terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bizz número zero - Ao vivo (The Firm)

THE FIRM

    Madison Square Garden, N. Y,, 29/4/1985. Platéia lotada. Muitas pessoas vestem camisetas desbotadas com os dizeres "Led Zeppelin 1980 Foi o último ano em que a legendária banda se apresentou.
    Cinco anos de espera para ver a reaparição do guitarrista Jimmy Page. Colocado, no palco, ao lado de outro monstro sagrado, o vocalista Paul Rodgers, ex-Bad Company e ex-Free. Essa é a linha de frente do The Firm, que tem ainda no baixo  Tony Franklin e na bateria Chris Slade (da Earth Band de Manfred Mann, do Uriah Heep e acompanhante de David Gilmour, ex-Pink Floyd, em suas excursões solo).
    A história da formação da banda já tem dois anos. Em 1983. Page e Rodgers apresentaram-se juntos nu- O ma série de concertos beneficentes que levantavam recursos para Ronnie Lane, ex-Faces, e outros portadores de esclerose múltipla.
    Voltando ao show Page e Rodgers ensaiaram apenas quatro semanas. Levantaram a maior expectativa Mas muita gente saiu frustrada. Como no disco, o show pouco teve a ver com o brilho, a espontaneidade e a garra do Led. Page ainda é capaz de momentos de mágica, como em Someone to Love ou Together, onde os solos soam como um poderoso eco do tempo em que ele era aquela figura toda.
    The Firm parece ter até um problema de repertório. Um problema que teria levado a banda a incluir no LP e no show a veneranda Youve Lost that Lovin Feelin, dos Righteous .1 Brothers. E, o que é curioso os nostálgicos do Led Zeppelin, que ouviram os discos gravados pela banda entre 1968 e 1979, fizeram um contraste com o público mais jovem parte do qual só tinha de Page referências históricas. Os mais velhos esperavam mais. Saíram meio down. Os mais novos eram mais entusiasmados. Com os solos de Page, com o     vozeirão de Rodgers ou com o solo de Tony Franklin em Midnight Moonlight, onde aparece clara a influência de Jaco Pastorius, ex-baixista do Weather Report.
    Esta renovação de público é um bom sinal. Músicos como Page e Rodgers andam fazendo falta. Para conquistar o público novo, só é necessário que The Firm passe de uma fase aparente de esquentamento para brilhar além da mera competência técnica.

Bizz número zero - Porão (R.E.M. & Jesus And Mary Chain)

REM

    Em sua terra natal, os americanos do R.E.M. são, já há alguns anos, incondicionais queridinhos da crítica. Na Europa, então, a adoração se estende a um pequeno mas fanático séquito. E a tribo que os coloca, junto com os grupos Jason & the Scorchers, Violent Femmes, Dream Syndicate e Gun Club numa espécie de renascença do verdadeiro rock ianque = rústico, guitarreiro e não pasteurizado.
    Ou seja, o R.E.M. está, com seu terceiro LP na boca do forno, pronto para subir à tona, até os olhos, ouvidos e coração do chamado "grande público". Já estava mais do que na hora...
    Formado em 1980 por Peter Buck (guitarra), Michael Stipe (vocal), Mike Mills (baixo) e Bill Berry (bateria), o R.E.M. pôs no mapa musical o nome de Atlanta, capital da Geórgia. Com várias gravações superpostas de Buck, ora na guitarra, ora no violão, o primeiro compacto era uma produção independente com Radio Free Europe e Sitting Stil/. Não deu outra: melhor do ano (81) segundo os críticos da Rolling Stone. A mesma turma de escribas que elegeria Murmur, o LP de estréia, melhor de 83.
    No confronto direto com o público não foi tão fácil. Os fregueses de um bar, no Texas, pagaram à banda 500 dólares para ela não tocar. Num show para a Força Aérea americana, tiveram de sair do palco sob proteção policial, tomates voadores e gritos de bicha!. Doce calvário dos inovadores.
    R.E.M. é um termo médico que abrevia rapid eye movement (rápido movimento ocular) e designa a etapa do sono em que mergulhamos em sonhos. Sintonia direta com as letras enigmáticas, quase obscuras, que povoam um universo sonoro comparado freqüentemente a dois marcos do rock feito à base da fusão guitarra/violão, os Byrds e o Velvet Underground.
    No palco, essa textura se espalha em trancos e barrancos de liberdade e irreverência. E capaz que o H.E.M. seja a última banda do planeta a aceitar - e tocar - pedidos da platéia.

JESUS AND MARY CHAIN

    Quando você ouvir - e ouvir falar de - Jesus and Mary Ghaifl, pense em desintegração. São quatro garotos de Glasgow, Escócia, um belo buraco onde não existe nada para a garotada, a não ser um bate-bola, e um porre constante. Willian Raid (guitarra). Jim Reid (vocal). Douglas Hart (baixo) e Bobby Gillespie (bateria) têm menos de vinte anos. Formaram a banda há menos de um ano. Nesse tempo, saíram da monotonia caseira, estabeleceram-se em Londres - morando três em um quarto -, lançaram um compacto (Upside Down) pelo selo ultra-independente Creation, lançaram outro compacto (Never Understand) pelo selo menos independente Blanco Y Negro (associado à WEA), que penetrou nas paradas inglesas, e logo passaram a ser qualificados de "Sex Pistols dos anos 80". Qual é o mistério?
    Desintegração. Uma batida psicótica. Uma melodia pop que se arrasta como um dinossauro ferido - E ondas e ondas de microfonia. Para eles, a microfonia não é apenas um truque no final de um acorde, usado para excitar o ouvinte. E a própria essência de seu som. Hendrix adoraria.
    Não existe tonalidade. Não existem os crescendo que atingem aqueles piques dançantes e assobiáveis próprios ao pop. Temos microfonia rasgando o ouvido como uma lima, e a guitarra arranhada a ponto de soltar faíscas. Eu os ouvi pela primeira vez em urna fita pirata da um vendedor em Portobello Road, em Londres. Disse ele: "O concerto é assim mesmo - Quarenta minutos de microfonia. E quando elas resolvem ir embora, param e saem no meio de uma música".
    Apareceram em um "vídeo", digamos assim, na BBC- Camisas soltas, caras de bebê, branquinhos, jeans rasgados no joelho. Um estilo de neo-psicodelismo. Mas eles não estão preocupados com modas.
    A Corrente de Jesus e Maria. A ambivalência de fundo religioso não fica só no nome. Em nome do pai do rock - Elvis -, o Filho - malucos e degenerados do som dos anos 60 - e do Espírito Santo - a geração punk -, esta corrente diz "Amém".
    Tudo que surgiu de importante no mastodôntico universo pop veio de fora. Grupos e figuras marginais, outsiders com intenções conscientes ou sub. Os inclassificáveis.
    O primeiro Espírito Santo dessa descendência seria o Velvet Underground. Houve outros famosos como Bryan Ferry e o Roxy Music Marc Bolan e o T. Rex, Bowie, Iggy Pop, os New York Dolls. Depois, geração de 77- Pistols, Tom Verlaine e seu Television, Richard Hell, Joy Division. Até cair do céu a mais transgressiva ala 80 - do que sobrou da desconstrução do Birthday Party aos vôos de Swans e Swans Way, dos eletrocavernosos Alien Sex Friend aos Príncipes da Escuridão, os sisters of Mercy.
    Este seria o som do incesto de Jesus e Maria. Cortante, estilhaçador um diamante bruto rasgando o vidro. Por tudo que evita, por todos os sons que não respeita, por todo os silêncios aos quais não se submete, a "musica" de Jesus and Mary Chain é uma das soluções possíveis para a música pop.
    A indústria do pop é mais voraz do que qualquer monstro mitológico. Precisa de um mito a cada dia. Na indústria, existe uma grande expectativa em torno desses escoceses. Eles serão capazes de gravar um LP? A WEA vai apostar no seu sucesso? Eles são capazes de levar gente a seus concertos? Tudo isso é secundário. Jesus and Mary Chain já cumpriram sua função transgressiva. Se voltarem ao silêncio, será um grande e apropriado final.

