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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Bizz número 2 - Showbizz I

 
CAZUZA E DULCE ESTÃO FREE

    O Barão Vermelho não é o mesmo. Surpreendendo os demais integrantes do grupo, Cazuza anunciou sua partida para a carreira solo - justamente às vésperas da entrada em estúdio para a gravação do quarto LP do Barão. Mas o grupo, até segunda ordem, não irá procurar substituto para o cantor: eles decidiram repartir os vocais principais.
    "Para nós foi uma surpresa total", disse o guitarrista Roberto Frejat. "Mas há dois meses nós e o Cazuza brigamos. Ele dizia que não estava satisfeito, então dissemos que ele deveria sair. Ele resolveu ficar. O grupo estava passando por uma reformulação do seu som e este novo disco seria a primeira amostra - desta vez, ao invés de continuar a predominância da parceria Cazuza -Frejat, cada um do grupo participaria com músicas e arranjos. O Guto, baterista, já tinha até escrito uma letra".
    "Na verdade", continua Frejat, "nós já imaginávamos que isso pudesse acontecer. Só não esperávamos que fosse tão cedo". Por mais que o Barão já viesse se estruturando de uma forma mais democrática, é claro que a saída de Cazuza cau-sará alguns problemas. "Com a saída do nosso letrista oficial", diz Frejat, "vamos ter que tomar cuidado para as letras não perderem a quali-dade - nossa característica" sempre foi termos letras excelentes. Mas o Guto está crescendo como letrista e acho que vai correr bem".
    O quarto álbum do Barão foi adiado e provavelmente sairá em 86. Cazuza, de cama por causa de uma violenta mononucleose, não pôde falar sobre sua saída do grupo, mas sabe-se que ele já está preparando o material para seu primeiro disco individual.
    Aproveitando o embalo, vale lembrar que, duas semanas após o racha no Barão, a vocalista Dulce deixou o Sempre Livre. Por enquanto, nenhum plano além de uma carreira... free.

A PERDA DE CAÍTO

    Carlos Alceu Camargo, o Caíto 29 anos, advogado e agitador cultural, foi figura de proa do under-ground musical paulistano. E, graças à sua modéstia, uma das menos badaladas. O rock e a música negra o encantaram aos 8 anos de idade. De lá veio, encantado, escrevendo para revistas, produzindo para rádio, descobrindo, empresariando e incentivando bandas tomo Ira!, Mercenárias, Muzak e Akira S e as Garotas que Erraram. Um estranho manager, que devorava discos, fitas e shows, cobrando sua parte em música, nunca em dinheiro. Estudava a implantação de um escritório de apoio às bandas inéditas e às do selo Baratos Afins. Preparava-se para tocar sax com o Akira S. No dia 11 de junho lançou seu novo programa na rádio USP, o Novo Testamento, com uma festa-show. De volta para casa, na madrugada, teve um acesso de bronquite e uma parada cardíaca. Entre os muitos órfãos, ainda que sem filhos, deixa o carinho por aquele que foi como veio, puro.

ALELUIA, ALELUIA

    Rumores, boatos e cochicos dão como quase irreversível o lançamento aqui no Brasil, em outubro, dos três LPs dos Smiths de uma enfiada só. A gravadora responsável - a WEA - daria inclusive, seqüência à empreitada com um pacote de doze LPs de independentes Ingleses, que seria lançado no início de 86. Entre eles,Anne Pigalle, Damned e Everthing but the Girl.
    Por falar nos Smiths, o grupo continua com a bola toda, sem perspectivas de murchar. Na eleição dos melhores do ano por leitores do Melody Maker, levaram o troféu de melhor banda, Morrisey foi o mais bem vestido, segundo melhor vocalista e segundo o  cara mais legal (o primeiro foi Bob Geldof, claro). O guitarrista Johnny Marr foi eleito ainda melhor instrumentista. Somando esses resultados com a votação do New Musical Express (principal concorrente do MM), publicada em fevereiro, o resultado é um verdadeiro banho nos grupos que se revezaram nos vários segundos e terceiros lugares: U2 e Eccho & the Bunnymen.

