 idiomas, dá o retrato do retorno que o autor deve estar tendo, em termos de dólares, sem contar o que terá daqui pra frente com os outros volumes de sua saga.
    Ele, afinal, continua escrevendo sobre Duna, E diz que há, no mínimo, 15 milhões de leitores que acharam o primeiro livro muito interessante. "Eu estou conversando com eles sobre como examinar todas essas premissas sobre as quais estruturamos nossos Governos e as nossas idéias de liderança."

    Drogas e ecologia
    Filosofia futurista é o que menos falta ao filme, que derrotou a capacidade imaginativa de uma série de roteiristas mas acabou virando filme. Com um orçamento de 40 milhões de dólares, um dos cinco mais caros de toda a história de Hollywood, Duna caiu nas mãos de David Lynch, o mesmo de O Homem Elefante, depois de ter passado por outros cineastas que se recusaram, por incompetência ou por falta de recursos, a tentar a ousadia de transformar em cinema um texto onde é, segundo os críticos literários, perfeita a comunhão entre a ficção e a política, a filosofia e a aventura.
    Os espectadores depois do primeiro Duna, podem esperar por uma série de seqüências, daquelas que Hollywood gosta de criar. Nesta primeira história está a apresentação de personagens e situações.
    Apareceu nos anos 60, quando os especialistas começaram a discutir a verdadeira importância da ecologia num universo que se via, gradativamente, destruído em sua fauna, flora e vida marítima, ou discutia drogas e misticismo, religião e sociedade. O herói principal é Paul Atreides, que se bate pela destruição da sociedade computadorizada para fazer valer a supremacia da mente, isso tudo num universo que Herbert criou baseando-se no feudalismo, cheio de maquinações políticas.
 

    Valores e efeitos
    Duna acabou virando filme pelo interesse de Raffaella De Laurentiis, a filha do produtor Dino De Laurentiis, um desses big shots de primeira linha. Ela ficou entusiasmada pela primeira novela de Herbert e convenceu o pai a produzir uma versão deste primeiro livro sobre Duna, o planeta, e os seres que tentam coabitar nele. Inicialmente, De Laurentiis tentou convencer o diretor Rídley Scott, o mesmo de Blade Runner, a fazer o filme. Ele rejeitou. Tentou David Lynch e teve sorte. Ele aceitou a proposta e, entre maio de 1981 e dezembro de 1982, passou escrevendo um roteiro que pudesse ser filmado, resumindo o texto de Frank Herbert sem esquecer os seus valores básicos. Foram necessários 4 mil figurinos diferentes, 75 estúdios de filmagens, a maioria deles contratados no México, nos estúdios Churubusco Azteca, onde Cantinflas sempre fez suas comédias; modelos de roupas criados especialmente por Carlo Rambaldi, miniaturas de diversos tipos, equipamentos eletrônicos, efeitos especiais estudados detalhadamente e um elenco formado por Kyle MacLachlan, o mocinho Paul Atreides, mais Francesca Annis, Jurgen Prochnow, Max Von Sydow, José Ferrer, Sting, Sian Phillips, Sean Young e Linda Hunt, incluindo-se, aí, uma participação de Aldo Ray, aquele ator que algumas gerações viram em dezenas de filmes de guerra, e de Silvana Mangano, a célebre atriz italiana, no papel da reverenda Mãe Ramallo.
    Duna é o planeta Arrakis, deserto, onde mãe Ramallo fala aos seus súditos sobre a chegada de "alguém" que virá trazendo a "Guerra Sagrada" para "limpar o Universo" e livrar o povo da escuridão. E então começa essa história misteriosa, simbólica, com conotações bíblicas e religiosas e com o anunciado, Paul, como um Cristo intergalático que vem ao mundo para salvar, perdoar e ser também um instrumento dos poderosos.