Bizz número zero - O novo rock alemão

O NOVO ROCK ALEMÃO
UM ASSOMBRO NA BIENAL DE PARIS

    A noite de 14 de abril no Grande Halle de la Villete, apesar de aberta pelo grupo húngaro Bizottság, valeu mesmo pela participação das bandas que representavam a Alemanha Ocidental, La Loora e Me & the Heat.
    Até aí, nada de novo. Há uma década atrás, superest relas anglo-americanas esperavam pelo golpe de misericórdia punk e a maioria preferia rebolar em ritmo bate-estaca nos salões espelhados das discotheques. Enquanto isso, a Alemanha agarrava o rock pelas orelhas para fazê-lo dar um, dois, três passos à frente, O Kraftwerk enxugava seus devaneios de Pink Floyd teutônico: em nome dos quadris, Lançou as bases do tecnopop. O Can explorava colagens com vôos instrumentais jazzísticos, também sem perder de vista o dançante espírito de época. Enquanto o Faust partia minimalista para a música das esferas, o Neu prefigurava o tecnopunk com a cara de pau de, em pleno 73, imprimir uma capa em roxo e verde-limão. Vanguarda, na Alemanha, 1á é tradição. Quem pegou a excursão brasileira do Cassiber, no ano passado, sabe. E na linha de frente do pop radical está o grupo Einsterzende Neubaten (tradução aproximada: Prédios Novos Desabantes) que monta seus instrumentos a partir de sucata.
    Quem veio ao gigantesco pavilhão onde está agora a Bienal de Paris, o antigo matadouro municipal, deveria, portanto, saber esperar pelo inesperado. E o show do La Loora começa justamente em clima de deixar todas as expectativas no ar.
    Em ambos os cantos do palco, cerca de três metros acima, dois telões projetam à contra luz rasgos e rasgos de cor. Do grupo, só vemos por enquanto a silhueta do baterista, munido apenas de chimbau, caixa e pratos - o resto fica por conta de um computador rítmico. Agora a cantora está à direita e já dá para ver o guitarrista e o tecladista fazendo soar seus instrumentos - pelo som, aliás, deveria haver pelo menos mais dez instrumentistas no palco. Ou seja, em algum canto de toda a parafernália eletrônica, seqüênciadores e sintetizadores programados estão tocando sozinhos, enquanto bombardeios e outras cenas da Segunda Guerra tomam os telões.
    Fora as vaias do pequeno número de punks que habita a platéia, todos estão hipnotizados. Criado em 81, o La Loora funde, de forma dançante mais refinada e curiosa, rock, jazz, swing e pop, com a intenção deliberada de, nas palavras do próprio grupo (com quem conversei após o show), estimular o ouvinte. Com provocações sonoras e visuais diretas - o que nos interessa é o palco, não o estúdio", afirma Doktor.
    Tanto que a formação da banda inclui, além de Doktor (sax/teclados), Hoffman (bateria), Split (voz/teclados), Florence (voz) e Amandowicz (guitarra), o operador de vídeo Gramming. Por trás de som e imagem, um projeto ambicioso:
    "Nossos faros vanguardistas são precisos. Música, pop e música experimental são duas coisas diferentes. Reunir esses dois pólos extremos é nosso dever, acrescenta Doktor.

    Eco das garrafas

    Mas o melhor ainda estava por vir. Centrado na figura maníaca, quase epiléptica de seu cantor e mentor intelectual, Tom Mega, o Me & the Heat deixou os franceses com o queixo no colo.
    Além da voz, Mega usa como instrumento uma lata de lixo toda amassada, cheia de garrafas, com um microfone preso à boca com fita crepe e ligado a uma câmera de eco. Sobre as límpidas bases do quarteto que o acompanha - Bernard Krämer (trompete), Achim Grebin (bateria), Nico Hesselbach (teclados/flauta) e Reinhard Falk (baixo) -, uma espécie de cotagem Police com Mies Davis, o cantor vai quebrando as garrafas, espalhando cacos de vidros por todo o palco, para depois se atirar sobre eles até sangrar. O resultado sonoro é de arrepiar a nuca. No fim a autoflagelação convive com arranjos elaborados, colocando o show dentro de uma linha de pesquisa e música performática que ultrapassa a instabilidade do rock atual. Alemão até o caroço, Tom Mega fala como um punk erudito, ou um novo bárbaro com uma base teórica.
    "As culturas de tecnologia avançada necessitam de formas de expressão arcaicas e bárbaras mesmo na fase de seu declínio, ou justamente por causa dele. Mas dentro dessa forma de expressão, para que possamos ter alguma chance de fazer sucesso, é indispensável ter à disposição uma técnica perfeita.
    Nada mal para uma simples noite de domingo.

Bizz número zero - John Fogerty

JOHN FOGERTY

    Quem tem mais de 25 anos talvez ainda se lembre do Creedence Clearwater Revival. Alguns temperam essas memórias com ódio incontrolável, certos de que o Creedence jamais passou de um subproduto do rock, uma bandinha competente com o taro aguçado para o sucesso e indigno de maiores atenções justamente pelo tato de ter tido sucesso demais - mais de 10 milhões de discos vendidos em menos de três anos de carreira meteórica. Outros, porém, lembram-se do Creedence como tendo sido uma das mais importantes e influentes bandas norte-americanas dos anos 60/70, artistas capazes de misturar o country & western (a música caipira dos EUA) e o blues como poucos conseguiram fazer. São os que sob os ritmos e as melodias fáceis de clássicos do COR - como "Green River, "Bom on the Bayou" e "Lodi" - conseguiram encontrar um retrato político e social da América daquele tempo.
    Para estes últimos o COR poderia ser resumido em duas palavras: John Fogerty. Mais do que a bateria básica de Doug Clifford, o baixo econômico de Stu Oook e a guitarra ritmo de Tom Fogerty (são irmãos), era John Fogerty quem simbolizava o grupo, um branco californiano com uma voz impossívelmente negra. Todas as músicas, os arranjos, os solos e as harmonias vocais (em disco) eram de John - - ele era o COR.
    Quando o grupo acabou, em 1972, todos os ex-integrantes do COR desapareceram no anonimato, exceto John - ele gravou dois álbuns-solo (tocando todos os instrumentos) e alguns compactos. Um terceiro álbum, Hoodoo, foi prometido em 1976, mas jamais saiu. E, desde então, John também ficou desaparecido.
    Até que, no final do ano passado, John ressurgiu com Centerfield, um álbum, que atualiza a sonoriedade rústica do COR e abre uma verdadeira clareira no chacundun pasteurizado do som-padrão FM. Imediatamente içado pela crítica à categoria de clássico, Centerfield acabou repetindo os êxitos de vendas dos discos do COR, permanecendo por meses a fio na lista dos 10 mais vendidos da revista Billboard.
    O vazio deixado por Fogerty - em sua carreira solo - de 76 até 84 - é explicado por uma complicada briga judicial entre o COR e sua antiga gravadora, a Fantasy. O COR acabou vencendo e recebeu os mais de 9 milhões de dólares que a gravadora lhe devia de royalties atrasados. E John estava, finalmente, livre de preocupações para poder voltar a trabalhar.
    Mas não foi um processo fácil. Fogerty trancou-se em seu estúdio, em Oakland, e começou uma série de experimentações. "Tentei disco, tentei punk", diz John, "tentei musiquinhas açucaradas, tentei art-rock cheio de sintetizadores, bem inglês, mas nada daquilo me parecia verdadeiro. Só me senti confortável quando comecei a tocar alguma coisa mais crua, mais selvagem. "Foi assim que surgiu Centerfield,"
    Como nas incursões solo anteriores, John é uma espécie de banda-de-um-homem-só. Ao vivo, Fogerty usaria outros músicos, mas no estúdio ele ainda prefere ficar sozinho. "Como ouvinte, eu adoro bandas", explica John. "Mas quando você faz parte de um grupo você também está casado com cada um dos integrantes. Acontecem coisas como por que você espreme o tubo de pastas de dentes no meio?. E, rapidamente, muita gente perde a perspectiva do motivo da existência daquela banda: lazer boa música, juntos."