DEAD KENNEDYS VEM AÍ

    Se tudo der certo, em janeiro. Os "Kennedys mortos" estão entre as principais bandas do hardcore, o nu e cru punk californiano.E seu vocalista Jello Biafra - que já foi candidato à prefeitura San Francisco - já se corresponde há um tempão com a tribo punk paulistana. Segundo os responsáveis pela visita, o selo inpendente Ataque Frontal, só falta mesmo acertar o cachê - o que não deve ser difícil, considerando-se que os Kennedys estão "loucos para tocar aqui".
 
NINA APORTA DE DISCO VOADOR

    Acompanhada de sua super banda, treze toneladas em equipamentos e até um disco voador, Nina Hagen desembarca nestas terras no dia 11 de setembro para nada menos que dezesseis apresentações em todo Brasil.
    A tour vem em hora apropriada, já que a CBS acaba de lançar aqui seu novo LP In Ekstasy. E é ele que dará o tom no repertório dos shows, temperados, ainda, com antigas composições. O espetáculo não dispensará nem a performance de dois homens cosmicamente estilizados, que sairão em vôo do OVNI, peça central para ambientação do palco.
    Os responsáveis são os irmãos Sandro e André Luís Sameli e seu sócio em Los Angeles, Jimmy Martins, os mesmos que a raptaram do Rock in Rio para a danceteria paulista Latitude 3001 em janeiro passado.
    A primeira apresentação será em São Paulo, no Ginásio do Ibirapuera, com preços previstos entre três e cinco dólares. A partir dai, outros estados brasileiros e América Latina.

STONES NO ESTÚDIO (E MUITO MAIS...)

    É isso aí. Encerrado seu rodopio solo, Mick Jagger está reunido com seus colegas de trabalho e o compositor Steve Lilywhite (U 2, Simple Minds) em Nova York, finalizando o sucessor a Undercover (83). O lançamento mundial do novo LP (Brasil, inclusive) está previsto para dezembro. Vale lembrar ainda que Keith Richard participa do novo LP da bombástica funkeir a Nona Hendryx.
    Mais movimentação de estúdio lá fora. Previsto para início de 86, o Yes vem com um disco produzido pelo infatigável Nile Rodgers. Outro retorno de peso: depois de três anos longe do estúdio, os Dexy´s Midnight lançam seu terceiro LP, Don´t Stand Me Down. Ainda: o ecumênico Afrika Bambaataa - depois de dois históricos compactos, com James Brown, outro com o ex-sex pistol John Lydon - vai gravar com Bob Dylan. A dupla aparece ainda, com Dylan na gaita, no LP da maior seção rítmica da Jamaica, quiça da Galáxia. Estamos falando de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, claro eles já tocaram aqui com Peter Tosh). Outras participações este lares: Herbie Hancock e o supersaxofonista africano Manu Dibango. Atenção, gravadoras: o LP é do selo Island.

OUÇA ESSA

    Provável título do próximo LP de Lobão e seus Ronaldos: Saudades da Ditadura ou Até aí Morreu Neves.

ROTH DESPEDIDO DO VAN HALEN

    Se você esperava a volta do Van Halen para qualquer momento, pode sentar. E continuar esperando.
    Eddle Van Halen garantiu à revista Rolling Stone que a banda,"do jeito que todos a conheciam até agora", acabou. "Dave se mandou para virar astro de cinema", vociferou Eddie "e ainda teve peito de me pedir que escrevesse trilhas.sonoras para o filmes dele! Pouco me importa o que ele diga - já estou procurando outro cantor para substituí-lo. Além do mais, Dave não seria capaz de cantar muitas músicas novas que compus - ele só consegue se dar bem gritando nas músicas. Se ele não consegue gritar, está frito!"