    Narcótico-especiaria
    Frank Herbert já escreveu sete volumes sobre o planeta Duna e seus personagens. E ainda não se cansou. Acha que, cada vez mais, é preciso reavaliar a História. No primeiro livro, este que David Lynch filmou, a questão está relacionada a como produzir Messias. O cenário é um planeta habitado por caracteres sinistros, invadidos por política e religião, e, no centro de tudo, o lugar inóspito habitado por lagartas gigantes, com 250 metros de comprimento, e a tribo selvagem dos "Fremen", onde está a fonte da juventude, mistura de narcótico e especiaria que chamam de "melange", que prolonga a vida e também tem o poder de conceder conhecimentos ,científicos aos que o consomem. E provável que, diante de teses e filosofias, o espectador tenha diante de si um enigma maior do que o de 2001 com seu monolito negro difícil de desvendar. E é isso que, segundo dizem, atrai em Duna. Curiosamente, Dino De Laurentiis foi buscar apoio em nomes conhecidos: o desenhista de produção é Anthony Masters, que foi diretor de arte em 2001; o criador dos efeitos especiais é o mesmo Albert Whitlock de Terremoto, e Carlo Rambaldi se encarregou de desenhar as criaturas especiais, com a experiência de E.T. e da refilmagem de King Kong.
    O segundo livro de Frank Herbert, "O Messias de Duna", foi lançado recentemente no Brasil. Apareceu em 1969 nos Estados Unidos, dando seqüência à odisséia de seus vários e intrigantes personagens. Vilões e heróis de um mundo futurista, carregado dos mesmos vícios, obsessões, pecados, egoísmo e angústias que vivemos hoje no nosso mundo. Afinal, pelo que nos conta Frank Herbert, daqui a 10 mil anos pouca coisa vai fazer do ser humano um novo homem.
VÍDEOS

    FICÇÃO
    FLASH GORDON NO PLANETA MONGO (Perils front the Planet Mongo, 1936)
    Direção: Frederick Stephani. Com Buster Crubbe, Jean Bogers e Charles Middleton. Legendado.
    Flash (Crabbe) e sua deliciosa namorada Dale Arden (Jean Rogers, urna precursora da minissaia, impedem que o maquiavélico imperador Ming (Middleton destrua a Terra. Mais um dos filmes que saíram da criação genial em quadrinhos de Alex Ravrnond, Divertido futurismo em cenários baratos, se comparados aos incríveis efeitos especiais de hoje.

    UNIVERSO EM FANTASIA (heavy Metal, 1981)
    Direção: Gerald Potterton, Desenho animado. Legendado.
    Para quem curte quadrinhos, o estilo predominante na revista Heavy Metal (espaço, lances freaks e toques de neopsicodelismo), Diversos episódios.

    BLADE RUNNER (O Caçador de Andróides, 1982)
    Direção: Ridley Scott. Com Harrison Ford, Sean Young, Daryl Hanna. Original.
    Mesmo sem legendas, vale (e muito) pelo incrível impacto visual. Numa Los Angeles do futuro envolta na poluição e permeada pela cultura oriental, Harrison Ford é um policial com licença para matar andróides que se rebelaram contra o sistema. A trilha sonora de Vangelis contribui para tornar Blade Runner um dos mais belos filmes dos últimos anos.

    CONAN, O BÁRBARO (Conan, The Burbarian, 1981)
    Direção: John Millus. Com Arnold Schwarzenegger. Tumes Earl Jones. Legendado.
    Conan, um personagem de quadrinhos, vive na pré-história. Seus pais foram mortos quando ele era criança. E sua missão na vida é a vingança. O assassino dos pais é Thulsa Doam, líder de um grupo religioso que cultua a magia.

    TROVÃO AZUL (Blue Thunder, 1983)
    Direção: John Badham, Com Boy Scheider (2010) e Malcolm McDowell (If). Legendado.
    Alta tecnologia no combate ao crime. Um super-helicóptero, dotado de computadores e raios laser, ajuda a caçar bandidos em Los Angeles. Ação, efeitos especiais e bom ritmo. Acabou virando um seriado na tevê.

    MUSICAL
    THE PUNK ROCK MOVIE (1981)
    Diretor: Don Letts. Com Johnny Rotten e os Sex Pistols, The Clash, X-Ray Specs e outros. Original.
    As origens do movimento punk em Londres com as bandas que o inventaram e ajudaram a revolucionar a música pop: Johnny Rolten (agora john Lydon, com a banda Public Image Limited) e X-Rav Specs (com a cantora Poly Styrene), além do Clash, valem uma sessão muito atenta.