Bizz número zero - Quiet Riot - Quebra o jejum dos metaleiros

QUIET RIOT
QUEBRA O JEJUM DOS METALEIROS

    Sexta-feira, 26/4/85 - Já eram quase nove da noite quando chegamos ao ginásio do Corinthians, devidamente coalhado de PMs e seguranças contratados da Fonsecas Gang. A maioria da molecada aglomerada no portão trazia Eddie, a caveirinha do Iron Maiden, em suas camisetas pretas... e, o Quiet Riot nunca teve muita repercussão por estas bandas.
    Lá dentro, Robertinho do Recife sobe ao palco com pontualidade britânica para desfilar as músicas do LP Metalmania. A acústica do ginásio não ajuda muito, o som chega todo embaralhado, mas milhares de gritos, urros e punhos erguidos dão vida ao refrão: "Bate o pé, bate a mão, a cabeça e o coração".
    Na lanchonete, pausa para uma cerveja, ficamos sabendo que houve, à tardinha, uma considerável invasão para engrossar o público pagante. Versões de satisfação garantida - ou seja, Maiden, Judas Priest e Deep Purple - encerram a participação de Robertinho. "Num tô gostando do som do ginásio, não dá pra entender o cantor... tá ruim, declara Alemão, do alto de seus dezessete anos, encostado numa pilastra. O que é que eu disse?
    Fim da preliminar. Rui, o homem da objetiva, se manda para o chiqueirinho dos fotógrafos, eu para o vestiário, a tempo de pegar Banalli, o baterista do Riot, saindo de cervejinha na mão para saudar o grupo de Robertinho. E quando fico sabendo das descabidas exigências da banda italoamericana. Por motivos "técnicos inexplicáveis, os outros grupos paulistas programados para esquentar a noitada - Made in Brazil - não tocariam mais. Nada poderia ofuscar o triunfo do Quiet Riot. Eu me pergunto... e Robertinho, teria ameaçado?
    Quando passo de volta por baixo do palco, à caça de um lugar, Frank Banalli e colegas já estão em ação. Entusiasmo fogoso logo à frente do palco, e só.
    De viseira vermelha, o vocalista Kevin Dubrow se exercita o tempo todo com seu especialíssimo pedestal para microfone, feito de madeira leve. As vezes, o empunha entre os dentes. Oubrigadou, San Páolo. Até que o som melhorou, em comparação com a preliminar.
    Party All Night leva ao delírio generalizado, o caçula Kjell Benner substitui o recém-saído baixista Rudi Sarzo com sangue, suor e faíscas. Encerrada a musica, voam sobre o palco vários itens de vestuário, seguidos de uma faixa que agradece a visita da banda aos trópicos. Aos gritos, Kevin se enrola todo nela, erguendo o pedestal entre as pernas como se fosse vocês-sabem-o-quê.
    Após rendições rasgadas de Dont Wanna Let You Go e Run For Cover é chegado o momento do obrigatório (pelo menos em shows heavy-metalúrgicos) solo de bateria. Banalli massacra tambores e pratos com as mãos, à moda do inesquecível John Bonham e, ao final, arremessa dois pares de baquetas para a platéia. Um dos felizes agraciados sobe nos ombros de um amigo e, a partir daí, vai reger a banda pelo show afora.
    No palco, uma dobradinha de micagens entre kevin e o guitarrista Carlos Cavazzo, mas sem grandes comoções do lado de cá. Bem melhor é a entrada de Winners Take All, a única balada da noite e, talvez, seu ponto alto. Milhares de braços são levantados e sacudidos num ritmo dolente. Essa você já viu antes: todos os isqueiros da arquibancada estão acesos, enquanto o gelo seco não faz fumaça suficiente para cobrir o palco.
    Não passou de um raro momento de romantismo. Com Lets Get Crazy a banda volta a seu andamento normal e, em seguida, Cavazzo fica sozinho no palco. Os outros, com certeza, foram se enxugar. Esperamos pelo solo de guitarra. Fundindo sua própria Battle Axe a Jesus, Alegria dos Homens de Bach, Cavazzo não mostrou grande coisa além de erudição exibicionista. Lembra de Randy Rhoads, aquele gigante da guitarra que começou com o Quiet Riot, para depois roubar os shows na banda de apoio de Ozzy Osbourne? Devia estar tremendo no túmulo.
    Nas últimas frases do solo, os outros três voltam aos poucos, Kevin com um terninho de riscas verticais brancas e vermelhas. Lets Get Crazy é retomada em uma rápida emenda com Stomp Your Hands, Clap Your Feet, e o Riot faz uma saborosa citação ao hino máximo do rockabilly, Blue Suede Shoes, de Carl Perkins. Alguém ali no ginásio saberia quem é o ilustre rapaz? Quem reconhece a musiquinha incidental?
    Todas as dúvidas se dissipam com o estrondo dos metaleiros reunidos na mais ruidosa unanimidade da noite. Afinal, estão tocando sua versão de Cum On Feel The Noize (aquela do Slade), o hit que estourou a banda em sua terra natal. Todo mundo está cantando, e Kevin aproveita para carregar Cavazzo nos ombros, no melhor estilo AC/DC ou Maiden. Quando a música termina, alguns gritos de Viva Brazil" e "Obrigadou e pronto, o Quiet Riot deixou o palco.
    A gente sabe que eles vão voltar, não pelos fracos pedidos de bis, mas porque isso sempre acontece e faltavam ainda alguns sucessos. Dito e feito. E voltam acompanhados de uma bandeira do Corinthians. Vaia geral, pela apelação (aposto que, no Rio, atacaram de Flamengo). No palco, risos amarelos mas, tudo bem, atacam de Metal Health, com surpreendente marcação de Benner e um belo solo de Cavazzo. No público, aparecem até algumas daquelas máscaras de ferro que simbolizam o grupo.

    Zumbido da overdose
    Outro hit do Slade, Mama Weer All Crazee Now, conclui esta apoteose concentrada, e rebatida por um mar de mãos fazendo o característico sinal dos chifrinhos (que a rapaziada do Riot repudiou em sua entrevista coletiva: "Não temos nada de satanistas"). São 23h20 - o que dá uma hora e meia de show - e desta vez o adeus é para valer, acompanhado de acenos com a bandeira do Brasil. "Obrigadou, we love you. Ninguém pede outro bis, mal estamos saindo do ginásio e já dá para sentir aquele zumbido típico da overdose de decibéis. Alguns encontros, aproveito para uma troca de opiniões.
    Peninha, o metaleiro cativo da FM 97, gostou "mas nem tanto". Já o venerável Celso Vechione, do Made in Brazil, achou "o cantor um palhação ridículo e desmunhecado". Para Jack Santiago, do grupo paulista Harppia, o Riot é apenas razoável, "bem pior que o Van Halen, por exemplo".
    Enquanto isso, no restaurante que fica em cima do ginásio, prosseguia mais uma "Sensacional Sexta-Feira Dançante", com a Banda Mosqueteiros detonando boleros e sambas-canções. Será que dava para ouvir alguma coisa enquanto o Quiet Riot fazia seu serviço? Sei lá. A primeira coisa em que pensei foi em Athos, Porthos, Aramis e DArtagnan empunhando cavaquinho, violão, rabecão e clarinete.



Ficha técnica


    Há mais de um ano excursionando pelo mundo, o Quiet Riot carrega pouquíssima aparelhagem, além dos instrumentos de cada músico. No Brasil, alugaram junto à empresa paulista Vai & Vai todo o PA (sistema de amplificação), a mesa de som, microfones e mesa de mixagem, fora caixas Fearl para a bateria de Banalli. A iluminação - 240 sopts de 1.000 watts e 4 canhões de luz Supertrouper - foi fornecida pela Translux.
    Carlos Cavazzo trouxe três guitarras Gibson, nos modelos SG e Flying V, e duas caixas Mars Hall. Kjell Benner veio acompanhado de dois baixos Fender Frecision. Kevin Dubrow carrega de um país para o outro apenas seu exclusivo pedestal para microfone de madeira, enquanto a bateria Pearl de Frankie Banalli é complementada por pratos Zildjian e Paiste.: Completam o arsenal: racks de efeitos digitais NXR, distorcedor Zeus, equalizador gráfico e Noise Cate.
    Calculava-se cerca de 4.000 watts de potência (lembrando que, nos anos 70, o Deep Purple se vangloriava de ser a banda mais alta do planeta, ao atingir os 10.000 watts).

Bizz número zero - Biquini Cavadão - O humor levado a sério

BIQUINI CAVADÃO

    Se numa das últimas tardes preguiçosas de outono você tiver esbarrado no rádio com um grupo chamado Biquíni Cavadão, das duas uma: ou você jogou longe a caixa de chocolates e tratou de aumentar o volume aos berros de "que negócio é este!?" ou você correu ao telefone para marcar uma consulta urgente com o otorrinolaringologista, certo de estar sendo vítima de um caso agudo de alucinação aural.
    Nenhuma das alternativas acima. O Biquíni não é piada, nem alucinação, apenas um dos quintetos mais afiados que surgiram na cena carioca nos últimos meses. Misturando teclados tecno-multitexturizados, harmonias pop remanescentes dos Beatles e letras incisivas, o Biquíni é um rock-shake peculiar, resultado da dieta musica! ultra-eclética a que foram submetidos Bruno (vocais), Sheik (baixo), Miguel (teclados), Alvaro (bateria) e Luís Carlos (guitarra). Nutridos de muito samba, música clássica, Roberto Carlos, tecnopop inglês e alemão e bandas da nova geração de rock brasileiro, o Biquíni forjou uma sonoridade única, facilmente destacável na aridez das FMs, a tão falada identidade própria, que nasceu de uma crise de identidade.
    Há dois anos o Biquíni Cavadão não era o Biquíni Cavadão e, sim, uma banda sem nome que destilava nos salões de um colégio carioca covers corretos de Kid Abelha e Trio ("da, da, da, da", lembram?) e que, na falta de uma guitarra, apoiava seu som nas muitas possibilidades de um sintetizador. Muita gente entrou e saiu do grupo, fundado por Bruno e Sheik, mas nenhum dos ex ou novos integrantes conseguia solucionar o Mistério do Nome Que Faltava. "A gente ficava debruçado no dicionário", lembra Bruno, "tentando achar nomes diferentes e acabava não achando nada de bom. O grupo quase se chamou Hipopótamos de Kart, ou, então, Lambrodocidus Angelibarba (o nome de um peixinho abissal), até que um amigo nosso (iniciais: H.V.), vendo aquela confusão toda, disse: Ah, põe Biquíni Cavadão e acabou o assunto". E ficou sendo Biquíni Cavadão. Eu fui contra, achava bobo, mas todo mundo gostava e acabei gostando também."
    O desgosto inicial de Bruno é compreensível. Qualquer desavisado já imaginaria cavadettes devidamente embiquinadas deliciando platéias com passinhos a go-go. Mas, por outro lado, imagine só ter peito suficiente para batizar seu próprio grupo de Biquíni Cavadão e não ser um bando de débeis mentais - ou um pré-fabricado qualquer - dispostos a tudo para levantar uma grana. O Biquíni, contra qualquer expectativa, não é engraçadinho. Pelo contrário, suas letras são argutos comentários sociais, tão sérias quanto um adolescente pode ser (todos do grupo estão na faixa dos 18,19 anos).
    "Tédio", o compacto de estréia do Biquíni, é uma bela crítica ao marasmo das jornadas escolares e começou a nascer numa aula de Física que Sheik assistia, "mas tinha algumas referências a coisas de fora, como tédio, eu não tenho programa... tédio, eu não durmo de pijama, e, no fim, acabou virando uma coisa mais ampla". Resultado: um claro flagra do estado de espírito do estudante, em particular, e do jovem, em geral. Parafraseando Herbert Vianna, que emprestou guitarras e idéias à gravação de "Tédio", atrás do bom humor do Biquíni tem uma seriedade legal.
    Mas tudo isso poderia ter ficado restrito aos muros do Colégio São Vicente, não fosse o empenho do produtor Beni (ex-baterista do Kid Abelha), que apressou-se em gravar uma fita-demo de "Tédio" em oito canais e levou a música à Fluminense-FM. Logo "Tédio" estava na programação e, quase em seguida, a Polygram acenava com um contrato.
    Entra em cena, mais uma vez, o bom humor biquiniano. Para a assinatura do contrato o grupo escolheu a praia como cenário. Os executivos da gravadora entenderam que seria uma cerimônia informal e foram à praia... bem, como se vai à praia! Eis que, voilá, chegam os integrantes do Biquíni, na praia... vestidos a rigor.