A GENTE SOMOS AMIGOS

    O Ultraje a Rigor já confirmou sua participação na música "Sokobaya" do segundo LP da Esquadrilha da Fumaça, que sai em outubro pela Baratos Afins. Além disso, Roger e cia. estão tocando "Louras Geladas" em seus shows, enquanto o RPM faz o mesmo com "Ciúme". Eles estão, inclusive, fazendo seus shows em teatro, com direção por conta do seco, molhado e emplumado Ney Matogrosso. E dando seqüência à série "Parcerias Ilimitadas", Branco (Titãs) e Lobão estão compondo juntos.

 
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Bizz número 1 - Como? Você nunca ouviu falar do The Smiths?

 
COMO? VOCÊ NUNCA OUVIU FALAR DOS SMITHS?

    A primeira pista veio fia primavera de 83, numa dessas livrarias que vendem revistas importadas. A Rolling Stone abria várias páginas e fotos para um apanhado das bandas inglesas que brotavam sobre as cinzas da velha wave. O quente então eram os grupos batizados como "positive punk" e alardeados como a "próxima onda". Nem dei bola para esses Smiths, cujo vocalista/letrista Morrissey afirmava "ter vindo salvar a música pop, que estava um lixo".
    Declarações desse calibre já perderam a graça. Além disso, faz parte da música pop ser essencialmente um lixo. Mas, uns seis meses depois, seria impossível ignorar que a Inglaterra estava varrida pelos Smiths, como a mais contagiosa das pestes. Quanto à onda de punk "positivo", restavam os tenebrosos Sisters of Mercy.
    Bastaram três compactos pelo selo independente Rough Trade - na ordem, "This Charming Man", "Hand In Glove" e "What Difference Does It Make?". Quando saiu finalmente o LP, em fevereiro de 84 (direto para o segundo lugar das paradas), público e crítica se misturavam numa rara e reverente confraternização. "Existe pouco lugar neste álbum para o que não seja a perfeição", dizia o semanário Melody Maker.
    Qual o segredo? A primeira escutada, o sucesso parece desmedido. Prevalece a estranheza provocada pelo vocal de Morrissey - ora um barítono cheio de rodeios, ora um falsete desesperado - e pelo inabalável senso comum com que a banda traduz a predileção pelo lugar comum (daí o nome Smíths, equivalente a "Os Silva").
    A hipnose é lenta e insidiosa. Quando você percebe, já é tarde demais. O que antes parecia um pop retrô. puro anos 60, eletrocuta o cérebro como uma revelação. As melodias são levadas sempre por delicados dedilhados do guitarrista Johnny Marr (autor de todas as músicas).
    Sobre essa doçura, vem o golpe fatal das letras de Morrissey. Oscilam entre o mais exaltado lirismo e a mais mórbida apatia, invadidos por todos os poros de uma sensualidade pesada e ambígua. Para os céticos, não passam de fricotes literários homossexualóides, coisas de um rapaz que passou a adolescência lendo Oscar Wilde e contemplando posters de James Dean. Mas Morrissey, que se diz celibatário ("no sexo, as fantasias são sempre melhores que a realidade"), é avesso ao rótulo, frágil demais para o poder de alcance das letras.
    Os céticos fechariam o bico com a obra-prima, ainda por vir no lado B do compacto "William, It Was Really Nothing". Movida por uma circular pulsação guitarreira, ´How Soon Is Now" já derruba qualquer preconceito antes de entrarem os primeiros versos:
    A música acabou entrando em Hatful of Hollow. o segundo LP, uma reunião de todos os compactos lançados após o primeiro, mais algumas faixas repetidas em regravações para programas de rádio. Em fevereiro deste ano, "How Soon Is Now" volta a ser lançada em compacto - desta vez no lado A -, coincidentemente com Meat Is Murder, o terceiro LP. Como a canção é escolhida pela Warner para estourar a banda nos EUA, integra também a edição americana do disco. E vira um clip, para desgosto de Morrissey e banda.
    Hora da questão crucial: por que os Smiths ainda não foram lançados aqui? Algumas rádios, como a Antena Um e a Transamérica em SP e a Fluminense e a Estácio no Rio, já tocam. Talvez seja só uma questão de tempo: a WEA já iniciou os contatos. Depende mais de Rough Trade do que da sua representante nos EUA, a matriz da gravadora "brasileira".