    THE POLICE AROUND THE WORLD (1982)
    Diretor: Kate e Derek Burbid ge. Com agrupo The Police. Original.
    Alguns momentos arrastados mas mesmo assim um excelent documentário de uma longa excursão do Police em 80 e 81. Belas imagens, inclusive as do grupo nas areias de uma praia caio ca e no bondinho. Mas ao contrário dos outros países, não há imagens do show no Rio. Embora ótimo, foi pessimamente divulgado reunindo apenas três mil pessoa: no Maracanãzinho.

    DRAMA
    O FUNDO DO CORAÇÃO (One From the Heart, 1982)
    Direção: Francis Coppola. Com Terri Garr, Frederick Forest, Raul Julia, Nastassia Kinski, Legendado.
    Malhado por crítica e público à época de seu lançamento, o filme de Coppola que custou 40 milhões de dólares e levou dois anos para ser feito começa a virar verdadeiro culto em vídeo. Primeiro filme a ser editado em vídeo. Um visual belíssimo e uma careta - porém verossímil - história de amor. Do fundo do coração.

    APENAS UM GIGOLÔ (Just a Gigolo, 1979)
    Diretor: David Hemmings, Com David Bowie, Sidne fome, Marlene Díetrich, David Hemmings. Legendado.
    O charmoso e super cool Bowie como Paul, um gigolô de mulheres ricas. O pano de fundo é a decadente Berlim na época da ascensão do nazismo. O diretor, Hemmings, é o fotógrafo de Blow-Up.

    COMÉDIA
    CLUBE DOS CAFAJESTES (Animal House, 1978)
    Diretor: John Landis (de Os Irmãos Cara-de-Pau e Um Lobisomem Americano em Londres). Com John Belushi e Donald Sutherland. Legendado.
    Belushi, um dos melhores comediantes desta segunda metade de século (morto no ano passado com uma overdose de heroína), lidera um bando de malucos numa sátira à vida americana nos campus universitários da década de 60.

    O JOVEM FRANKENSTEIN (Young Frankenstein, 1974)
    Direção: Mel Brooks. Com Gene Wilder. Martv Feldman, Modeline Khan. Legendado.
    Verdadeiramente hilário. Frederick Frankenstein (Wilde) é um neurocirugião que volta ao castelo de seu avô, na sinistra Transilvânia, e resolve, a partir de velhas anotações, fabricar um homem com pedaços de cadáveres. Cenários e cenas lembrando os filmes de horror de antigamente.

    O INCRÍVEL EXERCITO BRANCALEONE (LArmata, 1965)
    Direção: Maria Monicelli, Com Vitorio Gassman, Catherine Spaak. Legendado.
    O percurso quase surrealista de uma das facções que, na Idade Média, pretendia chegar em cruzada até Jerusalém. Um grupo de alucinados e desequilibrados é comandado pelo galante e boçal Brancaleone (Gassman), uma espécie de Dom Quixote medieval e italiano.

    POLICIAL
    A FORÇA DE UM AMOR (Breathless, 1983)
    Direção: Jim Mcfride. Com Richard Gere e Valerie Kaprisky. Legendado.
    Richard Gere, transpirando energia e inquietação, é um ladrão de canas que se apaixona por uma universitária francesa de classe média, numa versão americana de O Acossado ,de Godard. Retrato perturbador de um personagem (Gere) que jogava com a vida até suas últimas conseqüências.

    O AMIGO AMERICANO (The American Friend, 1977)
    Direção: Wim Wenders. Com Bruno Gunz, Dennis Hopper, Li-20 Kreuzer. Legendado.
    Aclamado como a maior figura do novo cinema alemão, Wenders mostra no filme a vida de um pacato restaurador de quadros ser sacudida por uma proposta insólita - a de matar uma pessoa no metrô de Paris.

    Levantamento feito a partir dos videoclubes Videoclube do Brasil, Audio, Omni Video e Videoland (SP) e Videoclube Nacional, Videoplay e Videoclube do Brasil (Rio).