Bizz número zero - RPM

RPM

    "Agora a China bebe coca-cola, aqui na esquina cheiram cola."
    Por causa destes versos a música Revoluções por Minuto, do grupo 8PM, foi proibida de tocar nas rádios. A alegação da Censura: ela incitaria o uso de drogas.
    No outro lado do compacto estava Loiras Geladas. Lembra? Esta toca muito. Já tem videoclip, foi cantada no Chacrinha e também faz parte do primeiro LP da banda, que acaba de ser gravado.
    O percurso não foi fácil. Se hoje o RPM tem o camarim da Pool invadido por 30 garotas de mais ou menos doze anos, à caça de autógrafos, é porque houve muita batalha.
    Em maio do ano passado a banda dava seu primeiro show. Foi chamada para abrir o espetáculo do grupo pós-punk IRA na inauguração do videoclube Zoom Cósmico, em São Paulo.
    Depois o grupo passou a tocar pelo circuito underground da cidade: abriu o show do Ultraje na Tífon, carregou instrumentos para tocar nas danceterias paulistas Clash e Madame Satã, levou calote de dono de bar e chegou a dar vários shows na mesma noite.

    Popular e sofisticado
    Em outubro as coisas começaram a mudar. A banda mandou uma fita para a CBS e concorreu por uma vaga na coletânea Rock Wave. Conseguiu e, de quebra, ainda foi aprovada para gravar um compacto.
    O disco saiu e a partir daí o grupo passou a tocar pelas danceterias de São Paulo e do Rio.
    "Somos uma banda rica porque cada um teve uma experiência diferente", segundo a definição de Luís Schiavon, o tecladista. "Ficamos o tempo todo reciclando informação."
    Paulo Ricardo, ex-jornalista, é baixista, canta desde os sete anos e já formou várias bandas. Cansado de escrever sobre a música dos outros e, depois de uma viagem pela Europa, chamou Luís Schiavon, com quem já tocava desde 1979. Os dois começaram a compor e monta-ramo RPM.
    Luís estudou 13 anos em conservatório e já tocou muito tecnopop. Acompanhava Mae East (ex-Gang 90) quando conheceu Fernando Deluq, "uma guitarra mais ou menos punk".
    Esta guitarra vem do tempo em que Fernando estava no Ignose, uma banda paulista, e fazia shows no Napalm e no porão do Persona em São Paulo. Ele toca há seis anos e é parceiro de Mae East em Fire in the Jungle e Índio, músicas que acabam de ser editada na Holanda.
    Em fevereiro, Paulo Pagni, que toca há muito tempo e é professor de bateria, tornou-se o novo baterista da banda. Antes do disco, gravado com computador rítmico, o RPM era acompanhado por Júnior, de quinze anos.
    A banda se considera um "grupo de palco" e pretende fazer uma música que agrade tanto aos ouvidos underground do Satã, quanto aos dos ouvintes de FM e freqüentadores das danceterias: Queremos conciliar o popular e o sofisticado, temos que encontrar um equilíbrio".

    FM numa boa
    Mas será que depois de Chacrinha, videoclip e LP não teremos uma nova banda de FM? Eles mesmos respondem: "A gente não assumiu o padrão da moda, entramos com o nosso papel. A gente não muda, até já chegamos a ser recusados por gravadora. As armações têm tempo contado. No LP há pelo menos três músicas que se dariam bem em FM. Mas, se a gente não gostasse, não tocava".
    O disco vem bem variado. Tem as músicas do compacto. Um tecnopop sobre rádio pirata, quarteto de cordas sintetizado, balada. E só conferir.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Bizz número zero - Carrossel da repetição

CARROSSEL DA REPETIÇÃO

    Nos bares da vida, em entrevistas com estudantes, agências de propaganda e outros cantos, é comum que me cobrem mais qualidade e variedade nas FMs. Dizem que são alienadas, iguais e massificantes. E eu respondo: é verdade.
    Até que a Rádio Cidade introduzisse no Rio o formato jovem, a freqüência modulada era vista como um fricote tecnológico que serviria para adocicar com música de violinos a vida dos elevadores e escritórios. Foi aí que surgiu a figura do disc-jockey desimpostando a voz do rádio, falando descontraidamente para gatinhas e gatões, tocando música agitadinha. E deu certo. Afinal, não era preciso mais que isso para a juventude, asfixiada cultural e politicamente pelo regime, aquele. Era o país que tinha o dicionário do Aurélio como best seller e revista em quadrinhos liderando as vendas.
    Logo as vendas de aparelhos FM aumentaram: três-em-um, radinhos de pilha e, finalmente, o walkman. Os ecos desta agitação chegaram ao mercado publicitário e as agências descobriram o veículo ideal para vender jeans, refrigerantes e chicletes. Mas não havia dinheiro para todas e só as primeiras do ranking do todo poderoso Ibope ganhavam as verbas. Aos donos de rádios, passou a interessar somente o primeiro lugar, pouco importando as concessões para chegar ao topo da audiência. E cada vez mais as rádios são só jovens e se ouvem e se repetem, ficando cada vez mais iguais. Nunca Chacrinha esteve tão certo: Nada se cria, tudo se copia.
    Das páginas do Diário Oficial jorravam novas concessões. Afinal, quem autoriza as novas rádios é o governo, e, como FM virou bom negócio, os donos do poder descobriram que tinham uma nova moeda política. Congressistas, cabos eleitorais e puxa-sacos profissionais começaram a trocar favores por emissoras, num processo onde a competência profissional valeu muito pouco. E os novos prefixos, tocados por filhos, parentes ou aderentes, vêm engrossar o coro da mesmice.
    A chegada de novas rádios obrigou a contratação de novos profissionais. Estes somos nós: formados na marra, dando cabeçada para aprender o que é EM. As exigências que o padrão impõe são mínimas: voz bonita, um mínimo de coordenação motora para operar a parafernália e rudimentos de inglês. Português é opcional. Nos cursos universitários, o saber acadêmico ainda não destrinchou o mistério da EM. Na USP, por exemplo, ao lado de um equipamento do tempo do rádio a lenha, a bibliografia conta com um dicionário e uma apostila, ambos em inglês. Nas faculdades, se cultua a deusa rádio alternativa, que permitiria aos fiéis a suprema graça de tocar no ar os discos favoritos levados de casa.
    As tentativas de se fazer FM fora dos padrões vigentes, geralmente bem intencionadas, esbarram em muito amadorismo, imediatismo dos donos e má vontade da mídia. Estas rádios novas e necessárias são hoje como aquele enviado dos céus: muito esperadas mas pouco acreditadas. Neste cenário, as gravadoras se ocupam quase exclusivamente em fornecer matéria-prima para o consumo das rádios jovens. Deram um banho de estúdio em seus contratados, para que as gravações brasileiras tivessem o padrão sonoro das americanas. A paranóia de ser executado em EM chegou a produtores e artistas, que passaram a se guiar por padrões cada vez menos estéticos e mais de consumo. Quando se descobre ou importa um truque que dá certo, ele prolífera. Arranjos de Lincom Olivetti, solos de sax soprano, batida de Lynndrums, baixo à la Police são alguns acessórios que, em diferentes épocas, eram quase obrigatórios.
    Para garantir seus investimentos, as gravadoras sofisticaram a prática do jabaculê, e hoje, ao invés do presente ou dinheirinho para o programador, acontecem elegantes trocas de favores entre empresas. E o jabaculê de colarinho branco.
    Mas nem tudo está perdido para os descontentes. A tão sonhada diversificação começa a amadurecer. Não dá para sentir no dial, onde as músicas continuam se repetindo de uma rádio para outra. Mas os primeiros sinais surgem no horizonte. O número de ouvintes de EM está caindo em praças como São Paulo e logo vai ser um bom negócio atrair este público com outro tipo de programação. Vai ser necessário investimento e competência das emissoras, dedicação dos profissionais, paciência do público, visão e trabalho das agências, mas pode dar certo.
    Do governo, só se pede que profissionalize a concessão de emissoras e que fiscalize a atuação das que estão na praça, não com censura (pelo amor de1Deus), mas fazendo com que seja mantido o caráter de serviço público que as rádios têm. Afinal de contas, a idéia original era de que o rádio deveria servir à comunidade com formação, informação e, claro, lazer, e não virar uma caixa registradora.
    Se isso começar a acontecer, quem sabe, em algum tempo, os heavies possam escutar seus rocks sem interferência de Simone, os moderninhos possam curtir Kid Abelha em paz, quem já passou da idade de ouvir Metrô possa curtir em paz seu Manhattan Transfer e quem goste de samba não precise ouvir sintetizadores. Democraticamente, o que é muito melhor.
   
    Serginho Leite, 28 e 10 meses, é músico, compositor, humorista e está em FM há cinco anos porque gosta. Trabalhou na Rádio Cidade, Jovem Pan 2 e hoje está na Globo FM.

Bizz número zero - Rita Lee - Titia, eu não estou com leucemia

RITA LEE - TITIA, EU NÃO ESTOU COM LEUCEMIA

    Enquanto o Brasil era tomado por uma enxurrada de roqueiros de primeira viagem, Rita Lee estava dando um tempo. "Criando galinha", como ela mesma diz nesta entrevista recolhida por José Augusto Lemos em um intervalo das gravações do novo LP de Rita, no estúdio da Sigla em São Paulo.