 
OLHAR ELETRÔNICO A NOVA TV

    Ao sucesso! O aloprado disc-jockey Bob MacJack (foto central) dá o tom de Crig-Rá, o programa que está colocando a produtora paulista em cadeia nacional. Nesta entrevista a Sófia Maia, Marcelo Machado (foto acima) dá todos os antecedentes e coordenadas da turma responsável pelo que há de novo no ar.

    Uma câmera na mão e muitas idéias na cabeça. Foi assim que, em março de 82, três irriquietas figuras fundavam a produtora independente Olhar Eletrônico. Os só dos proprietários Fernando Melretles, Paulo Morelli e Marcelo Machado compraram uma câmera profissional, arrumaram uma grana (modesta) e foram para a rua, acompanhados de uma equipe de quatro pessoas.
    De lá para cá, a Olhar Eletrônico conseguiu prêmios em dois festivais de vídeo, criou a personagem hilária e irreverente do repórter Ernesto Varela (vivida pelo ator Marcelo Tas) e estabeleceu uma nova linguagem nos vídeos do Brasil.
    Esta nova linguagem, rápida, bem-humorada, alinhavada por vinhetas e balões emprestados da linguagem dos quadrinhos, conseguiu jogar no vídeo justamente o que a moçada não estava vendo na televisão. Um visual recheado de rock, de uma forma de jornalismo que junta o fato ao pique freak dos clips e de um cotidiano escamoteado pelas grandes redes de televisão. A linguagem do programa Crig-Rá (o grito de guerra de Tarzã, o rei dos macacos).
    "Havia outros nomes, como Tesouros da Juventude, ou Freqüência Modulada, conta Marcelo Machado. Mas existia uma identificação do pessoal da Olhar com os quadrinhos. E a necessidade de um nome com impacto forte e fácil de memorizar. Aí, um dia, alguém gritou Crig-Rá! E a macacada adorou!"
    O caminho para se chegar ao Crig-Rá não foi fácil. A Olhar fez quase de tudo. As primeiras e pequenas produções fizeram o passeio ritual e inevitável pelo chamado circuito cultural de São Paulo e de outras capitais - museus, saías de vídeo, lugares de encontro de uma turma que, se gratifica pela atenção dispensada, não colabora muito no lado do necessário retorno financeiro.
    O quase de tudo exclui a encomenda de um trabalho para uma indústria bélica. A Olhar teria de documentar o funcionamento de um lança-chamas. "Aí também já era demais, diz Machado, que alegou para a recusa uma questão de princípio. Mesmo com a recusa, o restante dos trabalhos permitiu à Olhar ter dinheiro para contratar pessoal e se profissionalizar.

    Mistura de linguagens
    Ao se unir, o grupo procurava uma fusão de suas experiências anteriores, um encontro de música, desenho, cinema, vídeo e literatura. A televisão permitia maior penetração, pegando não só o jovem mas diversas camadas etárias e sociais. E o cinema estava fora do alcance dos bolsos da turma da Olhar.
    É claro que os primeiros trabalhos, como Garotos do Subúrbio e Eletroagentes, estavam carregados do que a TV convencional chamaria vícios, e que a Olhar chamou de defeitos especiais". Em Eletroagentes, por exemplo, precisavam de um cometa na tela. O cometa foi representado por dois faróis acesos em frente à câmera numa estrada escura. Só que, normalmente, não se filma pontos de luz muito fortes assim de frente. Eles produzem riscos ondulados no vídeo, considerados tecnicamente como erros.
    Em Garotos do Subúrbio usaram o que chamam de corte sem remendo", Explica Machado: Sempre que se faz uma reportagem, é comum, se você cortar a imagem do entrevistado no meio da tala, colocar outra imagem no meio, um insert. Isso para não dar pulos na imagem ou na fala". Mas no final de Garotos a Olhar deixou as falas com pulo, "o que deu ritmo às imagens e ao som". Eletroagentes foi uma co-produção com Alfredo Fritz e falava sobre Itaipu. Garotos é um documentário sobre os punks paulistas.
    Já acostumada com o pique, a turma do Olhar partiu para o trabalho direto. Mesmo nos fins de semana. Chato era quando chegava com os trabalhos nas emissoras de televisão. Todo mundo gostava. A resposta, porém, era invariável: Vocês estão loucos! Não dá para pôr isto no ar!" As reações serviram para mostrar aos novos profissionais da Olhar que estavam entrando na coisa de forma ingênua, num estilo meio assim de olhar para os próprios umbigos. "As pessoas não estão interessadas em comprar as coisas que a gente mais gosta de fazer", concluiu Marcelo Machado. Era necessário um esforço comercial "numa boa".
    A Olhar inscreveu toda sua produção no primeiro e segundo festivais de vídeo do Museu da Imagem e do Som/Fotoptica, realizados em São Paulo em agosto de 83 e junho de 84. E levou primeiro lugar nos dois anos seguidos, um deles em regime de co-produção. Em 83, com Marli Normal, o cotidiano de uma jovem classe média. E em 1984 com Eletricidade (co-produção, mais uma vez com Fritz), um clip com a música do tecladista high-tech Kodiak Bachine, do extinto grupo Agentes. O clip usou até, em seus efeitos, os recursos do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.

    Padrão Japão
    Os prêmios abriram as portas. A Olhar foi a campo, com Goulart de Andrade - que também estava atrás de uma fórmula para a nova reportagem na TV Gazeta, Com a ida de Goulart para a Record, a Olhar mudou-se para a Abril Vídeo. Onde até hoje permanece, com sucesso. Com Crig-Rá. Um programa baseado em um personagem central, Bob MacJack, outro tipo vivido por Marcelo Tas. MacJack, no vídeo, é um assombro. Roupinha super niu uêive, óculos escuros, a pele lambuzada de óleo brilhando para as câmaras. O homem-âncora MacJack é uma reunião dos estereótipos que estão aí. A comida plástica de cada dia, a rapidez da metrópole, o consumo acelerado da produção artística -, em especial a música, hoje descartável.
    O patético MacJack fala em FM. Quer chegar a um público composto de adolescentes, de 13 a 25 anos. E o programa adota um visual próximo do japonês: "A diagramação das revistas japonesas não tem muita limpeza, tem um acúmulo de informações, muita imagem, choque. O padrão Japão é muito avançado. E a união Oriente/Ocidente dá um equilíbrio maior, uma interação universal". Recheando tudo, videoclips. E as reportagens de Sandrinha, 16 anos.
    O retorno de Crig-Rá, há cinco meses no ar, é compensador. Um lbope que já chegou aos quatro pontos na Abril Vídeo (cidade de São Paulo). Cartas apaixonadas. Um público que, mesmo relativamente pequeno, é ligado e participativo, E um investimento profissional que leva a gente a acreditar - ainda bem - na vitória de um jeito novo de fazer TV.

    Onde mesmo?
    O Crig-Rá pode ser visto em São Paulo (capital) pela TV Gazeta, canal 11, aos domingos, 19h30. No Rio, aos sábados, 21h, pela Record, canal 9. Em Santa Catarina, também aos sábados, às 21h, pela TV Basrriga Verde, canal 9. E, finalmente, em Porto Alegre, pela TV Guaíba, canal 2, aos domingos, 19h30. O programa deverá estar aparecendo logo em Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Manaus. Fiquem antenados.

CLIP
LEGIÃO URBANA

    O grupo brasiliense veio até São Paulo para fazer, com a turma do Olhar Eletrônico, seu primeiro clip. Simples e despojado, como manda o som da banda: externas na noite metropolitana e tomadas em ação no Rose Bom Bom (onde deram o show). De câmera na mão, Virgínia Fonseca acompanhou a filmagem e a edição.

    Tire suas mãos de mim
    Eu não pertenço a você
    Não é me dominando assim
    Que você vai me entender

    Será que nada vai acontecer
    Será que é tudo isso em vão
    Será que vamos conseguir vencer

    Brigar pra quê
    Se é sem querer
    Quem é que vai nos proteger
    Será que vamos ter que responder
    Pelos erros a mais
    Eu e você