    Agora que chegou a hora de colocar um ponto final nesse exílio voluntário, ela passeia de um lado para o outro com seu conhecido sorriso moleque. Não parece nem um pouco preocupada com as inevitáveis pressões e expectativas acumuladas. Afinal, não estaria superpopulada a quadra dos Unidos do Rock Engraçadinho?
    "Não tenho nenhuma resposta para dar a nada, a ninguém... nem sinto a menor vontade de compor um Arrombou o Rock. Estou é aproveitando essa rara oportunidade de poder fazer um disco com tempo e calma."
    Bombom, seu último LP, foi feito, segundo ela, a toque de caixa, no mais impessoal esquema linha de montagem. Não fizeram muito mais que entregar as canções nas mãos dos produtores, arranjadores e músicos de estúdio contratados em Los Angeles. "Aproveitamos essa especialidade americana que é a eficiência, mas agora estamos pensando em finalizar a produção na Inglaterra, onde esse pessoal se preocupa muito mais com a criatividade."
    Um detalhe importante: a julgar pela técnica de composição utilizada por ela e o inseparável Roberto de Carvalho, vem aí um prato cheio de tecnorock explícito. Todas as bases foram montadas em blocos apenas pelo marido/guitarrista, auxiliado por um arsenal de teclados computadorizados (ver ficha técnica).
    Nenhum músico de estúdio na jogada. "Intervenções" no casulo eletrônico do casal ficarão por conta exclusiva de participações especialíssimas como os ex-Mutantes Liminha e Serginho Dias, e as baquetas do Paralama João Barone. Ex Mutantes? Perai. Seria algum revival? "Não, apenas releituras", ela rebate com uma risadinha Mestres do Suspense.
    Mutantes. O nome do grupo já diz tudo. Com toda aquela salada de teorias de comunicação de massa, arte pop e "linha evolutiva" que recheavam o tropicalismo, o trio primava pela absoluta falta de seriedade. Só que isso ocultava um grau de fino deboche, sátira e paródia que só os punks conseguiriam igualar. Entre outras estrepolias, fizeram, por volta de 67, com Chão de Estreias a mesma esculhambação que Sid Vicious faria com My Way em 78. Apesar do comprimento dos cabelos, os Mutantes nunca foram hippies, pelo menos na formação original Rita/Serginho/Arnaldo. Mas, para ela, qualquer consideração sobre o pioneirismo do trio se apaga com as lembranças da total falta de profissionalismo: "Estávamos mais interessados em curtir o máximo possível, sem nenhuma preocupação". Saudades? "Não, foi um tempo que já passou", responde - agora bem séria - antes de acrescentar que não nutre nenhuma paixão pelo "lado empresarial do rock". Mais que desprezo, é aversão.
    Por essas e outras, Rita guarda péssimas recordações da maratona de shows que ela e Roberto fizeram, do Oiapoque ao Chuí, no verão 82/83. "Meu pai estava morrendo, acho que foi por isso que senti necessidade de me chapar... chapar através de um ritmo de trabalho desumano daqueles." Apenas uma lembrança bem-humorada: em certa cidade do Norte, chegaram a pensar que ela estava dublando em cima de playback por causa de seu microfone sem tio. "Foi um Projeto Rondon", arremata.
    E a tal nova geração do rock nativo? Rita conta que tem recebido visitas, no estúdio, do pessoal da Gang 90, Metrô, Degradée, feliz por ter sido tratada com a cumplicidade que se dedica a uma irmã mais velha - e não como a grande Titia simbólica pertencendo ao passado. Esse papo de "rainha do Rock Brasileiro" do qual ela nunca gostou muito: "Estou mais para a Risoleta do rock" Outra gargalhada.
    No mais, ela gosta de muitas das bandas recentes e está preparando, junto com Antônio Bivar, Marcelo Paiva e alguns amigos, um programa de rádio só para divulgar grupos inéditos. Bandas de garagem mesmo, que ela anda caçando tanto em redutos noturnos, como a Estação Madame Satã (o principal "porão" de São Paulo), quanto em cidades do Interior. Já institulado Rádio Amador, o programa ainda não se tornou realidade pela "falta de alguém com tarimba radiofônica para amarrar nossas loucuras e nosso amadorismo. Por enquanto está Rádio Amador demais".
    Mesmo com seu entusiasmo de irmã mais velha, ela acha "inevitável que o tempo dê uma boa peneirada na moçada, porque também tem algumas coisas que... aaargh!"
    No balanço final, Rita coloca como o grande ponto positivo de sua parada essa oportunidade de ouvir com atenção tudo que está surgido, tanto aqui como lá fora. Está apaixonada pelo Style Council e seu pop latino, o ex-purk Paul Weller compondo bossa-nova: "Acho demais, minha relação com a musica brasileira sempre foi mais bossa do que sambão". Dá "graças a Deus" pelos Eurythmics, o tecnocasal britânico (alguma identificação?). Exaltada, ela passa a disparar preferências: Prince ("ousadias mil"), o disco solo de Mick Jagger, Pretenders (essa, uma paixão mais antiga), Haircut 100, Frankie Goes to Hollywood ("pelo som da bateria"), Smiths nem tanto ("acho que fiquei meio indisposta com o surto de adoração generalizada").
    Muito bem. E o seu LP, Noviças do Vício? "Opa, peraí, esse talvez nem seja o título." Rocks, rockaços ou baladas aboleradas? "Tem uma baladona bem brega, Vítima, o resto é rock mesmo." A leva inclui Titia, Eu Não Estou Com Leucemia, para responder à boataria que varreu a imprensa um pouco antes e durante o Rock In Rio. O resto está trancado a sete chaves até que o disco seja lançado, entre junho e julho.

Ficha técnica

    Todas as bases das canções compostas para o novo LP de Rita e Roberto de Carvalho foram gravadas exclusivamente pelo guitarrista, munido de um circuito interligado - via MIDI, o interface para sintetizadores - de teclados computadorizados. O seqüenciador QXI da Yamaha controla e sincroniza todos eles: um JX3P da Roland, mais um DX1 e três DX7 da Yamaha. A "cozinha "fica a cargo de dois computadores rítmicos, um Dr. Flick e um LynnDrum II custam (isto é, adaptado segundo encomenda).
    Tudo isso conectado a uma mesa Boogie, somada a um Room Simulator AMS, para dar "acústica ambiental aos sons sintetizados digital ou analogicamente. A guitarra mais utilizada por Roberto é uma Fender Stratocaster, também custom.

Bizz número zero - Lançamentos

DISCOS

    BRONSKI BEAT - The Age of Consent (Mercury Polygram)
    Apesar de toda a adulação que cerca a ressurreição do "som acústico", o tecnopop não morreu. Como se não bastasse o estrondoso Frankie Goes to Hollywood, esse trio inglês canta o amor gay movido a seqüenciadores e outras máquinas. Os hits Why? e Smulltown Boy somam-se aqui a versões tanto dos irmãos Gershwin (It Aint Necessarily Se) a Giorgio Moroder e Donna Summer (I Feel Love. Pena que o Bronski Beat já tenha acabado, há menos de um mês, com a saída do agudíssimo vocal de Jimi Sommerville (segundo consta, o garoto não suportou as "pressões do estrelato").
    Menos voltada para as pistas de dança, e preocupada com novas texturas que equilibrem as dosagens elétrica, eletrônica e acústica, a dupla inglesa TEARS FOR FEARS chega ao segundo LP. O alívio dos fãs conquistados na estréia é facilmente e tiveram de esperar dois anos.
    O título, Songs From the Big Chair (original do selo Mercury, lançado pela Polygram, revela que Curt Smith (baixo, vocal) e Roland Orzabal (guitarras, teclados, vocal) continuam fuçando as mil vertentes disponíveis de psicoterapia. Trata-se de uma referência à poltrona onde a famosa esquizofrênica Sybill um caso clínico que virou best seller - extravasava suas fobias e angústias. citações à parte, o disco conta com melodias pop tão sedutoras que fundem caçadores de vanguardas perdidas e consumidores de radinho de pilha num só público contagiado.
    Uma especiaria em vinil: os hits que puxaram, na Inglaterra, o 12 até o topo das paradas - Shout e The Working Hour - valem apenas como amostra de um som que persegue todas as direções possíveis.

    STYLE COUNCIL - Shout to the Top (Polygram)
    Os maxicompactos, com versões esticadas segundo a refinada arte da mixagem, são uma das saudáveis práticas do mercado fonográfico inglês. Aqui, eles não têm merecido a devida atenção das gravadoras. Ainda assim, você pode argumentar que esse funkaço regado violinos já tomou de assalto as FMs. Nesse caso, fique com as duas baladas que vêm do outro lado.
    Indicado especialmente para os apaixonados pelo LP Café Bleu do multiestilístico Coulncil de Paul Weller e Mick Talbot.
   
    
   Dune - Trilha sonora
   Infelizmente, Sting não participa. Mas a trilha sonora de Dune (Polygram) conta com uma peça de BRIAN ENO e DANIEL LANOIS, célebres magos de estúdio e produtores do LP do U2. Essa pérola, no entanto é cercada da mais insossa mediocridade - leia-se o grupo TOTO - por todos os lados, Para os fãs de Eno que não tem modo, (vexame! vergonha!) em catálogo no Brasil, e, claro para os lãs em potencial do filme (que devem, antes de qualquer coisa ler o artigo da pág. 44}.

    FOREIGNER - Agent Provocateur
   Um momento inspirado cercado de mesmice por todas as fronteiras é também o novo LP do FOREIGNER, Agent Provocateur,(Atlantic/WEA). Com semanas a fio no topadas paradas americana e britanical Wont te Know What Love Is recupera os coros de gospel, a música negra religiosa, com alto teor de sangue, suor e lágrimas - isso com urna especialíssima participação do New Jersey Mass Choir. Agora, o resto do disco...

    Castle Donnington - Monster of Rock
    Nem sombra de dúvida, o pacote Heavy do mês é encabeçado por Castle Donnington - Monsters of Rock (Polygram). Em 16 de agosto de 1960, esse festival inglês reunia heavies de três gerações para um verdadeiro banquete de pauleira. O lendário RAINBOW de Ritchie Blackmore e os SCORPIONS comparecem com duas faixas cada, enquanto SAXON APRIL WINE, TOUCH e RIOT (não confundir com o Quiet) engrossam o caldo com uma por cabeça.

    THE FIRM
    THE FIRM, como você deveria saber, é a nova empreitada de dois monstros sagrados do rock inglês, o vocalista Paul Rodgers {ex-Free e Bad Company e o guitarrista Jimmy Page (precisa dizer de quem?). Um pulinho até a pág. 42 e você tem nas mãos nossa cobertura exclusiva do show do Firmem Nova York.
    Lançamento da WEA, através do selo Atlantic, esse primeiro LP do quarteto não recebeu uma acolhido das mais favoráveis lá fora. Seja como for, qualquer obra com o nome de Page merece ser conferida.
    Fechando o pacote, mais um grupo escavando a trilha da pauleira-purpurina (cortesia Alice Cooper}i habitada hoje por figuras simpáticas como Twisted Sister e Motley Crüe.

    RATT - Out of the Cellar 
    Caso você nunca tenha ouvido falar do RATT, que tem seu segundo LP (Out of the Cellar) lançado aqui, essa estréia em ordem invertida (Atlantic/WEA) é um bom começo. No recheio, uma versão do clássico rhythm n blues Walkin the Dog, de Rufus Thomas, que os Stones gravaram e Laurie Anderson parodiou em ritmo de samba.

   Metrô - Olhar
   Em plagas brasileiras, a época é de brava entressafra. Sabe-se apenas que vêm coisas finas a caminho - como os LPs de estréia do RPM e do Ira! Enquanto isso, apenas dois lançamentos. O grupo franco-paulista METRO - Virginie (vocal), Alec (guitarra, violão, Zaviê (baixo), Yann (teclados) e Danny (bateria) - chega agora em formato LP. Olhar (Epic/CBS) é o nome dele e já conta com três hits no currículo: Tudo Pode Mudar, Sândalo de Dôndi e Beot Acelerado, este em nova versão à moda inglesa, isto é, em arranjo bossa-nova, Nada mal para uma banda que já se chamou A Gota Suspensa.

    Vários - Aumenta que isso aí é rock'n roll
    Uma boa opção é a coletânea Aumenta Que Isso Aí É RocknRoll (Sigla/Som Livre), com certeza a mais abrangente das 1001 já lançadas nos últimos dois anos. Comparecem, entre outros. LOBÃO (Corações Psicodélicos), CELSO BLUES BOY (faixa. título), LEGIAO URBANA (Geração Coca-Cola), BLITZ (Meu Amor Que Mau Humor), PARALAMAS (Patrulhe Noturna) e LULU SANTOS (O Calhambeque). Ou seja, chuchu e camarão no mesmo caldeirão.

    
    Bob Dylan - Real live
    O menestrel está de volta. E, eu quanto não chega aqui o novo LP Empire Burlesque, os fãs de BOE DYLAN têm neste Real Liste (CBS um prato cheio, Gravado nos três últimos concertos da turnê européia realizada por Dylan no ano passado. o disco percorre mais de vinte anos de carreira. A surpresa ía pique de rocknroll sem firulas que reveste clássicos como Highway 61 Revisited e Ballad of a Thin Man. Na superbanda de apoio, as guitarras de Carlos Santana e Mick Taylor (Rolling Stones).

    THE CURE - Concert  
   Também ao vivo, chega enfim ao Brasil o grupo inglês THE CURE. Gravado na última excursão deles pela Grã-Bretanha, Concert (Polygram) é nada menos que o oitavo LP da banda liderada pelo guitarrista/vocalista/letrista Robert Smith (que já integrou esporadicamente os Banshees de Siouxsie).
    Ainda que não esteja descontado o atraso, Concert leva o mérito de resumir toda a trajetória da inquieta cabeça de Smith - um percurso que vai do mais curto e grosso popfunk ao florido neopsicodelismo de seu último LP de estúdio, The Top. Para dançar até lascar o assoalho, escolha Killing an Arab, primeiro compacto da banda, inspirado em O Estrangeiro de Albert Camus: "Estou vivo! Estou morto! Sou um estranho! Matando um árabe".

    U2 - Unforgettable Fire
   De um lado, os irlandeses U2 com The Unforgettable Fire (original do selo Island, lançado pela WEA}. Do outro, os escoceses BIG COUNTRY com seu segundo LP, Steeltown (Mercury/Polygram). Na intersecção, guitarras e vocais inflamados, unidos em hinos rasgados ao inconformismo. Não é à toa que ambos os discos acabaram entre os dez primeiros na votação "Melhores de 84".

    FRANKIE GOES TO HOLLYWOOD - Welcome to the Pleasure Dome (original do selo ZTT, lançamento nacional WEA).
    Uma superprodução de Trevor Horn (ABC, Yes) torna irresistível o álbum duplo de estréia da banda, Fora esse banho de sintetizador Fairlight e percussão eletrônica, valem mesmo as faixas que fizeram a festa dos bailarinos europeus em 64 - Fiel ex e Two Tribes - e a climática faixa-título, que culmina com um belíssimo solo de violão do ex-Yes Steve Howe. Surpresa agradável: a luxuosa capa saiu idêntica à do original inglês. Os cinco Frankies são Hally Johnson (vocal), Paul Rutherford (vocal), Marc OToole (baixo), Peter Gill (bateria) e Brian Nash (guitarra).

    PRINCE & THE REVOLUTION Around The World in a Day (Warner/WEA)
    Um caso sério de expectativas levantadas e, por incrível que pareça, correspondidas. Prince cercou todas as etapas da gravação do maior sigilo: nem os executivos da gravadora podiam chegar perto do estúdio.
    Mas, agora à luz do dia, Around The World in a Day traz megalomania pop suficiente para arrebatar os ouvidos mais cínicos. Desde a deslumbrante capa. o cantor/multiinstrumentista mergulha de cabeça na estética psicodélica dos anos 60, Uma deixa dessas e pronto.., é o suficiente para rotularem o disco de Sgt. Peppers dos anos 80.
    Tudo bem, as etéreas citaras que povoam a abertura estão mais para a fixação de George Harrison em rugas indianas do que a sombria ressurreição de Jim Morrison encenada por neopsicodélicos ingleses como o Echo & The Burnymen. Ainda assim, sobra espaço para Prince não perder os quadris de vista. Dá para dançar, como manda o figurino de um herdeiro de James Brown. Talvez os arranjos para percussão sejam, inclusive, a fatia mais gorda de Around The World In a Day.
    Já nas letras, Prince continua o mesmo, obcecado por sexo e Deus. Um erotismo místico que fornece matéria-prima para versos como, na faixa The Ladder: "O amor da criação de Deus tirará a roupa de vocês! E o tempo passado a sós, meu amigo, deixará de existir.

LANÇAMENTOS
Os bem cotados

    Primeiro, um surto de bossa nova contagia os novos popjazzistas da ilha britânica. Na seqüência, despontam evidências de que a música brasileira em geral anda em alta lá fora. Vamos às provas...

    Lembra daquela clássica pergunta "Se você fosse para uma ilha deserta, que discos levaria?" Pois bem. Todo mês, a revista americana Star Hits pega no pé de alguma estrela até ela aparecer com uma listinha de suas dez canções favoritas. Na edição de fevereiro. o eleito é Tom Bailey, o terço ruivo dos Thompson Twins. E em segundo lugar nas suas dez, Cravo e Canela de Milton Nascimento. Diz ele: "Podia ser esta ou qualquer outra canção de Milton. Ela tem a melhor voz do mundo".
    Voltando um pouco no tempo, a edição de novembro da Face - a bíblia dos ingleses estilosos - inclui Toda Menina Baiana de Gilberto Gil em sua seleção de compactos. O toque é o seguinte: "Um samba suave e relaxado em português: a pedida atual em latinas noites dançantes".
    Tem mais. A inglesa Coe... Two.. Testing (esta feita por e para músicos) de abril traz uma longa entrevista com Simon Booth, líder da Working Week, banda que encabeça o atual pop com base de jazz. Até começar a trabalhar no balcão de uma loja de discos, Simon era um punk convicto. Aí se deu a metamorfose: "O primeiro disco a tocar fundo foi o LP Getz A Go-Go, de Stan Getz com Astrud Gilberto e Gary Burton. Era um dos discos mais evoca: vos que eu tá tinha ouvido e. acima de tudo, tinha canções fantásticas. A vi o nome de Antonio Carlos Jobim e saí caçando os discos dele . Estava espantado com aquelas melodias estranhas e etéreas. sobre aqueles acordes esquisitos.
    Para finalizar, o quente nos EUA é Djavan. Em pesquisa recente da cadeia de lojas de discos Tower Records. o alagoano vem em 23.0 entre os mais vendidos Como se não bastasse, tanto Sting como Paul Simon estão para gravar composições do rapaz que, aproveitando a onda, embarca em excursão pelos Estados Unidos e Japão. Definitivamente preenchida a cota de ufanismo do mês.


Bizz número zero - A pedra que rola sozinha

A PEDRA QUE ROLA SOZINHA

    Imagine que você é pedra. Ou melhor, pedra fundamental de um dos principais alicerces de toda a cronologia pop-rock do planeta. Imagine que você, junto com quatro outros comparsas de infância/adolescência, criou uma identidade musical que acabaria apelidada de "a maior banda de rock and roll do mundo!" (com direito a exclamação e tudo mais). Imagine que você é a epítome, a quintessência do rock. Imagine que você é o astro vivo mais fotografado do mundo. Imagine que você se chama Mick Jagger.
    Quarenta e um anos, uma discografia vastamente esparramada entre o transcendental e o preguiçoso, a voz mais famosa do rock (e a mais imitada), uma carreira tão prolífica quanto controversa - pilhas de processos variados, que vão de pornografia e difamação a paternidade não assumida. Uma fortuna pessoal acumulada ao longo de turnês milionárias, um pezinho relutante no mundo do cinema, três filhas (duas adolescentes e uma bebê) e, logo quando tudo parecia monótono de tão fácil, sem desafios, a súbita opção de gravar um álbum solo.
    O que é que você faz então, Mick Jagger, você, dos lábios de borracha? Deita-se na cama e manda a fama garimpar no estúdio um álbunzinho mais ou menos, do tipo "um hit sólido para tocar no rádio rodeado de encheção de lingüiça por todos os lados"? Grava um disco de clássicos do blues, daqueles que fizeram sua cabeça antes de existirem uns tais Rolling Stones? Ou arregaça as mangas, contrata um produtor "mão-de-ferro" para coibir sua auto-indulgência, convida um naipe estelar de músicos, compõe canções à vera, ajuda a criar um enorme videoclip e, ainda por cima, gerencia as finanças de toda esta operação, fazendo valer seus conhecimentos adquiridos na London School of Economics?
    Pois bem, você não é Mick Jagger (embora pelo menos metade da população roqueira da Terra sonhe selo). Este cidadão já existe e tomou as decisões cabíveis. E optou pela alternativa 3 - após mais d~ duas décadas como o quinto mais famoso dos Rolling Stones, Jagger gravou Shes he Boss, um disco que decerto não mudará o curso da História, masque mesmo assim é delicioso e imperdível por apresentar ao mundo um Jagger revigorado, sintonizado com o mundo contemporâneo, em forma e disposto a provar que ainda sabe fazer bem o que melhor faz: rock e rhythmn blues.
    Tudo começou em 1982, quando, após uma associação de dez anos com a Atlantic Records, os Rolling Stones resolveram entregar a distribuição de seus discos à Columbia (CBS). O novo contrato estabelecia que, a partir dali, os Stones deviam quatro álbuns á nova gravadora - como grupo - mais dois outros, a serem providenciados por Jagger, solito. O contrato antigo, com a Atlantic, foi encerrado com o álbum Undercover e, desde então, não mais se ouviu falar dos Stones. Ou de Jagger.
    Até que, no ano passado, começaram a pingar daqui e de lá notinhas telegráficas que davam conta de que Jagger estava trancafiado nos estúdios Compass Point, nas Bahamas, com os produtores Sul Laswell (conhecido por seu trabalho com Nona Hendryx, Herbie Hancock e com seu próprio grupo, o Material) e Nile Rodgers (leia-se Lets Dance de David Bowie, todos os discos do grupo que ajudou a fundar, o Chic, e três faixas do novo álbum de Jeff Beck). Notinhas mais tarde, soube-se que nenhum dos outros stones compareceria às gravações, cedendo a vez a músicos como a dupla jamaicana Robbie Shakespeare (baixo) e Sly Dunbar (bateria), mais Herbie Hancock, Bernard Edwards, Jan Hammer, Pete Townshend e deff Beck.
    Em novembro passado, a coisa começou a ficar mais clara - pelo menos para nós, brasileiros - quando Jagger desembarcou no Rio com o diretor Julian Temple para rodar o clip do disco - na verdade, um superclipão de duração prevista entre 45 minutos e uma hora, envolvendo todas as músicas do álbum, muitas como trilha incidental. O cast seria basicamente brasileiro, à exceção de dois papéis principais - uma namoradinha do herói da fita, encarnada por Rae Dawn Chong, e um diretor de clips, vivido por Dennis Hopper - e um papel secundário, de astro de rock, confiado ao brasinglês Ritchie.
    Naturalmente, a essa altura a indústria fonográfica e a imprensa musical fervilhavam de tanta expectativa será que Jagger dará com os burros nágua? (tradução: "terá ele feito um disco tolinho e inexpressivo?"). Será esse, enfim, o canto de cisne dos Stones? Os rumores passeavam livremente porque o mais interessado no assunto - Jagger - estava de bico calado. Até que Jagger resolveu falar.
    À Record Jagger foi sucinto. Garantiu que os Stones ainda têm muita estrada pela frente - estão mixando seu novo álbum e vão lançá-lo em agosto com uma turnê mundial (ouvi alguém falar em Brasil?). O disco solo, na verdade, serviu como uma injeção de ânimo na fórmula de trabalho dos Stones, "Acho que eu queria quebrar um padrão", disse Jagger. "Continuar fazendo apenas discos e mais discos dos Stones não me parecia um desafio tão especial assim. Não que eu deixe de me divertir com os Stones, mas a coisa estava ficando segura demais, porque eles são uma verdadeira instituição."
    O primeiro passo em direção à quebra de padrão foi a própria ausência de stones e o empréstimo de auxílio externo. Só há uma parceria com Keith Richards no disco inteiro (Lonely at the Top) e, pela primeira vez, Jagger co-assina uma música com um não-stone, Carlos Alomar, antigo adido de um antigo rival de Mick, David Bowie (Lucky in Love e a faixa-título).   
    "Uma das primeiras coisas que Sul Laswell tentou me vender foi a idéia de usar músicos que tivessem personalidade", explicou Jagger à Record. "Se os músicos não tiverem personalidade própria, acabam impedindo que o disco tenha uma personalidade". Mas existe o outro lado da moeda - que personalidade resistiria à de Jagger, um exigente leonino cujos famosos atributos não incluem a modéstia? "Existem músicos que, gozado, sentem-se intimidados", contou Jagger à revista Musician. "Geralmente os mais jovens. Mas tentei ser o mais amigável possível para evitar isso. Existem muitos artistas que chegam ao estúdio, dão uma olhadinha para ver como vão as coisas, vão embora e só voltam bem mais tarde para colocar os vocais. Eu não, eu falo com as pessoas, reparto uma bebida antes de começar a trabalhar, justamente para que eles possam perder a timidez inicial ou qualquer tipo de preconceito."
    E Jagger - autodenominado "artista branco de rock" - sentiu-se intimidado pelos músicos que o auxiliaram em Shes the Boss? A maioria deles são o que se convencionou chamar "gigantes do jazz". "Possivelmente eles intimidam", confessou Jagger, "mas quando concordam em fazer alguma coisa são bastante cooperativos. E dão duro. E são rápidos. E conseguem mudar. O que ocorre com os músicos de rock é que eles não dominam tantos estilos assim. Geralmente eles estão presos a um ou dois estilos. Ao passo que se você chegar para um músico como Herbie Hancock e disser esse fraseado aí não está bom, ele não ficará ofendido. Ele é capaz de inventar outros cem fraseados, Um músico de rock não tem essa facilidade."
    Shes the Boss está repleto de "coisas novas", O primeiro sentimento que o disco inspira é de estranheza: basicamente a de ouvir a voz tão familiar de Jagger, tão imediatamente associável àquele tantão de sujeira técnica dos Stones, desta vez cercada de sons perfeitos, precisos. E impossível não achar que falta aquela sensação de precipício que os Stones sabem criar, a sensação de que aquela massa sonora está descontrolada, prestes a desabar a qualquer momento.
    "De maneira alguma esse discoteria a cara dos Stones", concorda Jagger. "Eu poderia ter feito uma cópia bem vagabunda, mas estaria sendo estúpido demais. Muitas das músicas poderiam até ter sido tocadas pelos Stones, mas não soariam como se tivessem sido tocadas pelos Stones. O disco solo do Dave Lee Roth, por exemplo, não tem nada de Van Halen."


Quem é quem em Shes the Boss

    Robble Shakespeare e Sly Dunbar
    Respectivamente baixista e baterista, são coletivamente conhecidos como os Riddim Twins (Os Gêmeos do Ritmo). Ex-integrantes da banda de Peter Tosh e do Black Uhuru, eles são encontráveis em qualquer disco que se pretenda atual. Já tocaram com Sob Dylan, Grace Jones, Tom Tom Club, Dames Brown.

    Bernard Edwards
    Baixista, fundou o Chio com Nile Rodgers, nos anos 70. Produziu o LP do Power Station.

    Tony Thompson
    Baterista, do Chic, já emprestou seus serviços a David Bowie e participou do Power Station.

    Mike Shriove
    Foi o primeiro baterista do Santana. Mais tarde, fundou o Novo Combo, já extinto.

    Jan Hammer
    Tecladista da primeira formação da Mahavishnu Orchestra e formou dupla em discos e palcos com Neal Schonn, guitarrista do Journey.

    Herbie Hancock

    Ex-pianista de Miles Davis, atual gênio do hip hop.

    Pete Townshend
    Fundador do Who, Pete é veterano colaborador dos Stones, Já participou do ainda inédito Rock and Roll Circus, programa de TV idealizado pelos próprios Stones em 1968. Cantou e tocou guitarra em Slave, faixa do álbum Tatoo You (81).

    Jeff Beck
    Guitarrista fundador do Yardbyrds, descobridor de Rod Stewart, Jeff por pouco não fez parte dos Stones, em 1973. Diz a lenda que ele desistiu da idéia por não ter gostado da seção rítmica da banda.

    Chuck Leavell
    Ex-tecladista do Allman Brothers, Chuck chegou a ter sua própria banda, Sea Level. Já trabalhara antes com os Stones em Tatoo You.

    Shes the Boss está nas ruas há semanas, mas e o clipão? Somente um trechinho é conhecido do público - a faixa Just Another Night, ambientada na gafieira Estudantina, no Rio. Ninguém havia conseguido explicar a contento o conteúdo do clipão. Nem mesmo Walther Salles Jr., capitão da brasileira independente Intervídeo - brindada com o contrato de feitura de um documentário nos moldes de The Making of Michael Jacksons Thriller.
    Em meados de fevereiro ele estava às voltas com entraves burocráticos que dificultavam a conclusão do Making of. Inicialmente encomendado para exibição na MTV, o trabalho da Intervídeo estava ameaçado de jamais ver a luz do dia. A mais recente previsão é de que o documentário fará parte de um pacote, junto com o cupão, para venda em lojas. Mas naquele fevereiro, quando tentei extrair de Walther uma idéia mais clara do roteiro do clip, não consegui grande coisa, apenas imagens fragmentadas, sem muita ligação entre elas.
    Graças ao bom Deus existe Julien Temple que - bolas - roteirizou e dirigiu o clip. E ele resolveu contar tudo à revista BAM!
    "Mick e Jerry (Hall, a atual sra. Jagger) fazem um casal pop bem absurdo, mais para Rod Stewart do que para Mick Jagger. Dennis Hopper é um diretor de vídeo asinino que vai filmar um clip no Brasil mas sem ter a mínima idéia do que pretende fazer. De repente ele resolve recriar West Side Story e, então, constrói todo um cenário de Nova York no Rio e faz um vídeo estúpido com brigas de faca, gangues, dançarinos... e Mick completamente bêbado. A coisa acaba se transformando em carnaval. Jerry e Mick estão brigados e ficam disputando para ver quem provoca mais ciúmes no outro. Mick agarra três dançarinas e as leva para seu trailler. Lá ele descobre que são três travestis e acaba levando uma surra deles. Roubam tudo de Mick - dinheiro, passaporte - e o abandonam dentro de um caminhão que transporta carne. No dia seguinte, Jerry se cansa de procurar por Mick e volta para casa. Depois, todos pensam que ele morreu, pois um dos travestis é achado morto, com o passaporte de Mick no bolso."
    Após ser preso no tal caminhão, Jagger vai parar numa fazenda do interior. A dona da fazenda é Norma Bengell - a trilha da seqüência é Shes the Boss, O astro é submetido a inenarráveis maus-tratos e a variadas maratonas de sexo, mas consegue escapar. Ainda duro, ele descobre um cassino clandestino, onde perde muita grana (Lucky in Love), e acaba indo em cana. Na prisão, faz amizade com os presos e, num golpe de mestre, liberta todos os altamente periculosos ao som de Secrets. Na fuga ele é ajudado por uma namoradinha (Rae Chong), que seduz o diretor da penitenciária. Tudo resolvido, os dois vão festejar numa gafieira. Mas o astro tem saudades de casa. Quando chega ao aeroporto, reencontra o diretor de clip, que está de volta ao Brasil para rodar outro vídeo, com outro astro (Ritchie). Quando percebe a presença de caçadores de autógrafos, o astro que parte se enche de alegria. Logo murcha quando descobre que todas as atenções estão voltadas exclusivamente para o astro que chega. E a história termina por aí.

Bizz número zero - Baratos Afins

BARATOS AFINS

    São Paulo, Grandes Galerias. Você entra ou pela av. São João, 439, ou pela r. 24 de maio, 62. Uma verdadeira colméia de lojinhas carregadas debugigangas made in Hong Kong, pedras semipreciosas, equipamento para silk screen, cabeleireiros especializados em corte black power e trancinhas afro.
    O mais importante é que, uma vez lá dentro, se você quiser, pode passar horas escolhendo discos e participando de fervorosos debates sobre a história do rocknroll.

    Este santuário do consumismo esconde várias lojas de discos que, pela abrangência de seu estoque, transformaram a galeria em um dos mais tradicionais pontos de encontro dos roqueiros da cidade.
    Dessas lojas, uma não se contentou com os discos oferecidos pelo mercado e resolveu criar seu próprio selo. Por isso, atenção: você pode entrar numa loja e estar ao mesmo tempo dentro de uma gravadora independente.
    Iniciativa das mais corajosas, num circuito quase que totalmente ocupado pelos grandes selos internacionais, a Baratos Afins já registra em seu catálogo uma série de momentos históricos do rock brasileiro. E tem mais: constitui hoje a única trincheira fonográfica das novas bandas paulistanas, que podem ainda desfrutar do luxo de lazer seu disco com sua própria concepção de produção em estúdio.
    Mas essa garra e heroísmo estão ameaçados. Por problemas financeiros e empresariais, a Baratos vem sofrendo sua maior crise.

    Refúgio defensor
    Luiz Carlos Calanca, cheio da onda da discothèque, resolveu em 1978 abrir uma loja de discos para pessoas que se sentissem no mesmo barco. O sucesso foi instantâneo, reforçado pelo mítico status adquirido pela loja, o de refúgio defensor do rock".
    Três anos depois, com a loja já ampliada e concorrentes seguindo o mesmo molde, Luiz decidiu atacar também na produção de discos. Uma decisão desencadeada por sua experiência com discos usados. Sabia que raridades fora de catálogo eram disputadas a tapa nos sebos da cidade. Mutantes e Arnaldo Baptista na cabeça.
    "Uma obra-prima do rock nacional", Luiz refere-se a Loki?, primeiro disco solo de Arnaldo. Ele não está sozinho em seu veredito. Disco originalmente lançado pela Polygram em 74, teve relançamento atrasado por problemas com essa gravadora. Luiz acabou soltando antes, em produção própria, Singin Alone, também do ex-Mutante.
    As exigências legais necessárias - abertura de uma firma e criação de um selo - fizeram Luiz assumir a aventura. Em novembro de 82, a Baratos tinha em suas prateleiras o grupo Patrulha do Espaço, um reduto do hard rock. Um ano depois o catálogo engordava. Ganhava o relançamento de Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets (Polygram, 72) e a estréia da banda Mixto Quente.
    "E um compromisso. O pessoal tá todo aí e precisa de uma força que as gravadoras não dão", afirma Luiz. Hoje, a nova geração do rock paulista constitui o grosso de seu catálogo. Uma safra variada, num espectro que vai do rockabilly ao heavy metal. A coletânea SP Metal- que reúne as bandas Vírus, Avenger, Salário Mínimo e Centúrias - é o best-seller do selo, com três mil cópias vendidas e uma nova tiragem a caminho.
    A Baratos Afins editou também o primeiro LP brasileiro literalmente feito em casa, Tora! Tora! Tora! da hilariante Esquadrilha da Fumaça. Inteirinho gravado em um cassete de quatro canais em um apartamento improvisado como estúdio, o disco só custou a Luiz a prensagem.

    Problemas de circulação
    Cada lançamento tem normalmente uma tiragem de três mil cópias, prensadas de acordo com a saída, "por falta de espaço para guardar". A partir daí, a Baratos esbarra em seus grandes problemas: distribuição e divulgação.
    Segundo Luiz, a venda é feita para lojas no estilo da Baratos, "Antes a gente levava nas lojas e nas rádios, mas já sofremos muita humilhação. Não apoiam, jogam num canto e não ouvem."
    Este ano, Luiz pretendia separar a loja do selo e ampliar seu catálogo. Além de vários lançamentos, a reedição de outro clássico do underground nativo, Para Iluminar a Cidade de Jorge Mautner (Polygram, 72). Estes discos vão sair, mas talvez sejam os últimos. A Baratos está "paralisada".

    Sem grana não dá
    Partindo do pressuposto que um disco só começa a dar lucro a partir das primeiras três mil cópias vendidas, só mesmo o SP Metal valeu o investimento. Tanto que vem aí o SP Metal II, com mais quatro bandas: Abutre, Korsus, Performances e Santuários. Isso com uma primeira tiragem de cinco mil cópias.
    Nenhum mistério. Heavy metal vende mesmo, apesar de muita gente só ter descoberto isso agora. E o resto do catálogo da Baratos Afins, um total de dezenove discos que, daqui a alguns meses, será aumentado para vinte e três?
    Dois dos grupos lançados por Luiz, o Smack e os Voluntários da Pátria - ambos sintonizados com o soturno porém elegante minimalismo pós-punk - tiveram pelo menos sucesso de crítica. São reconhecidos como pontas-de-lança do novo rock brasileiro, para não tocar na palavra "vanguarda".
    É aí que entra o problema da divulgação e da distribuição. Centralizada na figura quixotesca de Luiz, a Baratos com certeza se ressente de uma estrutura empresarial. Que ele não sabe se virá:
    - Preciso dar uma parada, pensar bem, Estou muito confuso, de bode mesmo. Ou a Baratos pára, ou reestruturamos tudo... não sei.